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Violência, medo e alvo definido: como a polícia brasileira se assemelha à SARS, da Nigéria

Ponte Jornalismo
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Mobilização do #EndSARS na Nigéria | Foto: Reprodução/Twitter @barry_ayo
Mobilização do #EndSARS na Nigéria | Foto: Reprodução/Twitter @barry_ayo

Por Arthur Stabile e Jessica Santos

A polícia decide parar uma pessoa. Questiona o que ela faz na rua em determinado horário. Se o policial encontra dois celulares com ela, pergunta como conseguiu, se são mesmo dela e duvida se a pessoa teria condições financeiras de compra-los. Decide, então, a levar ao posto policial. O relato é de uma ação na Nigéria, mas caberia à realidade do Brasil.

A Ponte conversou com um nigeriano, morador de São Paulo há quatro anos, e uma brasileira que viveu na Nigéria para entender como é a SARS (Special Anti-Robbery Squad ou Esquadrão Especial Antirroubo, em tradução livre) e suas semelhanças com a polícia daqui.

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A tropa de elite do país africano é alvo da campanha #EndSARS (acabe com a Sars) devido à violência com que atuam contra a população negra e pobre. Há, aí, um ponto de similaridade com as polícias brasileiras.

Shakiru Olawale Kareem, 36 anos, nasceu e viveu até 2016 na cidade de Lagos, a maior do país. Lá, 12 pessoas morreram e outras 25 ficaram feridas em protestos nesta semana.

O professor de inglês viajou para o Brasil com curiosidade na bagagem. Veio conhecer, mas a vida fez com que ficasse. “Vim mais em busca de oportunidades. Por outro lado, também pela segurança”, explica.

Imagem do relatório “Nigeria: Time to end impunity” da Anistia Internacional
Imagem do relatório “Nigeria: Time to end impunity” da Anistia Internacional

Questionado se há semelhanças da SARS com a PM brasileira, definiu como “muito parecidas”. “A da Nigéria é mais perigosa, não te ajuda. A do Brasil, depende das coisas”, detalha.

O professor de inglês explica que a violência policial em seu país ocorre a qualquer momento. “São armas pesadas. As balas não tem número, por isso atiram como querem. Não tem como saber se eles atiram, não tem numero, nada. Ate hj não sabemos como definir que a arma é do fulano ou do outro”

“Na comparação, ouvi falar que se a polícia do Brasil atira em uma pessoa, temos apoio para as vítimas da polícia, o povo se manifesta. Na Nigéria, não. Agora é só a terceira vez que isso acontece”, afirma, citando o #EndSARS de 2017 como a segunda revolta.

De acordo com ele, a primeira ação de resistência aconteceu em 12 de junho de 1993, quando houve protestos pelo fim da ditadura militar existente no país. De 1983 até aquele ano, uma série de juntas militares comandaram o país. A eleições de 1993 seriam um alento com a eleição de Moshood Abiola, um civil. No entanto, os militares o prenderam em um novo golpe.

Antes de ser solto e concorrer à eleição, Abiola morreu de parada cardíaca na prisão. Protestos ocorreram no país, com mais violência do Estado e um total de 60 mortos. Os militares assumiram novamente o poder, postergando a ditadura, que seguiu até 1999.

Shakiru conta ser impossível consultar policiais na Nigéria em busca de informações básicas, como saber onde fica determinado local. “Te perguntam se ele é um mapa e começam a querer saber o porquê de você estar na rua, o que fará lá”, conta.

Pessoas dormem no chão durante os dias de protesto | Foto: Reprodução/Twitter @greenaugustus44
Pessoas dormem no chão durante os dias de protesto | Foto: Reprodução/Twitter @greenaugustus44

O professor conta ser normal ouvir relatos de assassinatos, extorsões, corrupção e até estupros por parte dos policiais da SARS. Apesar de ser uma tropa especial, ela se faz presente em todos os espaços e horários.

As abordagens acontecem com todos em “atitude suspeita”, como estar parado em frente de sua própria casa. “É muito calor, a Nigéria é um país que sempre está quente. Todo mundo precisa de ar fresco. As construções não têm muito espaço para o ar entrar. As pessoas ficam fora”, explica o professor. “Tem um controle muito forte”.

Ser abordado significa necessariamente passar por algum constrangimento, conta o homem. Shakiru explica ser normal os policiais extorquirem as pessoas para as liberarem e evitar a ida até os postos policiais. “Converti e o mínimo que cobram é R$ 500”.

Pagar para ser libertado é o menor dos problemas. “Os policiais pegam as prostitutas, levam ao posto da polícia e as estupram. As pessoas ficam com medo”, afirma, citando o caso de um jovem abusado por policiais até a morte em janeiro de 2020.

“A família pegou o corpo dele e levou ao hospital para ver o que aconteceu. O médico disse que tinha sido estuprado por várias pessoas. Provavelmente ele nunca fez algo errado”, diz.

A SARS tem um alvo claro se o vê na rua: jovens, homens ou mulheres, que tenham tatuagem ou dreads nos cabelos. É o que explica a pesquisadora Antônia de Thuin, que viveu na Nigéria por quatro meses enquanto estudava para o seu doutorado em literatura nigeriana e senegalesa.

“O que mais me causava estranheza era não ter pessoas com dreads, tatuagem. Me explicaram, mais de uma vez, que a SARS tem um ‘profile’. Eles param essas pessoas e elas são as primeiras vítimas da violência”, detalha.

Protesto pelo fim da SARS na República, centro de SP, na quarta-feira (21/10) | Foto: Arquivo/Ponte
Protesto pelo fim da SARS na República, centro de SP, na quarta-feira (21/10) | Foto: Arquivo/Ponte

Protesto pelo fim da SARS na República, centro de SP, na quarta-feira (21/10) | Foto: Arquivo/Ponte

Como mulher branca, Antônia conta nunca ter sido parada pela SARS. Ouviu histórias de escritores, editores, pintores e curadores, pessoas ligadas às artes, que reforçam o motivo de a tropa ser tão temida.

“O tratamento aos brancos é de buscar extorsão, nunca se meteram muito comigo. Vi com as pessoas negras que elas têm muito medo, sobretudo os mais jovens. Têm tem receio e falam da polícia com medo”.

Nesse ponto, ela vê proximidade da polícia nigeriana com a brasileira. “Eu acho que [se assemelham] na violência e nessa coisa de seleção de ‘alvos’. A polícia SARS foi criada também em um momento de ditadura”, explica – a criação da PM brasileira se deu na década de 1970, no governo ditatorial brasileiro, e da SARS, em 1984, quando o país era governado por generais.

Os amigos nigerianos explicaram para Antônia um dos primeiros movimentos do #EndSARS. Segundo ela, dois estudantes foram mortos pela tropa na entrada de um campus universitário. Isso mobilizou a intelectualidade.

“O EndSARS começa em 2017, tem relatos. Um deles estudava literatura, o que fez professores, escritores se mobilizarem”, afirma, dizendo que estas pessoas decidiram agir por também se considerarem alvos em potencial da SARS.

Protestos e mortes

Desde o início dos novos protestos na Nigéria, em 8 de outubro, 56 pessoas morreram, segundo a ONG Anistia Internacional. As polícias e Exército revidaram os atos com tiros de munição letal. O resultado é 38 pessoas mortas somente na terça-feira (20/10) durante protestos.

O assunto ganhou relevância internacional quando estrelas da música se expressaram, como Rihana, Beyoncé e Cardi B. As cantoras cobraram por respostas das autoridades locais e internacionais para acabar com a violência policial.

“É uma grande traição para os cidadãos. As mesmas pessoas criadas para proteger são aquelas por quem mais tememos ser assassinados”, escreveu Rihanna. “Estou com o coração partido ao ver a brutalidade sem sentido que ocorre na Nigéria. Tem que haver um fim para a SARS”, pronunciou-se Beyoncé.

Presidente do país, Muhammadu Buhari afirmou que não permitirá que manifestantes coloquem “em perigo a paz e segurança nacional”. Depois, lamentou as dezenas de mortes. “Entristece-me profundamente que vidas inocentes tenham sido perdidas. Estas tragédias são injustificadas e desnecessárias”, afirmou, classificando quem protesta como “elementos subversivos para causar o caos”.

Já há casos de policiais que serão processados por violarem os direitos humanos na repressão aos protestos, que conta com participação dos militares. Os generais enviaram as tropas às ruas sem pedido oficial do governo.