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Vale sela acordo por fatia da Mitsui em Moatize, mas mira saída de carvão

Luciano Costa
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Logo da mineradora brasileira Vale no edifício-sede da companhia no Rio de Janeiro

Por Luciano Costa

SÃO PAULO (Reuters) - A Vale assinou acordo com a Mistui para comprar a totalidade da fatia da empresa japonesa (15%) na deficitária mina de carvão de Moatize, em Moçambique, mas disse que pretende desinvestir dos negócios com o combustível fóssil na sequência.

O acerto não vinculante ("heads of agreement") ainda envolve a aquisição dos 50% de participação e créditos minoritários que a Mitsui detém no Corredor Logístico de Nacala (CLN), segundo comunicado da Vale na noite de quarta-feira.

"Com o acordo para a aquisição das participações da Mitsui e, consequentemente, a simplificação da governança e da gestão dos ativos, a Vale iniciará o processo de desinvestimento da sua participação no negócio de carvão", afirmou a mineradora.

A Vale acrescentou que esse movimento "será pautado na preservação da continuidade operacional de Moatize e do CLN, com a busca de um terceiro interessado nestes ativos".

Pelo acordo, a Vale comprará por 1 dólar a fatia da Mitsui nos ativos de mina e logística. Após o fechamento da transação, a mineradora brasileira consolidará todos os ativos e passivos da CLN, incluindo o project finance do Corredor de Nacala, que tem cerca de 2,5 bilhões de dólares de saldo remanescente, explicou a companhia.

A intenção de sair do negócio de carvão "está em linha com o foco da companhia em priorizar seus negócios core e sua agenda ESG (ambiental, social e de governança, na sigla em inglês)", disse a Vale.

Analistas do BTG Pactual disseram em relatório que a decisão da Vale é positiva e mostra um movimento na direção correta da atual administração da companhia, ao buscar se livrar de ativos que drenam caixa, como Moatize e Nova Caledônia, "algo em que antigos gestores tiveram menos sucesso".

Eles avaliaram ainda que "há uma boa chance" de que a Vale decida pagar antecipadamente o project finance de Nacala no curto prazo, mas minimizaram impactos negativos por isso.

"Entendemos que a incursão em carvão/Moatize foi um grande erro, com a companhia despejando bilhões de dólares e diluindo retornos. No entanto, estamos satisfeitos em ver a Vale dar um primeiro passo para desinvestir de seu negócio de carvão", escreveram.

As ações da Vale operavam em alta de 2,6% por volta das 10:40, depois do anúncio da operação, contra ganho de 0,4% no índice Ibovespa, apoiadas também por alta de 0,7% nos futuros do minério de ferro na China.

A Vale disse no comunicado que, com um futuro refinanciamento do project finance do Corredor de Nacala, simplificando sua estrutura, deverá obter economia anual estimada de aproximadamente 25 milhões de dólares.

Em paralelo, a Vale anunciou iniciativas que visam reduzir custos e aumentar a produção em Moatize, que poderia alcançar um ritmo de 15 milhões de toneladas por ano no segundo semestre de 2021 e 18 milhões de toneladas por ano em 2022.´

ATIVOS DEFICITÁRIOS

A divisão de carvão da Vale registrou lucro ajustado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) negativo de 213 milhões de dólares no mais recente resultado trimestral.

Já a Mitsui registrou uma série de perdas por redução ao valor recuperável nos ativos de carvão em Moçambique, no total de 451 milhões de dólares, levando o valor contábil de sua fatia na mina de Moatize a zero. O corredor de transporte de Nacala ainda tem um valor contábil de cerca de 500 milhões de dólares, incluindo seus empréstimos.

A Vale já havia feito uma baixa contábil, em 2019, do valor total dos ativos de carvão.

A Mitsui disse que está revisando uma perda antecipada com a venda. Qualquer impacto financeiro relacionado aos projetos já foi considerado em sua previsão de ganhos de outubro para o ano financeiro atual até 31 de março, disse a empresa.

(Por Luciano Costa)