Mercado abrirá em 4 h 11 min
  • BOVESPA

    110.672,76
    -3.755,42 (-3,28%)
     
  • MERVAL

    38.390,84
    +233,89 (+0,61%)
     
  • MXX

    52.402,73
    -283,30 (-0,54%)
     
  • PETROLEO CRU

    82,33
    -0,63 (-0,76%)
     
  • OURO

    1.775,30
    +4,80 (+0,27%)
     
  • BTC-USD

    63.950,98
    +1.690,37 (+2,71%)
     
  • CMC Crypto 200

    1.481,14
    +17,78 (+1,22%)
     
  • S&P500

    4.519,63
    +33,17 (+0,74%)
     
  • DOW JONES

    35.457,31
    +198,70 (+0,56%)
     
  • FTSE

    7.214,58
    -2,95 (-0,04%)
     
  • HANG SENG

    26.078,49
    +291,28 (+1,13%)
     
  • NIKKEI

    29.255,55
    +40,03 (+0,14%)
     
  • NASDAQ

    15.401,00
    +2,50 (+0,02%)
     
  • BATS 1000 Index

    0,0000
    0,0000 (0,00%)
     
  • EURO/R$

    6,5114
    +0,0152 (+0,23%)
     

Vinhos de Portugal 2021: conheça a Quinta de Ervamoira, um cenário irreal no Douro

·7 minuto de leitura

Deixa-se a aldeia de Muxagata, entra-se num caminho que parece acabar em algum lugar na encosta das montanhas à frente, desce-se a um ribeirão que é preciso atravessar sem que haja uma ponte, volta-se a subir num esforço aparentemente inútil, chega-se ao topo do monte e dá-se uma revelação: Ervamoira estende-se aos nossos pés, como um cenário irreal. Ao longo do vale do Douro, não é difícil encontrar quintas (o conjunto formado pelas vinhas e pelas casas e as adegas que lhe servem de base) magníficas, seja pela sua memória secular, pela beleza dos lugares, pelo patrimônio ou pela excelência dos seus vinhos. Mas, ainda assim, Ervamoira merece um lugar especial no catálogo. Pelo que se vê, mas também pelo sonho e pela visão humana que deixa transparecer no seu desenho.

Ingressos: para ter acesso às provas e talk shows do Vinhos de Portugal 2021, basta clicar aqui.

Nesse ponto alto do monte se vê uma enorme mancha (170 hectares) de videiras plantadas em colinas suaves que descem até ao rio Côa, um afluente do Douro. O seu desenho, os recortes dos caminhos, a velha casa transformada em museu mais abaixo, a montanha árida e despida na outra margem do rio dão-lhe uma impressão de paisagem bíblica. Ainda que a orografia, a geologia ou o clima tórrido do verão e áspero do inverno lhe moldem o caráter, Ervamoira é bela e imponente também por causa do homem que a inventou e afeiçoou. Chamava-se José Antônio Ramos Pinto Rosas, era um apaixonado pelo Douro e o Vinho do Porto, fazia as suas provas de vinho com um pássaro no ombro e expressava nos olhos claros não apenas uma sensibilidade poética, mas uma concepção de vida que exprimia o sonho que tempera as almas românticas.

José Antônio era herdeiro da linhagem dos Ramos-Pinto, uma família que criou uma empresa de Vinho do Porto em meados do século XIX e dominou o mercado brasileiro com a ajuda de ousadas campanhas de marketing através de cartazes nos quais os aromas e os sabores se associavam a poses sensuais e lascivas. Por volta do final dos anos 1960, começou a projetar a ideia de uma quinta modelo. Teria de ser bela para lhe encher a alma de artista, mas igualmente moderna para acolher as inovações da ciência. Durante anos, olhou minuciosamente os mapas militares à procura desse lugar de destino. Um dia, decidiu visitar a encosta de Santa Maria e experimentou a sensação que ainda hoje se sente quando se deixa Muxagata e se sobe ao monte: o lugar que procurava estava ali, no Douro Superior, a poucos quilômetros da fronteira com a Espanha.

Era preciso convencer os proprietários a vender. Não foi fácil. Os herdeiros eram muitos, a maioria vivia em Lisboa e durante alguns anos José Antônio contentava-se em alimentar o sonho viajando até ao cume daquele monte para contemplar o lugar como uma página em branco à espera do traço do pintor. Até que, com a Revolução de 25 de Abril de 1974, as coisas mudaram. Num tempo de grande instabilidade política, com nacionalizações em vários setores da economia acontecendo, a família assustou-se e decidiu vender. Santa Maria ia deixar de existir. Ervamoira, o título de um livro da romancista francesa Suzanne Chantal que narrava as atribulações de uma família do Vinho do Porto na era do marquês de Pombal (1699-1782), acabava de nascer.

Chegou o momento de desenhar a vinha, de escolher as uvas para cada declive, para cada ponto distinto de exposição solar, distinguir as que seriam plantadas nas partes mais altas ou mais baixas, de pensar nos caminhos ou de imaginar o vinho ideal. Para o conseguir, José Antônio, na época já nos seus 60 anos, precisava de um aliado. Encontrou-o no sobrinho, João Nicolau de Almeida, que, aos 27 anos, acabou os seus estudos de Enologia em Dijon, na França, e estava de volta ao Porto e ao Douro. Um dia, sem aviso prévio, José convidou o sobrinho para uma viagem ao Douro e lá deu-lhe conta da sua missão para os próximos anos: procurar as uvas mais adaptadas ao solo e ao clima de Ervamoira entre as centenas de variedades existentes no Douro; plantar diferentes uvas em diferentes partes da quinta; fazer milhares de ensaios e de provas; transformar Ervamoira na referência do futuro de uma região que produz vinhos há mais de 2 mil anos.

João, um dos filhos do criador do mítico vinho Barca Velha, não resistiu. Era jovem, e o tio soube explorar a sua sede de coisas novas. Até porque não era difícil de imaginar o resultado desta aventura. Havia ali algo de potencialmente revolucionário. Que se cumpriu. Ervamoira e os seus mentores acabaram por influenciar de forma indelével o Douro contemporâneo. A escolha das cinco uvas mais adaptadas à região tornou-se uma referência. E os vinhos produzidos na paisagem bíblica das margens do Côa eram a prova de que a ciência tinha lugar no impressionante saber acumulado da região.

Subitamente, no final dos anos de 1980, quando Ervamoira ainda estava na adolescência, o sonho sofreu um abalo. Sabe-se de um projeto de construção de uma barragem no Côa que ameaçava inundar uma parte sensível de Ervamoira. Décadas de trabalho empenhado estavam em causa. Nada parecia ser capaz de parar o avanço do betão. José Antônio torna-se um homem desiludido e refugia-se numa pequena quinta que compra perto de Ervamoira. Numa entrevista ao jornal português Público, em 1994, foi incapaz de conter as lágrimas quando falou do fim do seu sonho, do “novo mundo” que desejava. Era um homem desiludido e triste.

Em 1995, porém, algo de imprevisto aconteceu. Apesar das tentativas de silenciamento das autoridades nacionais de proteção do patrimônio, soube-se que nas margens do Côa tinham sido descobertas gravuras rupestres de grande valor histórico. Em poucas semanas, o caso chegou à imprensa nacional e daí à internacional. Arqueólogos de todo o mundo visitaram as imagens de cavalos ou auroques rasgados nas rochas junto à água. Milhares de estudantes de todo o país instalaram-se no local gritando que “as gravuras não sabem nadar”. Mário Soares, presidente de Portugal na época, foi ao Côa e ele próprio repetiu a frase. Na campanha para as eleições de 1995, os socialistas prometeram parar a barragem se ganhassem. Ganharam.

José Antônio Ramos-Pinto Rosas não pode conhecer este desfecho. Morreu amargurado poucos anos antes. A sua obra, porém, prosperou. No Porto ou nos vinhos do Douro, a quinta faz a diferença. Este ano, e pela primeira vez, vai lançar um impressionante tinto (o Quinta de Ervamoira de 2018). João Nicolau de Almeida executou o sonho do tio com escrúpulo e saber — aposentou-se, entretanto, e dirige um pequeno projeto familiar no Douro, o Monte Xisto, depois de uma carreira que lhe garantiu um lugar de destaque no Douro contemporâneo. José Rosas, filho de José Antônio, dirige hoje a Ramos-Pinto, uma empresa que a sua família vendeu aos produtores de champagne Louis Roederer.

Na solenidade da paisagem do Douro Superior, Ervamoira continua majestosa e bela. Como que provando que o sonho do seu mentor valeu mesmo a pena.

Saiba como comprar seus ingressos

Venda: assinantes dos jornais O GLOBO e Valor Econômico tem 20% de desconto nos talk shows. Valores das provas: R$ 109 (provas gerais e premium sem garrafa de vinho), R$ 544 a R$ 880 (provas gerais com garrafas de vinho entregues em casa) e R$ 1.060 (provas premium com garrafas de vinho entregues em casa). Valores dos talk shows: R$ 82 (sem garrafa de vinho) e R$ 109 (com garrafa de vinho entregue em casa).

O Vinhos de Portugal é realizado pelos jornais O Globo, Público e Valor Econômico em parceria com a Viniportugal, com a participação do IVDP, Instituto do Vinho do Douro e do Porto, apoio da Comissão Vitivinícola do Alentejo e da Comissão Vitivinícola de Setúbal, restaurante oficial Bairro do Avillez, projeto da Out of Paper.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos