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PIB da zona do euro cresce 12,7%, mas é ameaçado por nova onda de covid-19

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Na comparação com o mesmo período do ano passado, houve queda de 4,3%, resultado melhor do que a contração de 7% prevista por economistas A economia da zona do euro cresceu em um ritmo recorde no terceiro trimestre, mas já dá sinais de estagnação por causa do ressurgimento de infecções por covid-19 e as novas restrições adotadas em toda a região. Números divulgados nesta sexta-feira pelo Eurostat, o escritório de estatísticas da União Europeia (UE), mostraram que o Produto Interno Bruto (PIB) dos 19 países da zona do euro cresceu 12,7% entre julho e setembro ante o trimestre anterior, após queda de 11,8% registrada no período entre abril e junho. O crescimento no terceiro trimestre foi mais forte que o dos EUA. Isso reflete o fato de o bloqueio do segundo trimestre ter sido mais rigoroso e duradouro na Europa, o que levou a região a uma recuperação especialmente acentuada após as restrições serem suspensas. No entanto, essa retomada já foi paralisada com o início do outono no hemisfério norte, no fim de setembro, à medida que as infecções por covid-19 voltaram a crescer. Antes mesmo de os governos agirem para controlar firmemente as atividades sociais e econômicas, os consumidores já evitavam comer fora, viajar e se divertir pessoalmente. As empresas estão mais cautelosas. Depois que Alemanha e França, as duas maiores economias da Europa, impuseram novos “lockdowns” para conter o vírus, a expectativa é que o PIB da zona do euro encolha novamente no último trimestre do ano. “Espere o temido ‘duplo mergulho’”, disse Bert Coljin, economista do ING. Alguns economistas agora projetam que a Alemanha, que resistiu melhor à pandemia do que seus vizinhos por causa dos laços comerciais com a China, já em recuperação após controlar o vírus, volte a ter uma contração da economia no quarto trimestre. A França pode ser ainda mais atingida pela segunda onda. Economistas do Berenberg estimam que a economia do país possa encolher entre 3% e 4% no último trimestre, uma contração muito menor que os 13,8% registrada entre abril e junho. O “lockdown” francês — que obrigou o fechamento do comércio não essencial e exige que as pessoas permaneçam em casa — atingiu negócios que estavam apenas começando a se recuperar. Hortense Harang, que dirige uma empresa que conecta produtores de flores locais a floristas e clientes no varejo, planejava expandir seu negócio. O recente aumento no número de infecções interrompeu esses planos. “No verão, todas as pessoas estavam se comportando como a covid-19 não existisse mais. Agora vimos qual é o resultado disso”, disse ela. É improvável que qualquer contração econômica nos países da zona do euro seja tão profunda como a do segundo trimestre, a mais acentuada desde a Segunda Guerra Mundial, porque as fábricas foram poupadas nas novas restrições. No entanto, um novo recuo deixaria a Europa como um dos elos mais fracos da economia global no decorrer do ano. A China já voltou aos níveis pré-pandêmicos, os EUA estão 3,5% abaixo desse patamar e a zona do euro fica ligeiramente atrás, com 3,7%. O tamanho da diferença vai depender da duração das restrições e do desânimo de empresas e da população com a nova situação. O Barclays Research estima que a economia dos EUA provavelmente voltará aos níveis pré-pandemia nos meses finais de 2020. A Europa, porém, só conseguiria atingir essa meta em 2023. “Pode ser muito cedo para chamar a Europa de principal perdedora com a crise de covid-19, mas, por enquanto, parece que o quarto trimestre será pior para a Europa”, disse Christian Keller, economista-chefe do Barclays. O “duplo mergulho” também aumenta os riscos de danos de longo prazo, à medida que os negócios fracassam e cresce a desqualificação da mão de obra. A escassez de investimentos pode agravar os problemas de longa data da Europa, como crescimento fraco e baixo número de novas indústrias surgindo. As principais companhias aéreas da Europa já estão alterando os planos. A Air France disse hoje que, agora, operará no quarto trimestre com apenas 35% da capacidade de 2019, abaixo dos 50% programados anteriormente. O International Consolidated Airlines Group, dono da British Airways e da Aer Lingus, está reduzindo sua capacidade para 30%, contra os 40% inicialmente previstos para esta época do ano. “A recuperação será uma longa ascensão com contratempos”, disse a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva. “No momento, estamos enfrentando um desses contratempos de maneira dramática. Isso vai atrasar a recuperação, mas ela ainda é uma recuperação.” No entanto, a força da recuperação no terceiro trimestre tem servido como uma fonte de esperança para algumas empresas. “Uma desaceleração nos próximos meses parece inevitável, mas estou cautelosamente otimista porque nunca teria sonhado que teríamos uma recuperação tão forte após o longo ‘lockdown’”, disse Laura Rocchitelli, presidente e executiva-chefe da Rold, uma empresa que fabrica peças para eletrodomésticos perto de Milão, na Itália. Os sinais de uma segunda contração já são evidentes em dados mais recentes. O índice gerente de compras (PMI) da zona do euro, divulgado na semana passada, registrou uma queda em outubro, a primeira desde junho. As novas restrições devem fazer com que a atividade econômica volte a cair em novembro, embora ainda seja possível uma retomada do crescimento em dezembro. “Novembro será um desastre para todos nós”, disse Mehdi Sebti, que tem uma loja no centro de Paris que vende bolsas e outros produtos. “Dizem que o ‘lockdown’ é para salvar a época do Natal. Dedos cruzados para que isso aconteça.” A segunda lacuna pode ampliar as já enormes diferenças entre o sul e o norte da Europa em relação aos danos causados pela pandemia. Como Espanha e Itália dependem mais dos serviços presenciais, suas economias podem sofrer mais nos próximos meses, especialmente se as restrições permanecerem por mais tempo. “Em mais de 120 anos de história, houve muitas crises. Mas nunca tínhamos visto algo assim antes”, disse Gustavo Sierra, gerente do restaurante La Pepica em Valência, na Espanha. Já frequentado por Ernest Hemingway e Orson Welles, grande parte do faturamento do La Pepica vinha de estrangeiros. Os turistas costumavam representar quase 60% dos clientes, mas agora poucos visitam Valência. As reservas caíram 90%. O restaurante, com 300 lugares, tem recebido uma média de 50 pessoas e parou de atender no jantar. Mas, mesmo no sul da Europa, algumas empresas parecem otimistas. Esse sentimento é mais intenso entre fábricas que dependem do exterior para garantir parte de sua receita. Quase 85% dos 40 milhões de euros de receita da Rold é conseguido por meio de vendas para fora da Itália, especialmente para a China, Coreia do Sul, EUA e outras partes da Europa. A empresa contratou 24 pessoas neste ano e se prepara para aumentar sua linha de produtos, apesar das incertezas causadas pela pandemia. “Estamos investindo agora para não sermos pegos de surpresa quando sairmos deste túnel”, disse Rocchitelli. Linus Hook/Bloomberg