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Você sabe o que são comfort series? Entenda o efeito que elas causam no cérebro

Nathan Vieira

A situação é a seguinte: você acabou de chegar em casa depois de um dia intenso, cheio de problemas no trabalho, brigas com o seu chefe e, de quebra, aquele trânsito de tirar do sério na hora de voltar. No entanto, bastou sentar no sofá e colocar naquela série (aquela de sempre) para rever um de seus episódios favoritos para relaxar e se livrar do estresse. Você se identificou? Pois é. Essas são as comfort series! Basicamente, elas são aquelas séries que assistimos inúmeras vezes sem enjoar e que têm o poder de acalmar e relaxar em qualquer ocasião.

Para entender definitivamente quais são os efeitos que essas séries podem gerar no cérebro, a equipe do Canaltech conversou com dois especialistas: o psicólogo Dr. Roberto Debski e a psicóloga Marina Prado Franco, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental e Mestre em Psicologia Clínica. Os psicólogos apontam que todos os comportamentos e substâncias que geram prazer estimulam o circuito de recompensa cerebral, uma série de estruturas no sistema nervoso central que, ao receber esses estímulos, liberam neurotransmissores, como dopamina, endorfina e serotonina, que causam sensações de relaxamento, conforto e bem-estar.

"Essas sensações geram desejo de mais prazer ainda, e muitas vezes esse é o mecanismo que inicia respostas como as adicções e vícios, que se tornam de difícil controle e fonte de adoecimento, nesses casos. Assistir séries e vídeos pode ser uma forma de prazer dentre outras, sem desenvolver maiores problemas, como também pode se desenvolver uma adicção, o que pode desviar a atenção de outros temas e ações importantes que ficam relegados a um segundo plano. Essa diferença pode ser devida a fatores genéticos, ambientais, sociais e educacionais", explica Debski.

Áreas do cérebro ligadas ao prazer

A área do cérebro responsável pelo prazer é chamada pelos especialistas de circuito de recompensa

Franco explica que a área do nosso cérebro que está ligada ao prazer é chamada de circuito de recompensa, mas trata-se do sistema mesocorticolímbico. "Nesse sistema, acontece a interligação de algumas partes, como, por exemplo, a amígdala, o hipocampo e parte do córtex pré-frontal. Há, nesse circuito, a produção da dopamina, o que traz a sensação de bem-estar e faz com que a gente queira repetir essa experiência, por conta até de áreas do cérebro ligadas à memória".

Debski explica que esse sistema é composto por circuitos neuronais responsáveis por ações que são reforçadas positiva ou negativamente. Quando recebe um estímulo prazeroso, o núcleo accumbens (uma parte da via de recompensa, gerando prazer, impulsividade) produz a liberação do neurotransmissor dopamina que gera sensação de prazer. "Isso também ocorre nos casos dos efeitos das drogas e drogadicção, porém, nesse caso, o estímulo é muito mais intenso. Outras áreas importantes são a área tegumentar ventral, sistema límbico e córtex pré-frontal".

E quanto as séries? Será que elas podem ajudar a diminuir a ansiedade e seus sintomas? Debski aponta que, por causa da liberação dos neurotransmissores que causam prazer e bem-estar, todas atividades prazerosas podem ajudar, ao menos momentaneamente, a reduzir os estímulos estressantes e ansiogênicos, os quais retornarão assim que o efeito dos neurotransmissores passar.

Para Franco, justamente por ativar esse sistema de recompensa, assistir a essas produções pode acabar, sim, resultando na diminuição da ansiedade. "Em situações como a pandemia que estamos vivenciando, em somos expostos a estímulos que vão causar a sensação de ansiedade e medo numa frequência maior que em dias normais, digamos assim, é muito importante fazer atividades que permitam acesso a esses estímulos prazerosos para a nossa mente. Através do acesso a esses estímulos, estaríamos até mesmo utilizando da inteligência emocional para tentar reverter esse processo de ansiedade ou alteração de humor para um humor considerado mais positivo", aponta a psicóloga.

Conversamos com psicólogos para entender as reações que as comfort series trazem ao cérebro

Ela ainda ressalta que há diferença entre assistir a produções violentas e tensas e produções de comédia. "No caso das produções mais violentas, o efeito é justamente o contrário, então muitas vezes são ativadas áreas da nossa memória que nos conectam com situações semelhantes que já tenhamos vivenciado, algum trauma, e isso faz com que tenha sintomas corporais que relembram aquele trauma. Então pode até mesmo trazer um aumento de ansiedade, aceleração do coração", conta.

Debski pondera as afirmações da colega e tem um ponto de vista diferente sobre o tema: "Produções de suspense ou e mesmo terror podem ser desconfortáveis para muitos, mas também são muito prazerosas para diversas pessoas, pois também podem liberar os neurotransmissores do prazer e estimular a liberação de outras substâncias como a adrenalina, que acelera o organismo e gera tensão, sensação de suspense, que é altamente prazerosa para alguns e incômoda para outros", opina. "É uma questão de predisposição, hábito e temperamento individuais", acrescenta.

 A importância de ter prazer

Os especialistas alertam que sempre é importante fazermos atividades prazerosas, porém elas devem ser de natureza potencialmente saudável e não geradoras de doenças e adicções. Debski opina que devemos encontrar prazer nas atividades lúdicas, no estilo de vida saudável, na aprendizagem, nos relacionamentos interpessoais. O profissional inclui que rir é fonte de prazer e bem-estar, além de liberar os neurotransmissores que geram essas sensações, e assim estimula favoravelmente as funções orgânicas inclusive a imunidade, o metabolismo e o bem-estar.

O psicólogo também aponta que terapias nos possibilitam aprender a lidar com nossas dificuldades, superar limitações, melhorar os relacionamentos e ampliar a consciência, transformando a vida e nossos resultados. "Isso, por si, é altamente prazeroso para aqueles que se dispuserem a enfrentar o caminho do crescimento pessoal, independentemente do tipo de abordagem que envolva a terapia".

Franco acrescenta que existem alguns tipos de terapia que funcionam com essa proposta de trazer à tona estímulos que aumentam o prazer e bem-estar, como algo que chamam de ativação comportamental. Isso é feito com o indivíduo observando sua rotina e vendo quais atividades provocaram mais bem-estar para depois repeti-las em busca daquela sensação. "Tem também a própria terapia comportamental que é você, através de mudanças de comportamento, ativar certas áreas do cérebro mais ligadas à sensação de prazer e bem-estar e alterar o humor", diz.

Dormir assistindo série faz mal?

Especialistas alertam que dormir assistindo televisão ou qualquer vídeo faz mal a longo prazo, prejudicando o sono

Mas e quando a série é tão comfort que faz a gente... dormir? Certo. Uma vez ou outra não faz mal nenhum, mas, segundo os especialistas, a longo prazo isso pode ser sinônimo de problemas. Debski aponta que, quando vamos dormir, não é saudável estarmos assistindo à TV ou vídeos. O sono depende do bom funcionamento do ritmo circadiano, o chamado relógio biológico, do equilíbrio entre a melatonina e o cortisol, e precisamos de uma gradual redução das atividades conforme se aproxima o horário de dormir, da redução dos estímulos excitantes, da agitação e da luminosidade.

"A higiene do sono se faz fundamental principalmente para pessoas que têm dificuldade de dormir, pois nos prepara para esse período tão importante do dia, quando o corpo e a mente se reparam dos estímulos diários, nos preparando para o dia que virá a seguir", explica.

Franco vai além: "Dormir assistindo a um filme ou uma série, a longo prazo, pode fazer mal por conta da produção da melatonina, que é o hormônio ligado ao sono, e essa produção pode ser alterada a ponto de não conseguirmos chegar àquele sono profundo, que é o sono realmente reparador".

A psicóloga completa: "Para chegar ao sono mais profundo é necessário um ambiente mais escuro e sem muitos estímulos para que o cérebro não fique em estado de alerta. A presença de sons vai trazer essa excitação do cérebro. A longo prazo, poderia impactar, sim, na qualidade do sono e diretamente na saúde".


Fonte: Canaltech