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Verde, de Stuhlberger, afirma que subestimou crise do coronavírus

JÚLIA MOURA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Verde Asset Management, uma das mais respeitadas e bem-sucedidas gestoras de fundo do Brasil, presidida por Luis Stuhlberger, afirma que subestimou a crise do coronavírus.

"Analisando nosso processo decisório recente, cometemos um erro importante: começamos a comprar muito cedo", diz a gestora em carta a investidores divulgada nesta sexta-feira (20), em referência à compra de ações, especialmente nos Estados Unidos, neste momento de baixa do mercado acionário.

Neste ano, Bolsas acumulam perdas semelhantes à da crise econômica de 2008-2009. O Ibovespa, maior índice acionário do Brasil, cai cerca de 40% em 2020.

Em janeiro deste ano, Stuhlberger afirmou que havia uma bolha no mercado acionário brasileiro por causa da queda da taxa básica de juros, a Selic, que tem renovado sua mínima histórica desde 2019. Hoje, a taxa está a 3,75% ao ano.

"No Brasil existe uma bolha na Bolsa. Os órfãos do CDI estão diversificando tudo o que aparece. Isso é muito bom para a economia brasileira, mas o mercado está praticamente forçando o Banco Central a cortar mais a taxa, quando, na minha opinião, deveria ter parado no 4,75% para depois não ter que subir de novo", disse à época, citando o risco de a inflação chegar a um patamar de "não linearidade" em algum momento.

A declaração causou polêmica no mercado, cuja maioria dos agentes discordou de que houvesse uma bolha, ainda que alertassem para a dificuldade de vê-la antes que estoure.

Em fevereiro, com o aumento do número de casos do novo coronavírus no mundo e a deterioração do mercado acionário, o fundo comunicou a seus cotistas que esperava que os mercados se estabilizassem "conforme as taxas de crescimento do número de novos casos desaceleram (em outras palavras, o que importa é a segunda derivada); conforme as temperaturas no Hemisfério Norte subam, a doença deve refluir; a reação de política pública, seja monetária, seja fiscal, tem um papel importante em mitigar pânicos no mercado".

No comunicado do mês passado, o fundo salientava que o crescimento dos novos casos ainda estava "longe de ser resolvido -especialmente porque os Estados Unidos fizeram uma opção política por demorar em testar as pessoas" e que, por isso, adotou "uma estratégia gradualista, de aumentar as posições em ações do fundo aos poucos, focando no mercado acionário americano, que consideramos o mais resiliente e que deve voltar primeiro, quando as condições acima tiverem sido preenchidas."

Agora, o fundo afirma que a estratégia continua válida, mas que começaram a comprar ações "muito cedo". "Subestimamos algumas coisas", diz o relatório desta sexta.

A Verde afirma que se equivocou ao considerar que a chegada do verão no hemisfério norte reduziria o número de casos da Covid-19 e ao levar em conta o desenvolvimento da doença na Coreia do Sul como base de projeção.

"A Coreia do Sul teve um padrão exemplar em termos de gestão governamental da crise, e a doença atingiu uma população razoavelmente jovem. Já na Itália, a população idosa foi atingida de maneira brutal, e na hora que ficou claro que a única solução era o shutdown [paralisação] completo, já era tarde demais e o sistema de saúde não aguentou. O caso italiano virou benchmark [referência] para o mundo ocidental, e isso fez os mercados precificarem o sudden stop [parada repentina nos fluxos de capital] econômico de todos os países".

A gestora diz ainda que a crise é pior do que anteriormente projetado devido à falta de liquidez nos mercados globais, o que leva à perda de valor de ativos seguros, como ouro e títulos do Tesouro americano. Geralmente, quando ativos mais arriscados, como ações e títulos de dívida, caem, ativos mais seguros sobem. Também pesa a piora do crédito global, com maior risco de empresas e países não honrarem suas dívidas.

"Tudo isso exacerba de maneira importante a deterioração de sentimento e de preços. [...] A incerteza econômica trazida pelos seguidos lockdowns mundo afora faz com que o horizonte de investimentos de todos seja reduzido ao máximo. Já vimos isso em 2008 e outras crises. Esta é a oportunidade. Obviamente teremos impactos econômicos sérios. Mas para nós, a correção dos mercados mais do que reflete tais impactos", diz a Verde.

A gestora menciona as pesquisas sobre tratamentos antivirais e vacinas, além das medidas fiscais e monetárias adotadas pelos governos, "como uma ponte capaz de atravessar o período de volatilidade atual".

A Verde continua aumentando o portfólio de ações americanas por ver, neste mercado, "a melhor combinação de poder de fogo fiscal e monetário com lucratividade das empresas".

A gestora mantém ainda, no seu fundo multimercado -que combina diversos ativos de renda variável e fixa- ações brasileiras e investimento na curva intermediária e longa de juros futuros.