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Vidas salvas versus mortes a longo prazo: os danos colaterais da COVID-19

Por Amélie BOTTOLLIER-DEPOIS
Controle de temperatura em mesquita de Milão em 5 de junho de 2020

O confinamento contra a COVID-19 evitou muitas mortes, mas suas consequências também custarão vidas a longo prazo, uma equação complexa que inclui um determinante ético variável.

"É um cálculo muito difícil, que os melhores epidemiologistas e especialistas em Ciências Sociais tentam resolver", declarou à AFP a socióloga Sarah Burgard, da Universidade de Michigan.

"Entre as dificuldades estão a avaliação do número de mortos pela COVID-19, o número de mortes que podem ser atribuídas ao caos e às consequências da crise (no sistema de saúde), comparado com as mortes que podem ser atribuídas às consequências econômicas do confinamento e seu impacto em indivíduos e empresas", completa.

Em um estudo publicado no ano 2000, o economista americano Christopher Ruhm fez esta pergunta: "As recessões são boas para a saúde?".

"Minha hipótese era que quando a economia vai mal, a saúde das pessoas se deteriora. Descobri que, em grande parte, estava equivocado", explica 20 anos mais tarde.

Apesar do aumento dos casos de suicídio e de estresse com o desemprego, assim como o abuso de substâncias nocivas, do cigarro e de drogas ilegais, com a desaceleração econômica, os acidentes nas estradas e a poluição do ar diminuem. Além disso, a saúde física melhora, graças ao maior tempo livre para fazer exercícios, de acordo com o estudo de Ruhm.

Resultado: com uma crise, alguns indicadores de saúde pública registram queda, mas "quando o desemprego é elevado, a mortalidade cai", afirmou Ruhm em uma videoconferência disponibilizada em abril no site da Universidade da Virgínia.

Ao menos nos países desenvolvidos e durante uma recessão "normal". Hoje, porém, "estamos em uma situação desconhecida", ressalta.

"É arriscado extrapolar", concorda Sarah Burgard, pois esta "crise inédita ameaça muitos 'pontos positivos' habituais durante uma desaceleração econômica".

Por exemplo, as atividades que atenuam o impacto na saúde da perda de um emprego são praticamente impossíveis durante um confinamento, como praticar esportes, passear e encontrar os amigos.

"E o apoio social que você pode dar, ou receber, pode ser limitado, aumentando o isolamento e tornando mais difícil manter em bom estado de saúde física e mental", completa a socióloga.

Além disso, o fato de muitos pacientes terem adiado os exames médicos pelo temor de ir a um hospital durante a epidemia também pode custar vidas.

Quase 80 milhões de crianças com menos de um ano correm o risco de contraírem difteria, sarampo, ou pólio, devido à suspensão das campanhas de vacinação em muitos países, alertam o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Aliança Mundial para as Vacinas.

- "Sem voz" -

Paralelamente, os estudos que destacam um impacto positivo das recessões na mortalidade envolvem, sobretudo, os países ricos.

"Nos países com renda média, ou baixa, a mortalidade aumenta nestes períodos", afirma à AFP Thomas Hone, pesquisador de saúde pública da Imperial College de Londres.

"Tudo aponta que um sistema de saúde sólido e uma rede de segurança social são vitais para proteger a população dos efeitos negativos de uma recessão", completa.

O Programa Alimentar Mundial da ONU advertiu contra o risco de disparada do número de pessoas à beira da fome, que pode dobrar em 2020 e "superar 250 milhões".

Com estas previsões, acontecerão mais mortes a longo prazo relacionadas indiretamente à COVID-19 do que vidas salvas, graças ao confinamento?

As variáveis que devem ser consideradas são múltiplas e incertas. Algumas previsões sobre o número potencial de mortos foram muito alarmistas? O número oficial de mortes provocadas pela COVID-19 é correto? Quantas mortes foram evitadas com o confinamento? Estas são algumas das questões que mobilizam os especialistas.

Em um estudo publicado na segunda-feira, a Imperial College de Londres calculou em 3,1 milhões o número de mortes evitadas em 11 países europeus, mas o número é baseado em uma primeira estimativa de óbitos que a pandemia teria provocado, se nenhuma medida de controle fosse adotada.

E, mesmo se um resultado claro fosse alcançado, "o que faríamos com esta cifra? Ética e politicamente seria complexo", segundo Burgard.

"A questão será política", prevê Arthur Caplan, da Escola de Medicina Groceman, da Universidade de Nova York.

Mas, para este especialista em bioética, as previsões dramáticas de mortalidade não permitiram outra opção que não o confinamento.

Politicamente, as vidas ameaçadas a longo prazo "não têm voz", afirma Caplan.

"Não teremos o diretor-geral do Ministério da Saúde, informando a cada dia sobre as estatísticas do excesso de mortalidade por suicídio, ou por acidente vascular cerebral", declarou o sociólogo Didier Fassin ao jornal francês "Le Monde".

"Ninguém, ou quase ninguém, vai chorar por estas vidas perdidas", concluiu.