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Zoom confirma ter suspendido contas de ativistas a pedido do governo chinês

Rafael Arbulu

A Zoom confirmou que, a pedido do governo chinês, cancelou videochamadas de ativistas que buscavam relembrar e discutir o Massacre da Praça da Paz Celestial, ocorrido em 1989. Na época, o governo chinês declarou lei marcial e ordenou aos militares que respondessem com força letal a protestos estudantis em favor da democracia. Após cancelar remotamente as reuniões virtuais, a empresa ainda suspendeu as contas de alguns dos organizadores.

Segundo informações do blog oficial da empresa, a Zoom recebeu notificações do governo chinês sobre “quatro aglomerações grandes relembrando o episódio", o que é considerado manifestação política, uma atividade ilegal na China, punível por crime de dissidência. Em processo de análise interna, a companhia concluiu que duas destas manifestações virtuais contavam com “significativa presença de participantes dentro do território chinês”.

As outras duas eram sediadas nos EUA, mas o governo chinês insistiu que mesmo essas reuniões contavam com participação de pessoas dentro da China. Depois de deliberações, a Zoom suspendeu as contas dos organizadores das reuniões, embora duas delas — as reuniões em solo americano — já tenham sido restituídas.

Especificamente sobre estas duas, elas pertencem a Wang Dan e Zhou Gengsuo, dois cidadãos chineses que se realocaram nos Estados Unidos, mas que participaram das manifestações como estudantes. À Reuters, Wang disse que pretende tomar ações legais contra a empresa:

A Zoom obedeceu ao pedido da China... ela não pode simplesmente fazer isso passar com um comunicado. Nós continuaremos a usar nossos meios legais e opinião pública para fazer com que ela seja responsabilizada pelo seu erro.

O Zoom justificou sua decisão em dois pilares, dizendo que, embora tenha suspendido as reuniões e contas de seus apresentadores, não forneceu ao governo chinês nenhuma informação pertinente aos usuários em si. Ademais, representantes da empresa dizem ter obedecido ao pedido chinês desta forma porque a plataforma não possui capacidade para remover usuários específicos ou barrar um único país de participar de reuniões. Finalmente, a Zoom negou que tenha qualquer acesso “secreto ou invisível” para que governantes de qualquer nação monitorassem reuniões sem serem percebidos.

Advogados de direitos humanos passaram a questionar a empresa sobre seus laços com a China, além do histórico familiar de seu CEO, o bilionário sino-americano Eric Yuan. A empresa não respondeu, mas afirmou que não permitirá que pedidos do governo chinês afetem a experiência de uso do app de videochamadas por pessoas fora do território da China. Mais do que isso, o Zoom aproveitou para anunciar que está trabalhando em um recurso futuro que permitirá o bloqueio de participantes por meio de sua geolocalização.

Sobre o Massacre da Praça da Paz Celestial

A Praça da Paz Celestial (Tiananmen Square) foi o palco de uma das manifestações estudantis mais intensas da China, voltada à implementação da democracia e buscando mudanças de maior transparência no regime autoritário da nação asiática. Tornou-se um dos casos mais violentos de repressão do estado à livre manifestação, após o governo chinês declarar lei marcial em resposta aos protestos, ordenando que o exército atacasse os cidadãos que se recusassem a voltar para suas casas. Na praça, vários deles fizeram justamente isso.

A imagem abaixo marcou a data de 5 de junho de 1989, quando um homem carregando uma sacola foi fotografado fazendo frente a uma linha de tanques de guerra. A foto ficou conhecida como “O Rebelde Desconhecido”, pois até hoje ninguém conseguiu atribuir uma identidade ao homem na imagem.

"O Rebelde Desconhecido" é uma foto icônica dos protestos da Praça da Paz Celestial de 1989 (Foto: Jeff Widener)

Os protestos começaram após a morte do general pró-reforma Hu Yaobang, em abril de 1989, perdurando até o fatídico 4 de junho do mesmo ano, quando o exército foi movimentado.

Os manifestantes pediam por maior transparência do governo em todas as esferas, listando exigências como maior responsabilidade fiscal, processos democráticos à vista do povo e liberdade de imprensa. À época, o governo chinês estava soterrado em escândalos de corrupção, com manobras fiscais que beneficiavam somente a uma parcela da população, empobrecendo ainda mais quem já era desfavorecido. Tais acusações, evidentemente, nunca ficaram comprovadas.

Fonte: Canaltech