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XP mantém otimismo com a bolsa brasileira, apesar da queda dos últimos dias

Isabel Filgueiras e Arícia Martins

Para os analistas, o investidor pode buscar ativos que atenuem o sobe e desce causado pelo aumento de incertezas devido ao coronavírus Em meio à aversão ao risco causada pelo coronavírus, o investidor não precisa sair da bolsa, mas pode buscar ativos que atenuem o sobe e desce causado pelo aumento de incertezas, na avaliação da XP Investimentos.

Richard Drew/AP Photo

Durante workshop para a imprensa sobre o impacto da doença nos ativos financeiros e na economia, o time de análise da plataforma afirmou que o otimismo em relação ao Ibovespa está mantido, mas sugeriu a busca por ações de setores menos relacionados à China, como energia, infraestrutura e saneamento.

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Os efeitos do vírus na atividade econômica ainda estão sendo avaliados, mas podem reduzir a estimativa da XP para o crescimento do PIB em 2020, ainda em 2,3%. Nesta semana, a projeção do consenso de mercado divulgada no boletim Focus, do Banco Central, caiu para 2,20%. Há um mês, estava em 2,31%.

Para a analista de ações Betina Roxo, é importante em momentos de incerteza que o investidor mantenha uma carteira diversificada não só em classe de ativos, mas entre setores. “Precisa ver quais deles têm menos ligação com a China e com a desaceleração da economia”, afirmou.

Segundo ela, bons protetores de carteira, que poderiam mitigar um pouco da volatilidade neste momento, são papéis de empresas dos segmentos de energia, saneamento e infraestrutura, como concessionárias de rodovias. Eles seriam bons pagadores de dividendos e têm receita estável.

Para a especialista, ramos mais relacionados à economia doméstica, como serviços e varejo, estão sofrendo os efeitos imediatos de um cenário incerto, mas possuem estoques para atenuar as consequências de eventual falta de insumos vindos da China.

Ela destaca que varejistas, como B2W, Magazine Luiza e Via Varejo, costumam comprar produtos vindos do Brasil. A indústria pode sofrer com a falta de peças, mas isso só vai acontecer quando zerar os estoques que já possuem, que, por enquanto, estão em nível adequado, disse.

Empresas de vestuário, como Lojas Renner, que compram peças importadas da China e de outros países asiáticos, também possuem estoques e só devem sentir maiores efeitos se o surto persistir por mais tempo.

Em contrapartida, papéis de companhias ligadas aos setores de turismo, mineração e exportação de proteína animal deverão sofrer mais no curto prazo, com possibilidade de redução na demanda e queda no preço de commodities, observou. Essas empresas têm maior relação com a China, principal parceiro comercial do Brasil.

De acordo com dados do World Input Output Table citados pelos analistas da XP, até 2016, o complexo vegetal (soja) e animal (carne) tinha 45% de exposição à China pelo canal de exportações. Na mineração, esse percentual era de 29%. Essa relação, contudo, se estreitou nos últimos anos. Ainda assim, os impactos devem ser limitados e a expectativa é de uma retomada da demanda chinesa e de outros países do mundo no longo prazo, ponderou Betina.

Otimismo mantido

Fernando Ferreira, estrategista-chefe da corretora, afirmou que o efeito do surto nos ativos financeiros deve ser limitado em todo mundo, com algumas regiões mais afetadas que outras. O grande desafio, ressalta ele, é saber quanto tempo vai levar para que o cenário se estabilize e comece o processo de retomada.

“Caso de epidemias como esse se mostram como boa oportunidade de compra de ativos. Quem comprou na baixa conseguiu bons ganhos quando o surto foi controlado. O difícil é saber quando será controlado”, disse.

Mesmo com a queda acentuada das ações nos últimos dias, Ferreira ressaltou que o otimismo com a bolsa brasileira está mantido. O principal fator que justifica a percepção positiva, de acordo com ele, é o relativo “atraso” do Brasil em relação ao resto do mundo. “A economia mundial vem em um ciclo de crescimento que dura dez anos e o Brasil está no terceiro ano de recuperação, e lenta”, disse.

Por isso, o país ainda tem um “mato alto”, afirmou, com muitos vetores que podem melhorar os resultados das empresas. “Tem muita coisa a ser feita. Os juros podem cair mais. Em muitas partes do mundo, tem juros reais negativos”, observou. As reformas estruturais a serem encaminhadas também seriam outro fator que, no longo prazo, joga a favor do desempenho das ações, acrescentou Ferreira.

O estrategista ressaltou, porém, que “lucro não é PIB”. “A bolsa é o lucro das companhias. Mas, se o crescimento voltar, isso será positivo para o lucro, porque as empresas fizeram o dever de casa nos últimos anos”, afirmou, citando investimentos em tecnologia e redução do endividamento. “Isso será poderoso para o lucro das companhias no Brasil e nos deixa bem otimistas.”

Do lado do crescimento, no entanto, a avaliação não é tão favorável. A XP mantém a projeção para a expansão da economia em 2020 em 2,3%, mas o economista-sênior da corretora, Marcos Ross, não descarta revisões para baixo.

Com a economia mais fraca do que o esperado, disse Ross, existe a possibilidade de mais cortes de juros. “O Banco Central sinalizou que parou por ora, mas eventualmente, se a coisa continuar indo para baixo, existe possibilidade não desprezível de corte de juros, o que prejudica ainda mais o real”, observou.

Desde o fim do ano passado, o real foi a moeda que mais se desvalorizou em relação ao dólar numa cesta de países emergentes, com depreciação de 10,26% até ontem, destacou o time de análise da XP. Segundo Ross, além do aumento de risco vindo do cenário externo, também há fatores domésticos que explicam o desempenho negativo.

Com base em quatro fundamentos macroeconômicos, o economista calcula que a taxa de câmbio no Brasil deveria estar em R$ 4,12, abaixo do nível de R$ 4,50 em que tem oscilado nos últimos dias. Os fatores de controle usados na estimativa são o passivo externo líquido, os termos de troca, o diferencial de crescimento econômico e o de juros.

“O valor ‘normal’ para o real é R$ 4,12. Essa diferença para R$ 4,50 parece vir de um cenário de preocupação com a economia, que não retoma, e com o avanço de reformas que pausou”, disse. “Essa frustração com o crescimento que não vem, aliada a pautas de seara política de não avanço de reformas, cria essa estranheza com o real.”

Ferreira lembrou que o movimento de valorização da divisa americana é global, assim como a queda das bolsas. “O Ibovespa teve um ajuste grande na quarta de cinzas, mas em dólares, desde a semana passada, está caindo em linha com o Dow Jones e o S&P 500”, observou.

Para a equipe de análise da corretora, considerando o tempo médio de incubação do coronavírus e o ritmo em que a epidemia tem sido reportada no mundo, cálculos mais precisos sobre os efeitos da doença só serão possíveis dentro de duas semanas. Foram usados dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) e estatísticas do governo da China para essa estimativa.

“O tempo de incubação é de mais ou menos 15 dias. O que vimos na China é que houve um pico de casos e ele começou a desacelerar. Não houve redução no número de casos, mas eles deixaram de crescer depois desse período”, afirmou a analista política da XP, Debora Santos.

Segundo os dados compilados, o pico do crescimento de novos casos na China foi atingido em 26 de janeiro, quando houve alta de 64% no número de novos doentes. Na última quinta-feira, essa variação foi de apenas 1%. A expectativa é que outros países sigam o ritmo, se adotarem medidas de contenção e saúde pública similares à China. Nesse tempo, a extensão do surto deverá ficar mais clara.

Debora destaca, no entanto, que há muitas variáveis que podem mudar esse cenário, como as políticas de saúde pública de cada país. No Brasil, a rede de atendimento do SUS é grande, mas já é sobrecarregada, observa ela. E, de acordo com especialistas em saúde, a mortalidade de doenças pode aumentar se houver falha no cuidado paliativo ao longo do tratamento, principalmente em idosos e crianças muito jovens, lembrou a analista.

“O mais importante é ver a velocidade em que (o coronavírus) crescia para saber quando ele estabilizaria. Acompanhamos na China. Agora, estamos olhando o surgimento de outros focos, e onde podem estar sendo sub-reportados”, acrescentou o também analista político da XP, Victor Scalet.