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Xingu se prepara para testar programa federal de energia para a Amazônia

PARQUE INDÍGENA DO XINGU, MT (FOLHAPRESS) - Todas as 120 aldeias do Parque Indígena do Xingu contam atualmente com energia solar. Nem todas, porém, possuem sistema de geração fotovoltaica disponível para atender todas as residências, por questões de custo para instalação e a manutenção dos sistemas solares.

Na tentativa de expandir o acesso nas comunidades, as lideranças do Xingu decidiram testar o Mais Luz para a Amazônia, o projeto do governo federal que busca abastecer áreas isoladas da Amazônia Legal com energia limpa.

Ao longo de quatro meses, foi feita uma consulta às comunidades. Técnicos da Energisa Mato Grosso, distribuidora do estado, estão em campo para fazer a análise do potencial de cada lugar.

Segundo a empresa, as equipes técnicas já visitaram 43 aldeias e entrevistaram 342 famílias. A instalação de novas placas solares nessas localidades, dentro do programa, está prevista para o próximo ano.

A aldeia Khikatxi, do povo kisêdjê, com mais de 400 indígenas, é dos locais que pretendem testar o programa público.

O cacique Kuiussi Kisêdjê, 84, conta que até buscou alternativas. Já tentou conseguir recursos para instalar o sistema solar na aldeia com parceiros da área social, e diz que a Prefeitura de Querência (MT) avaliou a hipótese de participar de um projeto do gênero. Mas as discussões não avançaram.

A entrevista com Kuiussi foi traduzida pelo agente de saúde Poikô Kisêdjê, 49. Os mais velhos preferem fazer declarações no idioma nativo, que dominam, acompanhados por um intérprete da etnia que também seja fluente no português.

"Uma vantagem no programa do governo é que a empresa de energia faz a manutenção dos equipamentos, manda técnicos, pode trocar a placa se der problema", diz Poikô. "Por isso, decidimos testar."

Os moradores aguardam com ansiedade os técnicos da distribuidora.

"Com energia solar, a gente pode ter um freezer e, quando nossos filhos trazem muita caça e pesca, guardar por alguns dias, pode ver um filme na TV e usar o ralador de mandioca a qualquer hora", diz Sely Suyá, 52.

A citação ao ralador de mandioca é uma constante entre as mulheres. Uma das atividades que mais mobilizam as mulheres é descascar, ralar e fermentar a mandioca brava para preparar o polvilho, que leva à feitura do beiju, um tipo de tapioca que é o alimento básico indígena.

Quando Sely falou com a reportagem, ela, as filhas e uma sobrinha estavam desde cedo cuidando da mandioca. "A gente leva de duas a três horas para ralar um monte de mandioca", afirmou. "Com a máquina, é mesma quantidade em meia hora."

A parte mais desafiadora do Mais Luz para a Amazônia na terra do Xingu tem sido explicar a conta de luz. O cacique Melobô Ikpeng é um dos que estão preocupados com os custos dessa oferta.

Ninguém entre os ikpengs tem certeza da idade de Melobô. Sabem apenas que ele tinha mais de 20 anos quando participou do contato, como é chamado o momento em que um povo encontra-se pela primeira vez com os brancos. Esse encontro ocorreu em 1964, nas proximidades dos rios Jatobá e Batovi, afluentes do Xingu, onde viviam originalmente.

Em pouco tempo, a etnia quase foi dizimada pelos ataques de garimpeiros e doenças. Os irmãos Villas-Bôas convenceram os 52 indígenas sobreviventes a migrarem para o parque do Xingu em 1967.

Instalados na aldeia Moygu desde 1985, os hoje mais de 500 moradores se ressentem da falta de energia. Para carregar um simples celular ou uma lanterna, a maioria precisa ir ao polo Pavuru, que fica a 15 minutos de caminhada.

O tradutor da entrevista com Melobô foi Kamatxi Ikpeng, 34, cineasta indígena e colaborador da Mawo, a Casa de Cultura que funciona entre Moygu e o Pavuru. Criada em 2009, seus bancos de dados são acervos de imagens e sons, permanentemente abastecidos com detalhes sobre a história, os ritos e as músicas da etnia -e dependem de energia elétrica.

Melobô declara-se cansado das promessas de autoridades brancas, especialmente da Funai, que se esqueceu dos índios, ele diz, e não quer que o programa de energia do governo seja uma nova armadilha.

Segundo a Energisa, sistemas solares individuais com até 50 kwh (kilowatts-hora) serão isentos para quem tiver direito à tarifa social. Uma lei de 2010 garante a gratuidade a comunidades indígenas e quilombolas. Nem todo indígena, porém, está no CadÚnico (Cadastro Único), pré-requisito para ter acesso a este benefício.

Haverá cobrança para sistemas comunitários. A escolha do sistema para cada aldeia vai depender de análise técnica.

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A série de reportagens Energia na Amazônia foi produzida com apoio da Rede Energia e Comunidades.