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Você enxerga o mesmo azul que eu? É assim que o cérebro processa as cores

Nathan Vieira
·9 minuto de leitura

Você lembra daquela imagem que viralizou na internet alguns anos atrás, em que um vestido azul e preto foi visto por muitas pessoas como branco e dourado? O caso desencadeou questionamentos em torno de como o cérebro assimila cada uma das cores, e essa é justamente a proposta de um recente estudo publicado na revista Nature.

O estudo parte de uma pergunta daquelas que dá um nó no cérebro: a experiência que uma pessoa tem com o vermelho pode ser equivalente à experiência que outra pessoa tem com o verde, por exemplo? Se fosse assim, como seria possível descobrir isso, já que cada um teria sua própria experiência com as cores?

Para tentar responder essas questões tão complexas, as neurocientistas Maryam Hasantash e Rosa Lafer-Sousa mostraram aos participantes do estudo alguns objetos, sob uma completa luz monocromática, de modo que impedisse que a retina do olho codificasse a cor corretamente. As pesquisadoras raciocinaram que se impedissem temporariamente essa capacidade de discernir as cores aos voluntários do estudo, poderia se chegar à função da informação de cada cor.

O estudo desenvolve a ideia de que a cor não é tão essencial para definir o que as coisas são, mas sim sobre seu provável significado. A cor não indica o tipo de fruta, por exemplo, mas sim se a fruta é provavelmente saborosa ou não. E para os rostos, a cor é literalmente um sinal que ajuda a identificar emoções, como raiva e constrangimento, ou até indícios de doenças.

No que diz respeito à experiência individual de cada pessoa em relação às cores, outro estudo publicado na Current Biology usou magnetoencefalografia para monitorar campos magnéticos criados quando as células nervosas no cérebro disparam para se comunicar. Os pesquisadores conseguiram classificar a resposta a várias cores usando machine learning e, em seguida, decodificar a partir da atividade cerebral as cores que os participantes viram. Puderam, então, determinar a cor medindo o que acontece no cérebro. Os resultados mostraram que cada cor está associada a um padrão distinto de atividade cerebral.

Como o cérebro processa as cores?

(Imagem: Sharon McCutcheon/Unsplash)
(Imagem: Sharon McCutcheon/Unsplash)

Considerando os estudos, conversamos com especialistas da neurologia para entender melhor como o cérebro humano assimila cada cor. Segundo o neurologista William Rezende do Carmo, chefe de equipe nos hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês, e diretor da clínica Regenerati, o cérebro humano processa as cores inicialmente pelas informações elétricas que recebe da retina, que tem receptores para cada onda de cor, e são três tipos fundamentais desses receptores: amarelo, azul e vermelho, também consideradas cores primárias, ou seja, geram todas as outras cores conhecidas.

"Para cada uma dessas cores há uma célula que tem um receptor do comprimento específico da onda, que transforma os estímulos luminosos em estímulos elétricos. Estes, por sua vez, são transmitidos através dos nervos ópticos, que ficam atrás do globo ocular, até o lobo occipital, a região posterior do cérebro. Os impulsos elétricos são recebidos junto a estímulos luminosos e esse estímulo gera o contraste e o delineamento dos objetos, preenchendo os contornos com as cores", explica o especialista.

O neurologista acrescenta que, com a tecnologia atual, é possível saber que um grupo específico de neurônios é ativado para o processamento de cada padrão de cor, e esses disparos elétricos das imagens entram em conexão com diversas outras áreas do cérebro como memória, emoções e linguagem.

Dr. Wanderley Cerqueira, especialista em neurocirurgia do Hospital Israelita Albert Einstein, completa que toda irradiação de luz que atinge a retina em ambos os olhos passa por estruturas oculares e por processos físicos de reflexão, absorção e refração. "A retina tem receptores centrais e periféricos que são chamados de cones e bastonetes. Esses fotoreceptores, através de integrações elétricas-químicas-elétricas, conduzem os estímulos pelas chamadas vias ópticas, até atingirem o cérebro na região occipital, onde serão processados como imagens", afirma.

O neurocirurgião acrescenta que a luz inicialmente é percebida como um feixe claro, mas os cones e bastonetes processam esta luz visível do azul/violeta até o vermelho/laranja, que é o espectro do arco-íris.

Questionados se o processo de assimilação depende do cérebro ou dos olhos, os especialistas entram em uníssono: os dois exercem um importante papel. "As condições das cores são atribuídas aos olhos, através dos fotorreceptores (cones e bastonetes) e também pelo cérebro. A percepção das cores não é simplesmente uma gravação de parâmetros físicos da luz refletida na superfície dos objetos. Também é um processo sofisticado de abstração. Um objeto pode parecer de cor rosa ou verde pálido se esta representado em fundos diferentes, ou seja, a característica espectral da luz do ambiente", descreve Dr. Wanderley.

Dr. William inclui que a íris do olho é como se fosse o diafragma de uma câmera. Quanto mais aberto, maior a exposição ao volume de luz, o que afeta a percepção das cores mais brilhantes. Quando o dia está ensolarado e, portanto, luminoso, temos a percepção de cores mais vivas. Da mesma forma, no final de tarde ou começo de noite, quando a luminosidade é mais baixa, as cores ficam com menor intensidade.

Ele acrescenta que, durante a noite, o volume de fótons é tão pequeno que ativa somente os receptores de presença ou ausência de luz, os que fazem a gente enxergar em preto e branco e que estão em um volume muito maior na retina. Por outro lado, os receptores de cor estão concentrados na mácula (região central do fundo do olho) e são de um volume numérico muito inferior aos receptores puros de luz e contraste.

Percepção individual das cores

(Imagem: Sharon McCutcheon/Unsplash)
(Imagem: Sharon McCutcheon/Unsplash)

Mas então chegamos a uma questão complexa, abordada pelos estudos anteriormente citados: a percepção das cores é individual? Para o neurocientista Ari Brito, sim. "A percepção das cores é extremamente individual e é a combinação da quantidade de cones existentes no aparelho visual, e o processamento das informações no sistema nervoso, que inclui diversas áreas do cérebro humano. Então podemos afirmar que cada um terá uma visão de mundo única", observa.

Dr. Wanderley concorda, apontando que a equivalência das cores percebidas por duas pessoas serão diferentes nos detalhes, pois não existe uma equivalência de 100% nas estruturas anatômicas e bioquímicas. "Cada indivíduo tem sua particularidade na superfície da retina, em cada projeção das vias ópticas e até no córtex visual primário. A percepção visual é individualizada onde a atribuição do processamento das cores e dos objetos que enxergamos terão nuances na cor, na forma, na superfície de contorno e até no movimento deste objeto. Portanto, a cor é uma propriedade de um objeto. O cérebro julga as cores através das suas experiências de cores", aponta o neurologista.

Enquanto isso, William traz o exemplo da cor azul, por exemplo. "Entendemos como uma cor generalista e fazemos associações, como o céu. No entanto, é comum que as pessoas tenham percepções diferentes sobre o mesmo azul. E, claro, o mesmo vale para as demais cores. Às vezes acontece de uma pessoa ter uma percepção de cor no olho direito e outra no olho esquerdo. Isso depende de tipos de lesões na retina", reflete.

E por falar em lesões, alguns fatores podem causar alterações na forma como percebemos as cores, como a idade, por exemplo. "A idade é um dos fatores importantes, já que há um desgaste natural na produção de cones, e também no processamento neuronal nas diversas áreas do cérebro. A qualidade de vida depende da preservação do aparelho ocular em hábitos que vão desde não ficar horas na frente de uma tela de celular, até exercícios que desenvolvam o cérebro, com exercícios respiratórios e meditação, passando por leitura e atividades intelectuais até nas idades mais avançadas. Um dos fatores que mais comprometem a visão das cores nas idades mais avançadas são as doenças neurodegenerativas", explica o neurocientista Ari Brito.

Daltonismo

(Imagem: Nick Fewings/Unsplash)
(Imagem: Nick Fewings/Unsplash)

Não há como falar da concepção das cores sem mencionar o daltonismo. Conforme Ari Brito, trata-se de uma doença hereditária e genética que em geral envolve pessoas que identificam as cores de forma errada, principalmente das cores verde, vermelho e azul e suas derivações. Essas pessoas possuem uma quantidade de cones insuficiente e a mensagem das cores não chega ao cérebro corretamente. Pode ainda acontecer uma lesão no aparelho visual ou no cérebro (um tumor, por exemplo) que também gere o daltonismo, mas são casos mais raros.

William acrescenta que as pessoas com daltonismo processam as cores da mesma maneira que as pessoas não daltônicas. O que difere são os canais de entrada das cores. "Para se ter uma ideia de como isso acontece, imagine os monitores RGB que criam todas as cores a partir das três cores primárias. Caso um dos fios ou um dos canais de entrada das cores sofra algum dano, a imagem continua aparecendo, mas com tonalidades diferentes", explica o especialista.

"Uma outra forma simples de entender este processo é fazer um experimento com um editor de fotos que contenha as três cores principais. Você pode retirar uma delas completamente e a imagem continua lá, mas a cor muda", William completa. "Mesmo que a pessoa tenha algum defeito genético em um ou mais receptores de cores (vermelho, amarelo ou azul) ela continua enxergando o mundo normalmente, apenas com variações de tonalidades".

(Imagem: Michael Jarmoluk/Pixabay, edição: Luciana Zaramela/Canaltech)
(Imagem: Michael Jarmoluk/Pixabay, edição: Luciana Zaramela/Canaltech)

O especialista acrescenta que certas patologias neurológicas podem afetar a percepção de cores do cérebro como Parkinson, Alzheimer e esclerose múltipla. Outras doenças sistêmicas como diabetes, anemia falciforme e leucemia também podem alterar. "Além disso, existem medicamentos e substâncias que podem atuar diretamente no cérebro, afetando a percepção do corpo. Um exemplo é a Digoxina, que em níveis muito altos pode afetar a percepção de cor e a pessoa vê tudo com predomínio de tonalidades de verde-amarelo", aponta.

Wanderley cita que alguns indivíduos com defeitos genéticos têm somente dois cones pigmentados, o que é chamado de dicromatopsia, enquanto outros tem somente um cone pigmentado, o que é chamado de monocromatopsia. "Essas alterações referem não só sensibilidade dos cones fotorreceptores, mas o número relativo destas três classes de cones na retina e, portanto, os impulsos do sistema de três cones são ponderados quando combinados no cérebro. Sem atividade dos três tipos de cones não se pode perceber as diferenças de cores. [Uma condição conhecida como] acromotopsia", conclui.

Fonte: Canaltech

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