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Voyager 2 envia dados sobre o espaço interestelar e ainda pode viver mais 5 anos

Daniele Cavalcante

A sonda espacial Voyager 2 se tornou no ano passado o segundo objeto criado pelo homem a entrar no espaço interestelar ao deixar a região de influência do Sol e seguir sua jornada para além do Sistema Solar. O primeiro objeto a realizar essa mesma façanha foi sua irmã gêmea, a Voyager 1, em 2012.

Agora, um novo estudo divulgado por pesquisadores da Universidade de Iowa confirma a passagem da Voyager 2 em 5 de novembro de 2018, após terem observado uma mudança na densidade do plasma detectado por um instrumento a bordo da sonda. Esse aumento acentuado da densidade do plasma é uma evidência de que a nave saiu das regiões mais quentes, com ventos solares de baixa densidade de plasma, para o espaço interestelar.

Essa passagem pela “fronteira” do Sistema Solar da Voyager 2 ocorreu a mais de 18 bilhões de quilômetros do Sol, basicamente a mesma distância para a Voyager 1 quando ela teve o mesmo destino. Isso fornece pistas valiosas para a estrutura da heliosfera - uma espécie de “bolha” criada pelo vento do Sol à medida que se estende até os limites do Sistema Solar. Para Bill Kurth, cientista pesquisador da Universidade de Iowa e coautor do estudo, as distâncias iguais das Voyagers ao chegarem no espaço interestelar “implica que a heliosfera é simétrica”.

Ilustração da posição das sondas Voyager ao deixar a heliosfera (Imagem: NASA/JPL-Caltech)

Os resultados também significam que os limites do Sistema Solar são mais definidos pelos fluidos do que pelo enfraquecimento dos ventos solares de acordo com a distância. Don Gurnett, autor do estudo publicado na revista Nature Astronomy, disse que "a velha ideia de que o vento solar vai diminuindo gradualmente à medida que você avança no espaço interestelar simplesmente não é verdadeira”. Ele exemplifica que as duas Voyager mostram “que existe um limite distinto por aí; é simplesmente surpreendente como os fluidos, incluindo plasmas, formam limites".

Os pesquisadores de Iowa também conseguiram dados sobre a heliosheath, a região da heliosfera que fica entre a heliopausa e o choque de terminação, que é o ponto em que o vento solar diminui ao interagir com o meio interestelar, tornando-se turbulento. Eles concluíram que a heliosheath tem espessura variada, porque a Voyager 1 viajou 10 UA (unidades astronômicas; uma unidade corresponde à distância média entre a Terra e o Sol) de distância mais longe do que sua irmã para alcançar a heliopausa - onde o vento solar e o vento interestelar estão em equilíbrio.

Voyager, um sucesso sem precedentes

As sondas Voyager são os recordistas de voos espaciais, mas claro que suas pesquisas não vão durar para sempre. Elas ainda funcionarão por algum tempo, mas já estão próximas de realizar seus últimos contatos com a Terra.

O programa Voyager foi iniciado pela NASA 1977, com o lançamento das duas sondas com o objetivo inicial de estudar Júpiter e Saturno, e suas luas. Curiosamente, a Voyager 2 foi lançada primeiro, em 20 de agosto de 1977. Em 5 de setembro de 1977 foi lançada a Voyager 1, e o programa foi ampliado para a exploração de Urano e Netuno e também do espaço depois da órbita de Plutão.

Em 1990, os objetivos do programa no Sistema Solar foram atingidos, mas as sondas ainda tinham energia o suficiente para prosseguir suas pesquisas. A NASA iniciou então o novo programa Missão Interestelar Voyager. Seus sistemas eletrônicos são alimentados por pequenos geradores nucleares, e por isso elas podem continuar em funcionamento por mais algum tempo - cinco anos a partir de agora, mais especificamente.

Voyager 2 e seus instrumentos científicos (Imagem: NASA/JPL-Caltech)

Depois disso, as sondas não serão mais capazes de enviar dados sobre suas pesquisas de volta para a Terra. Os instrumentos também devem deixar de funcionar, à medida que elas avançam para regiões cada vez mais frias e a energia for se esgotando. Ed Stone, cientista do projeto da missão e físico da Caltech, disse durante uma entrevista coletiva que "de alguma forma, em mais cinco anos, poderemos não ter energia suficiente para manter qualquer um dos instrumentos científicos [das sondas] ligados".

De qualquer forma, o sucesso do programa Voyager é incontestável, e supera as expectativas, mesmo para os padrões da NASA. "Certamente estamos surpresos, mas também maravilhosamente empolgados com o fato de que elas [ainda funcionam]", disse Stone. "Quando as duas Voyagers foram lançadas, a Era Espacial tinha apenas 20 anos, então era difícil saber na época que qualquer coisa poderia durar mais de 40 anos". Também é impressionante a longevidade dos instrumentos a bordo das sondas.

O estudo dos pesquisadores Iowa é um dos cinco artigos sobre a Voyager 2 publicados na Nature Astronomy, e todos confirmam a passagem da sonda para o espaço interestelar, com detalhes sobre as características da heliopausa.

Fonte: Canaltech

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