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Vídeo flagra PMs matando suspeito em Campinas (SP); especialista vê ‘possível execução’

Ponte Jornalismo
·4 minutos de leitura

Por Arthur Stabile

Uma perseguição policial em Campinas, no interior de São Paulo, nesta quinta-feira (24), terminou com um homem morto por PMs, em uma ação que especialistas consideram uma “possível execução”. Testemunhas registraram em vídeo o momento em que os policiais interceptam o carro e atiram no suspeito.

Nas imagens, o veículo é atingido pela viatura e para. No mesmo instante os policiais saem correndo da viatura já atirando na direção do motorista. A tentativa de fuga durou em torno de dez minutos, com viaturas da PM e da Polícia Rodoviária atrás do homem. Ele dirigia o veículo sozinho.

Leia na Ponte:

Outras imagens mostram o carro em fuga. O para-choque traseiro está solto pelos danos causados na tentativa de despistar os policiais. O veículo seria roubado.

Os policiais envolvidos na ação integram o Baep (Batalhão de Ações Especiais de Polícia), tropa que atua no padrão Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), a mais letal da PM paulista.

Em sua campanha, o governador João Doria (PSDB) prometeu ampliar a todo o estado a cobertura dos Baeps, tendo aumentado de cinco para 11 o total de batalhões, conforme publicado pela Ponte. O Baep de Santos, por exemplo, é o esquadrão mais matador do estado.

Tenente-coronel aposentado da PM paulista, Adilson Paes de Souza considera que o vídeo demonstra uma “possível execução” por parte dos policiais.

“O vídeo não mostra que a vida dos policiais estava em risco. Mesmo que ele tivesse com arma na mão, durante a perseguição não estava colocando a vida dos policiais em risco”, analisa.

Segundo ele, o que justificaria os disparos dos PMs seria uma pessoa disparando de dentro do carro na direção da viatura. “Não é o que está no vídeo. Carro nem parou e já alvejaram. Onde está a ameaça aos policiais?”, questiona.

O policial aposentado detalha que houve uma falha grave de protocolo no fim da perseguição. Explica que os policiais não seguiram o chamado Método Giraldi.

“De acordo com a lei, se tem o uso moderado dos meios necessários e, em última instância, a arma, para defender sua vida ou a de terceiros. Não foi o que aconteceu”, detalha.

O Método Giraldi foi instituído pela PM paulista após vídeo de tortura de PMs em abordagens na Favela Naval, em Diadema, Grande SP, em 1997. O manual traça como deve ser a ação policial e traz a determinação de que, quando for necessário que o PM atire em um suspeito, que ele faça dois disparos na direção do abdômen.

“A partir do momento que conseguiram alcançar o veículo e ele parou, deveriam ficar em posição de alerta, empunhando as armas, mesmo que apontando para a pessoa, e aí verbalizar”, exemplifica Adilson.

Gabriel Sampaio, advogado coordenador do programa de Enfrentamento de Violência Institucional da ONG Conectas Direitos Humanos, defende que “tudo indica” ter ocorrido uma execução sumária de uma pessoa pela PM nesta ocorrência.

“Com certeza, o trecho do vídeo demonstra ser essa uma hipótese evidente. Mostra de forma concreta que há indícios muito fortes de uma execução sumária”, analisa.

O especialista diz que os vídeos mostram que não houve qualquer proporcionalidade por parte dos PMs do Baep. “Temos uma situação de total domínio, o vídeo não revela nenhuma resistência que justificasse uma execução daquela forma”, critica.

Acionada pela Ponte, a PM explicou em nota que o homem fugiu por mais de 20 minutos dos policiais e que segurava uma arma quando interceptado. “Após o condutor perder o controle do veículo houve a colisão com a viatura, momento em que os policiais avistaram o agressor com a arma em punho. Foram efetuados disparos, pela equipe e o mesmo foi desarmado. Há testemunhas oculares de que neste momento o indivíduo estava com arma na mão”, assegura a corporação.

No documento enviado à reportagem, a PM reforça que testemunhas e outros policiais confirmam que o homem estava armado quando tentou fugir. A corporação detalha que o carro foi roubado em um comércio “onde o infrator da lei havia rendido diversas pessoas que lá se encontravam”, e que a polícia o passou a perseguir na sequência.