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Vacina contra o coronavírus, contaminada com a política no Brasil

Pascale TROUILLAUD
·4 minuto de leitura
A vacina contra a covid-19, desenvolvida pela farmacêutica chinesa SInovac Biotech, em 8 de agosto de 2020, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul

Vacina contra o coronavírus, contaminada com a política no Brasil

A vacina contra a covid-19, desenvolvida pela farmacêutica chinesa SInovac Biotech, em 8 de agosto de 2020, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul

Apesar de estar na vanguarda dos estudos clínicos para desenvolver uma vacina contra o novo coronavírus, o Brasil do presidente Jair Bolsonaro vive, paradoxalmente, uma confusão total a respeito da imunização de sua população, em meio a uma guerra ideológica. 

O país de 212 milhões de habitantes participa com milhares de voluntários de vários testes de fase 3 (a última) das vacinas mais promissoras do mundo. 

Mas a CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório privado chinês Sinovac, está na mira do presidente, que cancelou o acordo de aquisição de 46 milhões de doses anunciado pelo seu próprio ministro da Saúde, Eduardo Pazzuelo. 

Essa vacina será produzida no Brasil pelo Instituto Butantan, órgão público sob a supervisão do Estado de São Paulo, governado por João Doria, adversário político do presidente.

Por conta disso, "a vacina chinesa de João Dória", como Bolsonaro a denominou com desdém, tornou-se um novo motivo de confronto frente à eleição de 2022, na qual Dória (PSDB) poderia frustrar os planos de Bolsonaro de conseguir um segundo mandato.

Bolsonaro acrescentou, ainda, uma matriz ideológica para satisfazer seus apoiadores visceralmente anticomunistas, que se opõem a uma vacina "proveniente de uma ditadura".

A China está "desacreditada", porque "foi lá que o vírus nasceu" e "nenhum país do mundo está interessado" em sua vacina, disse Bolsonaro.

O coronavírus já cobrou a vida de mais de 157.000 brasileiros, o segundo maior número de mortos no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. 

 - "Beira o absurdo" - 

"É preciso ler a situação no contexto das eleições municipais (de novembro) e das presidenciais (de 2022)", explica Geraldo Monteiro, cientista político da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). 

"A vacina deve ser produzida pelo Instituto Butantan, que está sob a tutela do estado de São Paulo. Seria uma conquista política para Doria e Bolsonaro não pode permitir isso", disse ele. 

Enquanto o presidente minimiza a importância da pandemia, Doria se colocou na linha de frente de combate ao vírus, com aparições diárias perante a imprensa. 

"Bolsonaro politizou a pandemia desde o início", destaca Monteiro. 

Ele demitiu dois ministros da Saúde e insultou os governadores, chamando-os de "estrume" por defenderem o confinamento para conter o aumento dos casos. 

"Doria fez o seu trabalho e isso incomodou Bolsonaro, porque ninguém pode ofuscá-lo (...) Mas há coisas que não podemos politizar às custas da saúde da população. É totalmente irresponsável, beira o absurdo", afirma Monteiro.

Para o professor Anthony Pereira, diretor do Instituto Brasil do King's College de Londres, "a pergunta de fundo deveria ser: essa vacina funciona? Protegerá a saúde dos brasileiros?".

"Se (Bolsonaro) levasse a sério a proteção da saúde pública, não levaria a discussão da vacina para um plano ideológico e político", opina. 

Trata-se de um conflito "lamentável", já que o Brasil, um exemplo internacional em políticas de vacinação, possui "instituições de pesquisas de classe mundial, como a Fiocruz, do Rio do Janeiro, e o Butantan, de São Paulo", destaca.  

- "Dúvida entre a população" - 

Mais de 85% dos brasileiros estão dispostos a se vacinar, segundo a revista Nature. Mas "a atitude de Bolsonaro é muito problemática e levanta dúvidas entre a população", explica Lucio Renno, diretor do Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Brasília. 

Neste momento, é impossível prever qual das vacinas que chegaram à fase 3 será declarada efetiva e segura. 

O Brasil destinou 1,9 bilhão de reais (338 milhões de dólares) para adquirir 100 milhões de doses da vacina da Universidade de Oxford, desenvolvida pelo grupo farmacêutico AstraZeneca, em parceria com a Fiocruz. 

Diante da rejeição de Bolsonaro à "vacina chinesa", "os estados encontrarão uma forma de contornar o problema", estima Renno, mas "a falta de apoio do governo federal atrasará as coisas". 

Os 26 estados e o distrito federal poderiam formar um "consórcio" para adquirir a vacina, uma vez aprovada pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O Supremo Tribunal Federal (STF) também poderia revogar a decisão de Bolsonaro de cancelar a CoronaVac e impor a vacinação obrigatória.

Nesta segunda-feira, o presidente criticou a judicialização da vacina. "Entendo que isso não é uma questão de justiça e sim de saúde acima de tudo". 

"Opor-se (à vacina) por razões ideológicas pode ter sido o maior erro de Bolsonaro", conclui Renno.

pt/lg/plh/mel/jm/aa/mvv