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Vitória de Bolsonaro desmontou premissas da política, diz cientista político em novo livro

NAIEF HADDAD
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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 25.08.2020 - Presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de lançamento do programa Casa Verde Amarela, de financiamento habitacional, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 25.08.2020 - Presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de lançamento do programa Casa Verde Amarela, de financiamento habitacional, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No recém-lançado "O Brasil Dobrou à Direita", livro em que analisa a vitória de Jair Bolsonaro na eleição de 2018, o cientista político Jairo Nicolau lembra frase que ouviu de um porteiro que trabalha há décadas em um edifício de um bairro de classe média alta do Rio de Janeiro.

"Essa é a primeira eleição em que praticamente todos os moradores e os porteiros votaram no mesmo candidato", disse o funcionário do prédio.

De fato, o candidato do PSL (agora sem partido) teve uma grande votação na capital fluminense, vencendo, inclusive, em regiões em que os candidatos do PT à Presidência eram majoritários no segundo turno desde 2002. Ele só perdeu em uma zona eleitoral, a de Laranjeiras.

O livro de Nicolau retrata bem o fenômeno bolsonarista no Rio, mas as reflexões vão muito além do reduto eleitoral do líder conservador.

Ao se propor a apresentar uma radiografia da conquista de Bolsonaro, o autor aponta como esse resultado representou a quebra de uma série de premissas da tradição política do país -não é à toa que Nicolau considera esse "o feito mais impressionante da história das eleições brasileiras".

O cientista político lembra uma avaliação dominante até então, segundo a qual um candidato à Presidência da República precisaria de três requisitos para sair vitorioso -ou ao menos, avançar para o segundo turno.

O primeiro, nas palavras do autor, é "obter uma grande soma de dinheiro para financiar a sua campanha". Bolsonaro, no entanto, gastou nos dois turnos pouco mais do que gastaram muitos candidatos a deputado federal no mesmo pleito.

O segundo requisito é "dispor de um tempo razoável no horário de propaganda eleitoral". Outra quebra: ao longo da campanha do 1º turno, o candidato do PSL tinha 8 segundos por bloco. Geraldo Alckmin (PSDB), que recebeu 5% dos votos, contava com 5 minutos e 32 segundos, um tempo 42 vezes maior.

O terceiro ponto é "construir uma rede sólida de apoio de lideranças estaduais". Bolsonaro estava filiado a um partido de pouca expressão e, no primeiro turno, não recebeu apoio formal de siglas grandes ou médias.

Talvez o leitor esteja perguntando: e a facada em Juiz de Fora? Segundo o autor, não existem dados disponíveis para indicar com exatidão o quanto o atentado contribuiu para o crescimento de Bolsonaro, que já vinha num movimento de ascensão. Mas "a facada foi decisiva para torná-lo conhecido em âmbito nacional".

Sob a influência ou não do atentado, mais de 57 milhões de brasileiros votaram em Bolsonaro no 2º turno.

Para responder quem foram aqueles que optaram pelo número 17, Nicolau se baseia em gráficos e dados comparativos e divide os capítulos em escolaridade, gênero, religião, idade, municípios, entre outros recortes. Ao fazer essa segmentação, surgem outras constatações que escapam do senso comum.

Na eleição de dois anos atrás, o mito da juventude associada aos partidos de esquerda não resistiu à onda conservadora. No segundo turno, Bolsonaro venceu Fernando Haddad com folga na faixa dos 16 aos 29 anos, como indicaram as pesquisas.

Ao cruzar os dados de idade e gênero, Nicolau mostra que o candidato do PT derrotou o do PSL entre as mulheres jovens, mas a margem é pequena. Por outro lado, Bolsonaro obteve larga vantagem entre os homens jovens, o que explica o pêndulo claramente à direita como resultado geral nessa faixa etária.

Também chama a atenção a força dele nas grandes cidades e religiões metropolitanas. Entre os 38 municípios com mais de 500 mil habitantes, Bolsonaro venceu em 30, que incluem cidades historicamente ligadas ao PT, como São Bernardo do Campo (SP).

Foi, em suma, uma campanha muito marcada pela excepcionalidade. O ano de 2022 vai começar a responder se o quadro tão atípico de 2018 se tornará regra ou se os antigos padrões voltarão a prevalecer.

O BRASIL DOBROU À DIREITA

Autor Jairo Nicolau

Editora Zahar (144 págs.)

Preço R$ 50 (versão digital R$ 40)