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Varejo parte para o vale-tudo para vender TV antes da Copa

***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 27.10.2022 - TVs a venda na loja Magazine Luiza, na Marginal Tietê, em São Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 27.10.2022 - TVs a venda na loja Magazine Luiza, na Marginal Tietê, em São Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - TV usada, milhas aéreas, parcelamento em 30 vezes e até Pix por vantagem de gols do Brasil na Copa. As varejistas partem para o vale-tudo neste fim de ano para convencer o brasileiro a trocar o seu televisor, categoria de eletroeletrônicos que registrou queda de 22% nas vendas no país no ano passado.

Em todo o mundo, o evento esportivo costuma servir como alavanca para a venda de TVs, cujos fabricantes apresentam novas tecnologias a cada quatro anos. Mas o aparelho tem ficado cada vez mais em segundo plano nas residências diante da digitalização do conteúdo, com a possibilidade de assistir a filmes e séries em tablets e smartphones, por exemplo.

Nesta Copa, a expectativa é que seja vendido 1,5 milhão de unidades, disse à Folha Fernando Baialuna, diretor de negócios e varejo da GfK, consultoria especializada no mercado de eletroeletrônicos.

"O Brasil tem uma demanda reprimida de 8,5 milhões de televisores", diz, referindo-se a aparelhos obsoletos, na maioria de tubo.

A rede Casas Bahia promete até pagar Pix por número de gols que a seleção brasileira fizer no torneio mundial. Se o cliente comprar hoje uma TV de 55 polegadas da LG tecnologia 4K Qned, por exemplo, oferecida a R$ 4.000, vai ganhar R$ 200 de Pix a cada gol que o Brasil tiver de vantagem sobre o seu primeiro adversário na Copa, a Sérvia, em 24 de novembro.

"Se o Brasil fizer quatro gols e a Sérvia fizer um, o cliente que comprou a TV vai ganhar um Pix de R$ 600, para gastar como quiser, não precisa ser nas Casas Bahia", diz Abel Ornelas, vice-presidente comercial e de operações da Via, dona das redes Casas Bahia e Ponto. Para receber o dinheiro, porém, o cliente precisa abrir uma conta no banco digital do grupo, o BanQi.

A promoção dura enquanto o Brasil participar da Copa e só vale para o jogo seguinte ao da compra. Não está restrita à categoria TV, mas este é um dos itens mais caros que participam da ação, que promete distribuir pagamentos via Pix de R$ 50 a R$ 2.000 por gol em produtos selecionados.

Em parceria com o Bradesco, a Casas Bahia também oferece as TVs em 30 vezes sem juros. "Está tendo uma grande procura por aparelhos de tela grande, de 65 polegadas", diz o executivo. No site, os modelos disponíveis hoje neste tamanho chegam a R$ 13 mil.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a TV é um dos aparelhos de maior presença no país: está em 95,5% do total dos lares. Em 84% dessas residências, as salas já têm modelos de tela fina (LED, LCD ou plasma), que se tornaram populares no início dos anos 2000.

Em um ano marcado pela inflação e pelo aperto no poder de compra da população, o varejo precisa convencer o consumidor de que é hora de trocar seu aparelho de duas décadas atrás, partindo para uma smart TV (com acesso à internet), ou para um aparelho com telas de alta resolução.

Na opinião de Baialuna, da GfK, o varejo vai se dedicar neste fim de ano à oferta de modelos "premium que cabem no bolso".

Na tentativa de atender a esse público, o Magazine Luiza fechou parceria com uma fabricante chinesa para o lançamento da linha Vizzion no Brasil. São smart TVs de 32, 43 e 50 polegadas, cujos preços variam de R$ 1.199 a R$ 5.999.

"São produtos que custam entre 15% e 20% menos que as marcas tradicionais, oferecendo uma tecnologia compatível", diz Fábio Gabaldo, diretor comercial de tecnologia do Magalu.

Diante da queda de 20% das vendas em unidades no ano passado, Gabaldo reconhece que o varejo chegou ao primeiro semestre deste ano bem estocado de TVs. "Mas desde agosto a venda da categoria vem crescendo, semana a semana", diz o executivo.

A empresa também lançou no início de outubro a promoção "Troca Tudo": os consumidores podem oferecer eletrônicos usados --como TVs, celulares, tablets, notebooks e smartwatches-- para conseguir descontos na troca por um televisor novo.

Quem também está atento às pechinchas em televisores são os clientes da companhia aérea Azul. No acumulado do ano, até 25 de outubro, o número de resgates de TVs no site do programa de milhagem da empresa, o Tudo Azul, mais do que dobrou em relação ao mesmo período do ano passado.

De acordo com Marco Leite, gerente de parcerias da Azul, o tíquete médio gasto pelo cliente no site avançou de R$ 2.400 no ano passado para R$ 4.500 neste ano na categoria televisores.

O resgate mais alto até o momento foi o de um cliente que pagou 700 mil pontos por uma TV de 70 polegadas da Samsung, tecnologia QLED 4k. Um aparelho cujo preço no varejo é de R$ 11,2 mil.

Os dois maiores fabricantes de televisores do país, as coreanas LG e Samsung, realizam promoções nas suas respectivas lojas online para incentivar as vendas.

A LG promove modelos com as tecnologias Oled e Qned, acima de 55 polegadas, que custam entre R$ 6.000 e R$ 50 mil. Já a Samsung apresenta um parcelamento de até 24 vezes sem juros a quem tiver o cartão da marca.

"Vamos fechar o ano com um pequeno crescimento, de 3% na categoria TVs como um todo, mas a venda do segmento premium de televisores deve avançar 30% em valor", diz Cintia Viani, gerente de produtos TV da LG do Brasil.

Érico Traldi, diretor de TV e áudio da Samsung Brasil, reforça que a Copa é o fator que mais motiva o consumidor a trocar de aparelho.

Neste início de mês, a Samsung oferece um novo pacote de promoções das telas premium. "Queremos incentivar as vendas antes da Black Friday [25 de novembro], para que o consumidor assista ao primeiro jogo do Brasil, no dia 24, já com a TV nova."

De acordo com a consultoria GfK, em 2018, ano da Copa da Rússia, as vendas de TVs no Brasil cresceram 15,3% em unidades e 19,2% em faturamento (valores nominais, não corrigidos pela inflação). De lá para cá, houve perda de fôlego, mesmo com as pessoas ficando mais em casa durante a pandemia, até desembocar na queda de 22,2% em unidades e 4,5% em valor no ano passado.

No acumulado de janeiro a agosto deste ano, a venda em valor aumentou 6,5%, enquanto a venda em unidades subiu 2,8%.

Ao lado dos smartphones e da linha branca, as TVs estão entre as três principais categorias do varejo. "A Black Friday funciona para venda de perfumes, chocolates, smartphones --tudo o que é indulgente. Já o Natal, com presentes para todo o mundo, é pautado pela lembrancinha", diz Baialuna, da GfK. "A Copa é a grande chance de vender TVs."

Para ajudar no convencimento do consumidor, diz ele, a seleção brasileira tem um papel fundamental. "Quanto mais o Brasil passar de fase, maiores as chances de levar para casa uma televisão nova."