Mercado abrirá em 1 h 31 min
  • BOVESPA

    113.282,67
    -781,33 (-0,68%)
     
  • MERVAL

    38.390,84
    +233,89 (+0,61%)
     
  • MXX

    51.105,71
    -358,59 (-0,70%)
     
  • PETROLEO CRU

    74,98
    +1,00 (+1,35%)
     
  • OURO

    1.748,20
    -3,50 (-0,20%)
     
  • BTC-USD

    43.648,55
    +440,62 (+1,02%)
     
  • CMC Crypto 200

    1.089,35
    -13,71 (-1,24%)
     
  • S&P500

    4.455,48
    +6,50 (+0,15%)
     
  • DOW JONES

    34.798,00
    +33,20 (+0,10%)
     
  • FTSE

    7.053,16
    +1,68 (+0,02%)
     
  • HANG SENG

    24.208,78
    +16,62 (+0,07%)
     
  • NIKKEI

    30.240,06
    -8,75 (-0,03%)
     
  • NASDAQ

    15.235,75
    -83,00 (-0,54%)
     
  • BATS 1000 Index

    0,0000
    0,0000 (0,00%)
     
  • EURO/R$

    6,2463
    -0,0093 (-0,15%)
     

Zezé Motta, a influencer: 'Hoje não sofro discriminação, mas aproveito o espaço para a denunciar'

·9 minuto de leitura

RIO — “Atriz, cantora e militante. Prazer, eu sou Zezé Motta”. Assim a artista se apresenta em suas redes sociais, que, aliás, não por acaso, triplicaram de seguidores durante a pandemia. Moradora do Leme, aos 77 anos recém-completados e dona de uma carreira de sucesso de mais de cinco décadas, Zezé se recupera de perdas familiares — incluindo a mãe de 95 anos que faleceu de Covid-19 — se jogando de cabeça no mundo das artes e da internet. Em boa fase profissional, ela se divide entre a realização e a divulgação de diferentes trabalhos na TV, nas telonas, nos palcos e na web. Entre eles está o especial “Zezé Motta — Mulher negra”, gravado no Hotel Chez Georges, em Santa Teresa, que será exibido domingo (25), Dia da Mulher Negra Afro-Latina-Americana e Caribenha, às 17h, na TV canal L!ke e também no YouTube do Teatro Bradesco.

Com roteiro e direção de Yasmin Thayná, o especial vai contar com um pocket show comandado por Zezé e com depoimento de mulheres como as atrizes Cris Vianna, Elisa Lucinda, Indira Nascimento, a cantora Iza, a escritora Conceição Evaristo, a filósofa Djamila Ribeiro e a ex-BBB Camilla de Lucas. Para celebrar as mulheres negras, uma das grandes homenageadas é a líder quilombola Tereza de Benguela.

Na apresentação da atriz-cantora estão canções consagradas como “Magrelinha”, de Luiz Melodia, e “Tigresa”, de Caetano Veloso. A artista estará acompanhada da maestrina Claudia Elizeu e vai contar com a participação especial da jovem cantora Malía, que foi uma das atrações do Rock in Rio.

— As chefes das equipes de direção, roteiro, direção de fotografia, direção de arte e montagem são todas mulheres negras. Acho que por essa razão esse evento já é uma grande conquista. Ele de fato mostra a nossa potência. Vejo este especial como uma grande homenagem. Elas são importantes porque significam o reconhecimento de uma batalha para construir uma carreira. Começar uma trajetória profissional no Brasil não é fácil, mantê-la também não, para qualquer pessoa, e para a mulher negra é ainda mais difícil. Hoje não sofro com a discriminação racial, mas aproveito o espaço da mídia para denunciar, combater. E vejo isso como uma missão. Venho tentando virar esse jogo há mais de 50 anos. Por isso, quando me pedem um conselho, sempre digo: não desista do seu sonho, é duro, mas vale a pena — reflete a “cantriz”, como diz se enxergar. — Fico em estado de graça cantando e atuando. Sou as duas numa só. Não saberia escolher uma delas. Mas se você me colocar contra a parede, acho que fico com a música. Isso porque empresto a atriz para a cantora.

Garota-propaganda e influencer

De origem humilde, durante a infância Zezé morava nos fins de semana no Morro do Cantagalo, em Copacabana, com os pais, e durante a semana no Leblon, com um tio que era porteiro de um prédio no bairro. Influenciada pelo pai, foi lá que fez amizades e deu seus primeiros passos no mundo da arte. Já artista, morou 40 anos em diferentes endereços em Ipanema e há dez anos vive em um apartamento no Leme que foi de Clarice Lispector, com placa que faz referência à escritora no hall de entrada, como ressalta Zezé.

Por telefone, ela conta que segue à risca o isolamento social imposto pela pandemia e por isso abriu mão de prazeres como ir a restaurantes da região, caminhar na orla e receber em casa os amigos — e até equipes de reportagem. Mas frisa que não se sente sozinha. Na decoração feita por ela, os amigos e familiares estão por toda parte. Os mais íntimos ganharam porta-retratos no piano de cauda, seu xodó e que voltou a ser usado com frequência, já que Zezé aproveitou a fase para retomar as aulas de piano.

Também na sala, há uma parede completa com imagens de personagens marcantes de sua carreira, como a histórica Xica da Silva, que completa 45 anos, além de um vitral e de objetivos que valorizam a cultura africana.

— Como gosto muito de receber pessoas queridas, escolhi esse apartamento por ser amplo. Não sabia que era da Clarice. Foi uma grata surpresa quando soube. Ele faz alguns ruídos, como toda construção, e dizemos brincando que é a presença dela. Alguns amigos pedem para quando ela aparecer eu não esquecer de chamá-los para um café. — diverte-se. — Um amigo decorador perguntou se eu não estava enjoada da minha decoração. Respondi que, após dez anos, confesso que estou um pouco. Ele disse que assim que possível vai me dar um nova de presente. Mas já falei que não abro mão das minhas fotos. Também gosto muito de plantas, e ele prometeu que vai colocar ainda mais.

Apesar do cuidado, ano passado Zezé descobriu que tinha Covid-19, de forma assintomática, após fazer um teste para uma campanha publicitária. A artista revela que saber que estava infectada com o novo coronavírus e ainda perder sua mãe Maria Elazir Motta, de 95 anos, um irmão e dois primos mexeu muito com ela.

Para se recuperar do luto antes de se dedicar com afinco à carreira, voltou a fazer análise, dessa vez de maneira remota, o que deu início a sua entrada de vez no mundo digital.

— Foi um baque muito grande perder minha mãezinha e familiares próximos, e ainda fiquei muito assustada por outros parentes que também foram infectados e por saber que eu, na minha idade, também estava. Sou muito grata a Deus por estar viva. E foi a partir da análise on-line que entendi que a maneira de se comunicar mudou. Antes eu era muito resistente com o digital, e na pandemia essa era a única maneira possível de trabalhar. Acho que foi nesse momento que virou a chave e virei digital — conta a artista, que desde então tornou-se atuante nas redes sociais.

Garota-propaganda de marcas como Natura, Nívea, Avon, Bradesco e Lojas Americanas, Zezé revela que nunca fez tanta publicidade em sua carreira como agora.

— É minha principal fonte de renda hoje. As pessoas acham que artista é rico, mas são poucos os que conseguem enriquecer no mundo da arte. É tudo com muita luta. Fui casada cinco vezes, mas sempre fui independente. Gosto de me bancar e apoiar as pessoas que gosto. Tenho três filhas, um filho, criei duas sobrinhas e perdi as contas dos netos, acho que uns seis. E sempre que posso e a família ou amigos precisam, tenho prazer em ajudar — afirma.

Nas telonas

Imunizada com as duas doses da vacina contra a Covid-19, Zezé faz planos para o pós-pandemia.

— Já comecei a marcar um reencontro com algumas amigas também vacinadas, mas só mais para a frente. Também quero voltar a fazer aula de inglês. Fui conversar com um amigo canadense e percebi que estou precisando. Também tentei ler um livro em inglês e não fui bem — detalha.

Apaixonada por literatura, ela conta que recentemente terminou de ler o livro que conta a história de Carolina Maria de Jesus, personagem a que Zezé deu vida em um filme, em 2003. Empregada doméstica, catadora de papel e moradora de favela, Carolina é considerada a primeira escritora negra do Brasil. O próximo na fila de livros, adianta, será “O casulo”, de Laila dos Santos, uma escritora contemporânea que também é negra e de comunidade.

Quem vê Zezé contando com calma e simpatia detalhes sobre sua vida não imagina a rotina agitada que ela tem vivido.

Após fazer uma participação na novela das 19h da TV Globo que acabou este mês, “Salve-se quem puder”, Zezé está escalada pela emissora para fazer dois novos trabalhos: as séries “Arcanjo renegado” e “Fim”, esta baseada em livro de Fernanda Torres.

No cinema, a lista é extensa: está no filme “M-8 — Quando a morte socorre a vida”, de Jeferson De, agora no streaming (Netflix). E está em cartaz com os filmes “Doutor Gama”, também de Jeferson De, biografia de Luiz Gama, advogado, jornalista e escritor considerado herói nacional por seu ativismo abolicionista no século XIX; e “4x100 —Correndo por um sonho”, do diretor Tomas Portella.

— Estou aqui com três roteiros na mão. Mas sempre arrumo tempo para o que gosto de fazer. Há coisas que são sagradas, como minha rotina de beleza, por exemplo — diz.

Zezé revela que já teve muitas crises de idade, mas depois que fez 70 passou a se aceitar e revelou ser adepta do skin care.

— A idade foi chegando, eu já tinha aquela luta “mulher-negra-brasileira” e comecei a ficar preocupada com isso. Pensava cá com meus botões: “Meu Deus vou arrumar mais um problema para sofrer?”. Chega! Não tive mais tempo para isso. Hoje me aceito e deixo a idade chegar, mas também me cuido, é claro. Antes de começar a nossa entrevista, estava em um programa do Sesc, e quando acabou tomei um banho e passei creme do dedão do pé ao último fio do cabelo, me arrumei e me perfumei, coisas que amo fazer, sem precisar de uma ocasião especial — conta.

A artista também lembra que quando tinha por volta dos 60 passou pelo bisturi:

— Fiz uma cirurgia no entorno dos olhos, porque tinha muita pele na pálpebra, o que estava deixando meu olhar caído, triste. Puxei a minha mãe. Aconselhada pela médica, aproveitei a anestesia e dei uma esticadinha nos olhos e tirei a papinha do pescoço. Nada que mudasse minhas características.

Zezé também relembra que quando ganhou o papel em “Xica da Silva”, ainda bem jovem, foi chamada pela crítica de uma atriz feia, mas exuberante.

— Eu me lembro como se fosse hoje que me olhava na foto das revistas na época, me achava linda e não entendia. Tinham como padrão de beleza as características europeias. E é preciso lutar até hoje contra esses padrões impostos. O julho há de ser de nós mulheres pretas. Queremos debater, cobrar, denunciar e reconhecer as mulheres, desbravadoras, intrépidas e resistentes. A resiliência vive comigo, a fé não sai do meu lado — afirma.

A produção em série não para por aí. Em breve, o público poderá conferir outros trabalhos de Zezé. Ela acabou de gravar o filme “As bisnetas”, do diretor Marcos Cavallaria. Também finalizou as gravações do filme “Fim de semana no paraíso selvagem”, do pernambucano Pedro Severien.

Além disso, está atualmente gravando uma participação no filme “Do outro lado da ponte”, com roteiro e direção de Arthur Vinciprova, com previsão de estreia em 2022; e está confirmada em “Eulália”, de Igor Moreira.

A artista também volta aos palcos com a reestreia de “Coração vagabundo, Zezé canta Caetano”. O show de voz e piano já tem apresentações confirmadas no Rio e em em São Paulo no fim deste ano.

SIGA O GLOBO-BAIRROS NO TWITTER (OGlobo_Bairros)

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos