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Velha Guarda da Portela chega aos 50 anos: veja os ‘causos’ dessas cinco décadas

Gilberto Porcidonio
·4 minuto de leitura

“Esse espírito de grupo sempre foi uma coisa marcante e funciona como um ministério em que cada um sabe a sua função”, sintetiza o historiador João Baptista Vargens, que acompanha as idas e vindas da Velha Guarda da Portela desde a sua origem, em 1970. Criado para que os sambas e as criações da agremiação não se perdessem pelo tempo, o grupo celebra em 2020 seus 50 anos com histórias cheias de bossa, quer dizer, cheias de samba, algumas contadas aqui por seus baluartes.

Porre ameaçou cachê em 1970

Único remanescente do grupo original, Monarco tem, dos seus 74 anos, 73 dedicados à Portela. Nos primeiros shows do grupo, ele não pôde participar pois estava trabalhando no mercado de peixe e seu patrão não o liberou. Quem gravou seu samba “Passado de glória” (do verso “Se for falar da Portela, hoje não vou terminar”), que dá nome ao primeiro disco do grupo, foi Jair do Cavaquinho. Logo depois, ele já estava se aventurando na estrada com o grupo, mas quase ficou sem receber:

— Nesta época, fomos fazer um show com Paulinho da Viola e Nelson Cavaquinho em Juiz de Fora. Quando chegamos, o Nelson tomou um porre danado e não pôde fazer o show. Fizemos sem ele, e o dono da casa não quis nos pagar o cachê porque o Nelson não participou. Só depois de muito tempo que o Paulinho da Viola conseguiu resolver isso e recebemos. Mas o Nelson era assim mesmo: quando ficava bêbado, se esquecia

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Primeira vez nos anos 1980

Dos 80 anos que dona Iranette Ferreira Barcellos, a Tia Surica, fará em novembro, 75 são de Portela. Em 2020, a dona de uma das feijoadas mais icônicas da cidade registrou seu amor à escola com a tatuagem de uma águia e os dizeres “Matriarca da Portela” no seu braço esquerdo. Porém, a lembrança que a marca, de fato, tem 30 anos, quando se tornou uma das pastoras do grupo a convite do Manacéa, compositor e instrumentista que, hoje, nomeia rua, estação do BRT e escola em Madureira:

— Em 1980 mesmo, quando entrei, ia ter um show na Zona Sul, e o Manacéa, sempre muito reservado, foi lá em casa e disse “Surica, quero você lá em casa amanhã”. Foi muito emocionante porque eu nem era Tia Surica naquela época, era só Surica. Tenho muito orgulho de fazer parte dessa galeria porque abriu portas para mim. Se hoje em dia eu sou o que sou, agradeço ao Manacéa.

Em família na década de 90

Filha de Manacéa, foi em 1998 que Áurea Maria subiu pela primeira vez no palco como pastora do grupo. O show, no Teatro Municipal de Niterói, foi um rito de passagem para a cantora:

— Eu só lembrava das palavras de minha mãe (Dona Neném, que morreu em maio, aos 95 anos): “Você está representando a nossa família, seu pai e seus tios Aniceto, Mijinha e Lincoln. Lembre de sua responsabilidade”. No momento do show, eu fiquei muito emocionada — conta Áurea, que só reviveu emoção parecida em 2006, quando se apresentou para brasileiros no festival de jazz Banlieues Bleues, na França: — Foi o meu primeiro (show) no exterior, e, na plateia, tinha muitos brasileiros emocionados. Foi muito significante para mim essa interação por estar distante do Brasil naquele momento.

Anos 2000 e o sabão no palco

O cantor e compositor Serginho Procópio era o mascote quando entrou no grupo em 1999, aos 33 anos, após a morte de seu pai, Osmar do Cavaco, por um convite feito no velório. Hoje um dos mais velhos, ele exalta o espírito jovial de todos:

— A gente ri o tempo todo. Em 2000, logo após o disco “Tudo azul” com a Marisa Monte, fizemos show no Ballroom. No meio, o celular do Argemiro (morto em 2003) toca: “O quê? Sabão?”. Eu virei e “ah, deixa para comprar sabão amanhã!”. O público “desmontou” e aplaudiu de pé.

Caso curioso nos anos 2010

Como elegância sempre foi uma das marcas da banda, Neide Santana, que se tornou pastora há 17 anos, lembra-se de uma preocupação curiosa:

— Fomos fazer uma apresentação na Rádio MEC, no Centro, e um companheiro nosso estava muito nervoso. A gente sentia que ele queria falar alguma coisa, mas sempre era muito sério. Em um momento, ele chega para mim, no privado, e pergunta: “Neide, você tem Corega (fixador de dentadura)? Eu esqueci de trazer a minha e parece que a minha dentadura vai pular” — lembra Neide, gargalhando: — Eu só consegui falar para ele ficar calmo que a dentadura não iria pular. Neste dia, ele estava muito tenso e engraçado.