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Vera Iaconelli: “O que a gente chama de homem e mulher se modifica”

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
·6 minuto de leitura
O mundo está preparado para se livrar da masculinidade tóxica (Arte: Thiago Limón/Yahoo)
O mundo está preparado para se livrar da masculinidade tóxica (Arte: Thiago Limón/Yahoo)

Por Rafaela Martuscelli

Após tanto tempo seguindo os mesmos costumes, as gerações mais velhas acabaram se acomodando. Os mais jovens — conhecidos como millennials e geração Z— vieram para mudar o jogo ao questionar determinados hábitos que já estavam intrínsecos em nosso cotidiano.

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Segundo um estudo divulgado pela Mastercard na 6ª edição do seu Fórum de Inovação, 64% dos os millennials da América Latina adotam novos comportamentos que constantemente desafiam o que consideramos normal.

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Mas será que apenas essas reflexões e o desejo pela mudança são o que precisamos para chegarmos à essa mudança? Confira o nosso bate-papo com Vera Iaconelli, psicanalista mestre e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, membra do Instituto Sedes Sapientiae e membra da Escola do Fórum do Campo Lacaniano.

Pergunta: Querendo ou não, as nossas primeiras referências na vida são os nossos pais. Quando um pai briga com um filho por ele chorar ou quando uma mãe incentiva que o filho mexa com mulheres, como isso impacta na compreensão da criança quanto a masculinidade?

Vera Iaconelli: Esses comportamentos que você descreve, eles se tornam exemplos de masculinidade para meninos e para meninas. Assim como a gente ensina a uma criança que a cadeira chama cadeira, que a gente se um veste de um jeito “tal” para ir a escola, a gente ensina como os homens se comportam e como as mulheres se comportam. Então, a versão da masculinidade e feminilidade, a primeira e mais fundamental, é essa que os pais passam, e depois a criança vai ter na escola, no contato com outras pessoas, acesso à outras versões. Mas é essa que vai marcar esse início. Então, a gente vende uma ideia do que é masculinidade e feminilidade para os filhos. Eles depois podem até confrontar isso, mas essa primeira marca é uma marca que nomeia o que é masculinidade e o que é feminilidade. Em cada época, esses valores se modificam, eles não são absolutos também. Em uma outra época, outras qualidades estão associadas à esses nomes e a criança assume isso como a verdade.

Você acredita que as futuras gerações vão ter uma mentalidade diferente em relação às masculinidades?

Vera: Todas as gerações com certeza terão uma nova ideia de masculinidade e feminilidade, embora a gente não saiba exatamente qual. Porque conforme a época vai se modificando, os costumes vão se modificando, as questões econômicas e sociais vão sendo transformadas, o que a gente chama de homem e mulher, casamento, até o que a gente chama de filhos, se modifica. A nossa percepção da realidade se modifica. O que não significa que vai ser melhor. A gente não sabe. Só vai ser melhor se a gente fizer ela se tornar melhor, né? Não tá dando de saída como uma inércia como uma evolução. Existem muitos momentos da história e de involução, né? A gente perde direitos de perto de conquista a gente retroagem. Então alguma coisa vai mudar. Ainda não sabemos o que e depende totalmente do tempo que fizer hoje.

P: Mesmo com tantas informações, as gerações mais velhas ainda não se livraram completamente das masculinidades nocivas. Qual é a melhor maneira de ensinar as nossa crianças a combater a masculinidade tóxica?

Vera: Imaginar que as gerações mais velhas vão se livrar totalmente de uma masculinidade nociva, porque o que tá em jogo aqui é o fato de que, de fato, como somos seres humanos, seres de linguagens, seres sociais, nós construímos os nossos modelos do que chamamos de masculinos e femininos. Não tá dado pela natureza, né? Então, o duro é descobrir que ele é construído, que não tem uma verdade última sobre o masculino e uma verdade última sobre o feminino. E as pessoas vão se agarrando aos estereótipos que elas encontram, porque é um pouco assustador a gente reconhecer que isso é uma criação humana, né? Em cima de uma observação do corpo — que poderia ser uma outra observação, mas a gente observa os órgãos genitais e decide que aqui tem um homem, aqui tem uma mulher, e depois atribui um monte de características a homens e mulheres. Então, é difícil, porque significa repensar a própria questão de gênero, que em alguns momentos é bem assustador.

P: Você acredita que a tendência para o futuro é um mundo mais bem informado e receptivo a mudanças desse tipo?

Vera: A tendência é que o mundo, sim, esteja mais bem informado, né? E comece a pensar questões de maior receptividade. Só que o mundo é profundamente heterogêneo. Hoje, o mundo consiste em mulheres que podem ser CEOs de grandes empresas, mas crianças, meninas, com casamento forçado aos doze anos de idade, e estão todos no mesmo mundo. Então, a gente tem aí uma heterogeneidade gigantesca. A gente tem lugares no mundo onde se vive uma verdadeira “Idade Média”, né? E lugares também onde a homossexualidade é proibida, as pessoas são mortas por causa disso, oficialmente pelo Estado. Então, acho que sim, em alguns rincões e alguns espaços, a gente vai chegar em formações bem mais modernas, bem mais tolerantes, mas sempre vai existir o espaço do retrógrado, do violento, da não-aceitação da diferença.

P: Como os pais podem se preparar para criar os seus filhos longe da masculinidade tóxica?

Vera: Olha, os pais vão começando, eles mesmos, a questionarem os seus próprios modelos de masculinidade, ou seja, não se trata só do pai, mas do pai e da mãe, que reproduzem, juntos, modelos de masculino e de feminino. Não dá pra pensar o masculino sem o feminino. Então, o feminino dócil, que se submete, que se objetifica, que se dispõe, que serve, que cuida, ele compõe com o masculino que lidera, que resolve, que decide, que manda. Isso só funciona se for pensado nessa “dupla-face”, né? Então, no momento em que as mulheres começam a discutir a questão, principalmente dos cuidados que cabem à elas — cuidados dos filhos, dos maridos, da casa, dos avós, dos sogros —, isso vai ter uma revolução na economia, né? Porque é todo um serviço não-remunerado que vai afetar profundamente os lares, e vai afetar profundamente a economia e a relação com os homens. Então, a gente até pode sonhar e lutar por uma masculinidade menos tóxica. Obviamente, acho que a gente vai ter grande espaço nesse sentido, mas não podemos ser ingênuos e achar que se trata só de um discurso simpático, né? Tem uma transformação social importante ligada à essa mudança de mentalidade, e a questão é: estamos dispostos a pagar todo o preço dessa modificação? Ela está falando de algumas coisas estruturais na nossa sociedade. Os homens vão se ocupar igualmente dos filhos? As mulheres vão dividir equanimemente o cuidado com a casa e com o outro? Então, a gente está falando de uma questão que nos afeta profundamente.

**Concepção e Coordenação de Amauri Terto e Diego Iraheta

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