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Venezuelanos passam horas nas filas para comprar com a criptomoeda petro

Por Esteban ROJAS
Os venezuelanos fazem fila em uma loja que aceita pagamento em petro

Leonor Díaz passou cinco horas numa fila diante de uma loja de Caracas na esperança de poder pagar suas compras com petros, a criptomoeda venezuelana usada pelo presidente Nicolás Maduro para conceder um bônus de Natal a funcionários públicos e aposentados.

Na Venezuela, filas não são um fenômeno incomum.

Entre 2014 e 2018, a grave escassez de alimentos que afetava o país com enormes reservas de petróleo obrigou os venezuelanos a ter muita paciência para conseguir alguns suprimentos.

Desde o início do ano, ovos, frutas e carne estão disponíveis novamente nas lojas.

Mas agora é nos postos de gasolina que as filas são formadas devido à falta de combustível e também em frente às lojas que aceitam pagamentos em petro, uma criptomoeda lançada em fevereiro de 2018 pelo governo socialista.

Maduro prometeu meio petro a todos os aposentados e funcionários públicos no Natal. Esse "bônus" equivale a 30 dólares, uma quantia "razoável" em um país onde a inflação em bolívares (200.000% este ano, segundo o FMI) é duplicada por causa dos preços em dólares.

Mas pagar em petro é muito complicado. Segundo dados oficiais, apenas 4.800 empresas em toda a Venezuela têm os terminais necessários para esta moeda.

Daí as filas em frente a essas lojas e a irritação de Leonor Diaz, uma aposentada de 70 anos que decidiu fazer compras em um supermercado de Caracas.

"É uma humilhação. O governo zomba das pessoas e principalmente de nós, os idosos. Não podemos ficar na fila por cinco, seis, sete horas", reclama.

- Maravilha ou fraude? -

Ao anunciar a criação do petro no final de 2017, Nicolás Maduro pretendia que fosse a "primeira criptomoeda soberana do mundo".

Os economistas a veem, acima de tudo, como uma tentativa de contornar as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos contra Caracas.

Para pagar em petro, existem duas soluções: um sistema biométrico que funciona com impressões digitais ou um aplicativo móvel.

Em uma loja de departamentos em Caracas, Doris Lozada, uma funcionária pública de 55 anos, espera comprar calças e comida com o petro, mas acha o "aplicativo complicado".

E no supermercado onde Leonor Diaz espera na fila, o sistema de pagamento biométrico teve problemas. Mas isso não parece irritar Rafael Espinoza, um aposentado de 66 anos, que também está na fila.

"O petro é bom. Agradeço ao nosso presidente", diz ele.

Publicidade no Twitter, outdoors nas estradas... o governo não está poupando elogios aos benefícios do petro.

"O Petro é uma maravilha, um milagre. É uma experiência única e extraordinária", escreveu Nicolás Maduro no Twitter novamente no sábado.

Os economistas são mais céticos. Asdrubal Oliveros, da empresa Ecoanalitica, considera que o petro não é uma criptomoeda real, mas "um monstrengo".

O governo pretende impor o petro "à força" em um contexto de hiperinflação, onde a confiança na economia e nas finanças "é zero", afirma. "O resultado é que a maioria dos venezuelanos não quer o petro e aposentados e funcionários públicos sofrem as consequências", afirmou.

E o futuro internacional do petro parece comprometido.

Washington proibiu transações com esta criptomoeda e, ao contrário do bitcoin e outras, não está disponível nas plataformas de compra.

Alguns sites de avaliação, como o Icoindex.com, até a qualificam como "uma fraude".