Vivendo sem dinheiro: conheça pessoas que abandonaram o modelo de vida padrão e gostaram

SÃO PAULO - É impossível viver sem dinheiro? Depende do seu estilo de vida. O administrador irlandês Mark Boyle é um dos grandes expoentes de um movimento de pessoas que têm um padrão de vida confortável, mas decidem, por opção própria, viver sem dinheiro. Criador do portal Freeconomy, um site de compartilhamento de espaços, habilidades e ferramentas, ele decidiu passar um ano totalmente sem dinheiro ao julgar que o modelo econômico atual estaria destruindo a natureza e arruinando a vida dos semelhantes.

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“Eu estava em uma época de questionamentos, pensando sobre todos os problemas do mundo: destruição das florestas, trabalho forçado, extinção dos recursos da natureza. Estava pensando nos problemas ecológicos e sociais, e percebi que o dinheiro era um fato muito importante dentro disso, ele nos separa do que consumimos. Mas não adiantava apenas falar o que eu pensava. Acredito muito na frase de Gandhi: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Então decidi que eu ia viver do jeito que eu acreditava, sem dinheiro. Nós não vemos os efeitos de nossas compras no ambiente e podemos muito bem viver sem que seja preciso comprar, comprar e comprar”, afirma Boyle em seu livro “O Homem sem Grana” (editora Best Seller), cujos lucros foram revertidos para a criação da comunidade Freeconomy.

O ativista, que após se formar trabalhou durante seis anos gerenciando uma empresa de alimentos orgânicos no Reino Unido, escolheu o Dia Mundial Sem Compras (celebrado em 29 de novembro) em 2008 para abandonar quase todos os seu bens materiais e dar início ao seu novo estilo de vida, em que dependeria do seu esforço físico e habilidades manuais para conseguir todas as suas necessidades básicas: transporte, moradia, saúde, higiene, alimentação. Como sua principal meta era disseminar a ideia de que viver sem dinheiro é bom, ele optou por manter apenas um notebook (que carregou com energia solar e conseguiu acesso a banda larga prestando serviços a uma fazenda) e sua bicicleta.


Viver sem dinheiro fez com que ele perdesse a namorada, já que “é difícil ter vida social e viajar para vê-la se você só usa a bicicleta como transporte e se alimenta com o que planta”. Mas a experiência não foi traumática. O projeto, inicialmente pensado para durar um ano, acabou sendo aplicado para três. E Boyle afirma que só voltou a mexer com dinheiro para poder dar forma a uma comunidade onde todos vivam 100% da terra. “Os anos que vivi sem dinheiro foram os mais felizes e mais saudáveis da minha vida.”

Ainda que distante da filosofia do “mainstream”, o pensamento de Boyle vai aos poucos ganhando adeptos. Ele conta que em 2008, quando a crise econômica estourou no mundo, o movimento teve um período de rápido crescimento. Segundo ele, quando a economia normal se deteriora, as pessoas começam a procurar por outros modos para viver. Quando muita gente não tem dinheiro, também cresce o interesse por saber como viver sem ele.

Escambo
Quem também optou por uma vida sem dinheiro foi a família alemã Fellmer. Para protestar contra o que eles chamam de sociedade de consumo, o jovem casal Raphael e Nieve decidiu viver apenas de escambo, ou seja, trocando suas habilidades por coisas primordiais para a sobrevivência. O aluguel de um pequeno porão em Berlim, por exemplo, é pago com serviços domésticos, como cuidados com o jardim e reparos na residência principal.

Raphael conta que sua intenção não é convencer as pessoas a viver sem dinheiro, mas inspirá-las a enxergar no que estão pecando pelo excesso para que façam as mudanças que melhor se encaixem em suas vidas. Para disseminar sua mensagem, o ativista criou um site, o Forward the (R)evolution, em que fala a respeito do problema dos resíduos sólidos e do consumo.

Nascido em uma família de classe média alta alemã e formado em Estudos Europeus, Raphael só usa dinheiro quando não encontra alternativa. Recentemente o casal utilizou o “vil metal” para o pagamento dos exames pré-natal de Nieve, que deu à luz a pequena Alma.

Também alemã, Heidemarie Schwermer, de 70 anos, decidiu viver sem dinheiro há quase duas décadas. No começo, a ideia era que a experiência durasse apenas 12 meses, mas, assim como aconteceu com o administrador Mark Boyle, a vida sem dinheiro se mostrou muito mais interessante. “Foi uma grande libertação”, afirmou em entrevista à BBC. “O melhor é a sensação de abertura. Não sei o que acontecerá à noite, nem na manhã do dia seguinte. Não sinto medo, e sim uma grande curiosidade.”

A experiência deu origem a três livros, cujos lucros foram doados a instituições de caridade e à produção do documentário “Vivendo Sem Dinheiro”, exibido em 30 países.

Professora e psicoterapeuta, Heidemarie sempre teve uma vida confortável, e chegou a ter mais de um carro na garagem. No entanto, ao perceber que sua vida era regida muito mais pelo ter do que pelo ser, vendeu a casa, cancelou as contas no banco e dividiu o dinheiro entre os filhos. Os móveis foram oferecidos a vizinhos e amigos, e fez doações aos mais necessitados.

A partir de então, começou trocando coisas: oferecia seus serviços, desde limpar casas até ajudar as pessoas com problemas pessoais, em troca de teto e comida. Agora ela diz que não se trata exatamente de trocar, mas simplesmente compartilhar. "Dou o que quero dar e me dão o que eu preciso. Muita gente tem problemas ou está sozinha. Eu as escuto e as ajudo a pensar sobre o que querem fazer com suas vidas”, diz ela. "É verdade que são os outros que ganham salários para pagar o que eu como, mas eu também trabalho todos os dias. Faço coisas para as pessoas. No mundo ocidental há muitas pessoas que se sentem isoladas, e eu as ajudo com minha presença. Posso ser uma mãe, uma irmã, uma amiga, o que precisarem."

FREECONOMY

O portal Freeconomy conta hoje com 45.414 membros em 171 países, 545.449 habilidades, 112.043 ferramentas e 716 espaços. Mas mais do que criar um site, o desejo de Mark Boyle é formar uma comunidade em que as habilidades das pessoas sejam capazes de garantir a mesma segurança que o dinheiro traz. O ativista defende que as pessoas precisam de dinheiro para ter o que comer, para pagar por um tratamento médico ou até mesmo para comprar uma cadeira.

Porém, se puderem viver em uma comunidade na qual um dos moradores possa prestar serviços médicos, outro possa plantar e produzir alimentos e um terceiro saiba produzir uma cadeira, não será preciso ter dinheiro. “Não acho que devamos apenas trocar habilidades. A intenção não é que eu só ganhe a cadeira se fizer algo para a pessoa que sabe confeccioná-la. Minha ideia é que as pessoas passem a confiar mais umas nas outras e comecem a se ajudar e trocar favores, sem esperar nada em troca, mas com a certeza de que sempre haverá alguém disposto a ajudá-las, por pura bondade.”

A comunidade alternativa Freeconomy adota os seguintes princípios:

1) Não precisamos do dinheiro para sobreviver, podemos compartilhar habilidades e conhecimentos práticos em vez de dinheiro e produtos;

2) Dar sem esperar nada em troca, criando laços afetivos com sua comunidade;

3) Caso você não decida viver de forma tão radical, prefira produtos naturais de pequenos produtores da sua comunidade local em substituição aos das grandes corporações.

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