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Viviane Ferreira: ‘Tenho formação política fincada na vivência religiosa do candomblé’

·4 minuto de leitura

Em seus filmes, a cineasta Viviane Ferreira procura por uma luz dourada. Se os raios não tiverem sido registrados pela câmera, ela os persegue na fase de finalização. Pode parecer preciosismo aos coloristas, mas é uma camada autoral de uma memória da infância. Era noite em Coqueiro Grande, periferia de Salvador, e Viviane, aos 5 anos, estava no colo da mãe, que chorava ao saber que o pai da cineasta havia se afogado. Abraçada ao pranto de dona Dadá, a menina parou o olhar na copa de uma mangueira iluminada por um candeeiro, e ficou observando numa suspensão de tempo uma manga sumir e se revelar através da luz. A emoção daquela noite está inscrita com delicadeza na obra da cineasta e aparece já nas primeiras cenas de seu longa-metragem, “Um dia com Jerusa”, em cartaz no Espaço Itaú de Cinema de São Paulo e, a partir do dia 26, no catálogo da Netflix e do Canal Brasil.

O filme reflete sobre ancestralidade e solidão a partir do diálogo de gerações de duas mulheres negras. O roteiro, de Viviane, apresenta o encontro entre Silvia (Débora Marçal), uma jovem pesquisadora de mercado, e Jerusa (Léa Garcia), que aguarda parentes para comemorar o 77º aniversário. A ficha técnica do longa revela a presença de 30 mulheres negras, entre equipe e elenco.

— Foi a primeira vez em 60 anos de carreira no cinema que fui dirigida por uma mulher negra e vi um set com mulheres negras em todos os departamentos — lembra Léa Garcia, que conheceu Viviane no Centro AfroCarioca de Cinema, em 2007, no aniversário de Zózimo Bulbul.

Aos 36 anos, a cineasta, advogada e ativista baiana, mestre em Comunicação, é um dos nomes mais promissores do audiovisual brasileiro tanto do ponto de vista artístico quanto da capacidade de gestão. Desde fevereiro, é a diretora-presidente da Spcine, substituindo Laís Bodanzky na empresa do setor de audiovisual da cidade de São Paulo.

— Antes de conhecê-la, fiquei impressionada com uma apresentação impecável em que Viviane faz um retrato da história do audiovisual negro para a Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados. Percebi a postura política, a facilidade dela de trazer um assunto complexo do país e de ao mesmo tempo trazer propostas — conta Bodanzky.

Este mês, a Spcine lançou no Marché du Film, em Cannes, com participação virtual de Viviane, o primeiro edital de cash rebate, que incentiva filmagens nacionais e internacionais em São Paulo por meio de reembolso de 20 a 30% do valor gasto pelas produções.

— Fez muito sentido lançar o programa em Cannes numa edição que apontou para o mundo a situação constrangedora de desmonte das políticas culturais no plano federal no Brasil — avalia a cineasta, homenageada na mostra on-line “Dias com Viviane: trajetória audiovisual de Viviane Ferreira”, da Cinemateca do MAM, em cartaz até dia 5.

Criada numa família de mulheres fortes, Viviane teve na família exemplos de liderança. Pina, a avó materna, comandava plantações no Sítio Santo Antônio, em Coqueiro Grande, para vender na feira. Zuzu, a bisavó paterna, fundou o Terreiro Manso Dandalungua Cocuaze, em 1940. Talaqué, a avó paterna, trabalhava na Biblioteca Central do Estado da Bahia.

— Tenho uma formação política fincada na vivência religiosa do candomblé, em uma casa em que o feminino ainda é centro do poder — diz Viviane, em entrevista via Zoom, enquanto trança os cabelos azuis num salão em São Paulo.

Muito antes de pensar em estudar cinema, Viviane quis ser jogadora de futebol, e ganhou bola. Quis ser artista plástica, ganhou tintas. Quis ter banda, e ganhou da mãe uma bandeja de camarão para vender na praia. Com o lucro, comprou tamborim e pandeiro. Até que resolveu ser atriz e entrou para o curso de teatro do Ceafro (programa de educação para igualdade racial e de gênero), em Salvador, onde viveu a militância estudantil, foi presidente da Associação Mulheres de Odun e conheceu a obra de Lélia Gonzalez, sobre quem fará seu próximo longa.

Em 2008, já em São Paulo, fundou a produtora Odun Filmes, voltada para conteúdo audiovisual indentitário, ao se dar conta de que suas histórias nunca eram escolhidas para serem contadas no curso de cinema. Ela era a única negra em uma sala de 15 alunos:

— Eu não tinha dúvidas sobre os lugares sociais diferentes que minha pele melaninada me colocava diante dos meus colegas — diz Viviane, que é professora do curso de Cinema da ESPM e foi presidente do Comitê Brasileiro de Seleção do Oscar 2021.

Ciente da importância de combater o racismo estrutural, ela participou, em 2016, da fundação da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro, da qual foi presidente até este ano.

— Viviane é uma intelectual que entende da sétima arte e tem um trabalho vigoroso e apaixonante — comenta o ator Antonio Pitanga, que faz uma participação em “Um dia com Jerusa”. — Ela é a Spike Lee de saias do cinema brasileiro.

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