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Como a vulnerabilidade se tornou o principal conceito no mundo dos negócios

Pesquisadora Brene Brown é o grande nome da discussão da vulnerabilidade em ambientes corporativoss (Foto: Chris Pizzello/Invision/AP)

Por Anna Rangel

Falar sobre vulnerabilidade no mundo dos negócios e do empreendedorismo pode parecer um contrassenso. Afinal, como um ambiente de trabalho vulnerável pode obter bons resultados?

Pare para pensar: um ambiente de trabalho pesado, onde quem erra está sujeito a broncas, assédio moral e demissão sumária, não pode ser um espaço seguro para experimentar novas ideias e assumir riscos, fundamentais para inovar.

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É o que defende a pesquisadora norte-americana Brené Brown, professora da Universidade de Houston (EUA). Segundo Brown, é por meio da vulnerabilidade, conceito que incentiva a coragem mesmo em um cenário de incerteza e risco, que um profissional terá ferramentas para inovar e se destacar.

A palavra passou a entrar no radar de empresas e CEOs em 2011, depois que a palestra ‘O Poder da Vulnerabilidade’, de Brown, no TEDTalks, viralizou já são mais de 11 milhões de visualizações, oito anos depois.

Para a pesquisadora, o primeiro problema das pessoas é vincular vulnerabilidade à fraqueza. "Se você não está disposto a construir uma cultura [corporativa] vulnerável, você não consegue criar. É simples assim", afirma Brown, que pesquisa o assunto há cerca de 20 anos, em seu especial ‘The Call to Courage’ (O Chamado Para a Coragem, em português), lançado neste ano pela Netflix.

Embora essa cultura de incentivo à vulnerabilidade de líderes e subordinados seja rara no Brasil, a doutora em administração e professora da USP Tânia Casado acredita que mudar essa correlação pode ser útil em organizações que apostam na inovação como principal fonte de negócios.

"Correr riscos faz parte de um comportamento empreendedor, que também é fundamental dentro da empresa. Quem quer ideias e ações criativas precisa ser mais tolerante e incentivar a resiliência entre os profissionais para que possam enfrentar quando erram", diz.

Brown ainda tenta derrubar outros mitos, como o de que é possível desvincular incerteza e risco da vulnerabilidade, ao citar o discurso "O Homem na Arena", de 1910, do ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt.

"O crédito pertence ao homem que está na arena, cujo rosto está manchado de poeira, suor e sangue, que luta bravamente, que erra, que decepciona. Porque não há esforço sem erros decepções", diz Roosevelt, citado por Brown em seu livro ‘A Coragem de Ser Imperfeito’ (ed. Sextante; 208 págs, R$ 22,99).

A dificuldade de admitir fraquezas

Mas não é fácil ir para a arena. Abrir espaço para que as pessoas admitam erros, fraquezas e assumam riscos é um trabalho de longo prazo nas empresas, que afinal precisam garantir resultados, afirma Sérgio Mônaco, especialista em liderança da consultoria de RH Korn Ferry.

"As organizações buscam a inovação e isso significa que as pessoas vão errar. Já ser invulnerável faz com que a pessoa não assuma suas fraquezas e não receba ajuda, sem assumir nenhum risco", afirma.

O foco excessivo em resultados enfraquece as organizações porque sufoca o potencial dos funcionários, afirma Sigmar Malvezzi, doutor em comportamento organizacional pela Universidade de Lancaster, na Inglaterra, e professor da USP.

"Quando só a vitória é valorizada, quando a pessoa erra, ela desmorona. É neste momento que ela mata, por exemplo, sua capacidade de imaginação e criatividade. Falta buscar mais o equilíbrio entre potencial e resultado", explica.