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Varejo e indústria veem 2° semestre mais favorável com 5G, Copa e auxílio

Por Andre Romani e Beatriz Garcia

SÃO PAULO (Reuters) - As principais varejistas brasileiras listadas em bolsa esperam uma recuperação nas vendas nesta segunda metade do ano, diante de uma série de eventos favoráveis --de Copa do Mundo ao Natal-- e perspectivas de melhora no cenário de juros e inflação, panorama também visto pela indústria eletroeletrônica que abastece o setor.

Porém, os empresários de três das maiores redes de varejo do país --Americanas, Via e Magazine Luiza-- foram cuidadosos ao definir a magnitude dessas expectativas, falando em otimismo "cauteloso" e semestre "mais favorável" a analistas e jornalistas no final da semana passada.

Para além da Copa, e do Natal, executivos ainda mencionaram a Black Friday, em novembro, o recente lançamento da tecnologia 5G, que deve ajudar na venda de celulares, e o aumento do programa Auxílio Brasil para 600 reais.

"Estamos muito confiantes com o segundo semestre deste ano, lembrando que há eventos muito importantes para os próximos meses", disse Marcio Cruz, que comanda a área digital da Americanas, a analistas na sexta-feira.

O otimismo aparece depois que as taxas de juros em seu mais alto pico no Brasil desde 2017 e o maior avanço da inflação em 12 meses em quase duas décadas pressionaram as vendas das varejistas no primeiro semestre.

A receita líquida da Via, dona das bandeiras Ponto e Casas Bahia, caiu 2,5% no primeiro semestre, enquanto a do Magazine Luiza ficou praticamente estável e da Americanas subiu 16,6%. No mesmo período de 2021, as três conseguiram aumento de vendas de 32,7%, 59,8% e 37,9%, respectivamente.

Cruz disse que as vendas da Americanas até esta metade do terceiro trimestre seguem crescendo de forma "consistente" nas lojas físicas, puxadas por produtos de valor médio mais baixo, mas a demanda online por produtos próprios, como eletrodomésticos, "segue tímida".

Na Via, o presidente-executivo da companhia, Roberto Fulcherberguer, afirmou que as vendas seguem na "mesma batida" vista no segundo trimestre, e que o terceiro trimestre ainda deve "ser mais desafiador".

A avaliação é que os fatores favoráveis às vendas estão mais concentradas no quarto trimestre, incrementados ainda por efeitos maiores relacionados a uma expectativa de alívio na inflação e estabilidade nos juros.

"As vendas de categorias mais tradicionais de produtos (como móveis, eletrodomésticos e celulares) tendem a refletir a evolução desses indicadores, principalmente inflação e taxa de juros", disse o diretor financeiro do Magazine Luiza, Roberto Bellissimo.

"Estamos vendo um aumento na demanda entre 30% e 40% por aparelhos 5G (nas cidades em que a tecnologia já foi implementada)", afirmou Fabrício Bittar, vice-presidente de operações do Magazine Luiza, observando que esses aparelhos tem preço médio acima de 2 mil reais.

INDÚSTRIA TAMBÉM NA EXPECTATIVA

Os fabricantes no primeiro semestre foram afetados por menor demanda e questões globais como alta de preços de insumos por conta do frete marítimo e dos gargalos na cadeia de suprimentos, mas o "segundo semestre deve ser melhor", disse o presidente-executivo da Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), Jorge Nascimento.

"Neste ano ainda tem um evento importante que é a Copa do Mundo quando tradicionalmente há um consumo maior de televisores, produtos de áudio e vídeo e refrigeradores", afirmou ele. A associação engloba empresas como Philco, LG, Panasonic, Samsung e Whirlpool.

Nos dados até maio, a indústria brasileira amargou queda de 24% nas entregas de produtos ao varejo em comparação a 2021, segundo a Eletros. "Estamos em um momento de crise com retração do consumo e precisamos que o cliente volte a consumir", disse Nascimento.

Na Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), a expectativa é de "otimismo moderado". A entidade, que tem como associadas companhias como Siemens, Apple, Dell e Motorola, projeta alta de 9% no faturamento do setor em reais em 2022, contra avanço de 22% em 2021.

Se do lado da oferta o custo do frete, a alta de insumos como aço e plástico e a crise de semicondutores atrapalharam a indústria na primeira metade do ano, na demanda, os altos patamares de estoques acumulados pelos varejistas em trimestres anteriores também serviram para reduzir as encomendas.

Humberto Barbato, presidente-executivo da Abinee, disse que "parece que as varejistas estão conseguindo desovar os estoques".

A avaliação é reiterada pelas companhias. "Não achamos que os estoques estão elevados, acreditamos que no segundo semestre a perspectiva de venda é melhor... para o que a gente acredita que é possível fazer de crescimento, os estoques já estão normalizados", disse Frederico Trajano, presidente do Magazine Luiza.

O mercado acionário tem mostrado animação com o setor e as ações das três varejistas - Magazine Luiza, Via e Americanas - têm reduzido perdas acumuladas no ano, conforme novos dados macroeconômicos positivos são divulgados. As três tiveram as maiores quedas dentre as ações do Ibovespa em 2021.

Só em agosto, até a tarde desta quarta-feira, as ações do Magazine Luiza lideram os ganhos do Ibovespa, com alta ao redor de 60%. Ainda assim, os papéis caem cerca de 43% no ano. A Via avança aproximadamente 45% no mês e tem queda de quase 34% no ano, enquanto Americanas tem valorização de 3% em agosto e recuo de 53% em 2022.