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"Vírus, que vírus?": Índia retorna ao trabalho

Ammu KANNAMPILLY, con Satyajit SHAW en Calcuta
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Mercado lotado em Chennai (Índia) em 14 de outubro de 2020

"Vírus, que vírus?": Índia retorna ao trabalho

Mercado lotado em Chennai (Índia) em 14 de outubro de 2020

Das movimentadas fábricas de Maharashtra até os mercados de Calcutá, passando pelas rodovias congestionadas de Chennai, a Índia retornou ao trabalho apesar do coronavírus e espera esquecer a pandemia por algum tempo durante a próxima temporada de festas religiosas. 

A Índia, o segundo país mais populoso do mundo, com 1,3 bilhão de habitantes, registra mais de 7,5 milhões de contágios de covid-19, o segundo maior número de casos no planeta, atrás apenas dos Estados Unidos.

Mas depois do confinamento rígido entre março e junho, que deixou milhões de pessoas à beira da fome, tanto o governo como os cidadãos decidiram que a vida tem que continuar de qualquer maneira. 

Sonali Dange, que mora com o marido desempregado, duas filhas e a sogra idosa, contraiu o vírus e teve que ser hospitalizada com grandes dores. Quando as economias da família acabaram durante o confinamento, ela voltou a trabalhar em uma uma fábrica da região de Mumbai com o salário de 25.000 rupias (290 euros, 340 dólares) por mês. 

- "Eu não tenho medo" -

"Agora que estou curada, eu não tenho medo da doença", disse à AFP a mulher de 29 anos na fábrica Nobel Hygiene, que produz fraldas descartáveis em Sinnar, perto de Mumbai (Maharashtra, oeste). A direção da fábrica controla diariamente a temperatura dos funcionários. 

Até o momento a pandemia matou menos pessoas na Índia (quase 115.000) que nos Estados Unidos, país que registra quase o dobro de vítimas fatais para uma população quatro vezes menor. 

Mas as consequências econômicas do vírus são muito piores. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) da Índia deve cair 10,3% em 2020-2021, a queda mais expressiva entre os principais países emergentes e a pior desde sua independência em 1947. 

Em Varanasi, norte do país, Sanchit (nome modificado), que tem 12 anos, foi obrigado a abandonar a escola para recolher sáris das piras de cremação às margens do rio Ganges. "Nos bons dias, eu consigo 50 rupias (70 centavos de dólar)", disse à AFP. 

O confinamento decretado em março deixou, da noite para o dia, milhões de trabalhadores do setor informal sem nenhuma fonte de renda. 

"Ninguém quer voltar a passar por isso", afirma Gargi Mukherjee, uma mulher de 42 anos, enquanto faz compras no New Market de Calcutá, entre muitos clientes sem máscara.

A temporada de festivais hindus começa em 22 de outubro com o Durga Puja. Os eventos prosseguem com o Dussehra e depois o Diwali (14 de novembro). 

"As pessoas precisam sair e trabalhar para sobreviver", disse Gargi Mukherjee à AFP. "Se você não recebe nada, não consegue alimentar sua família". 

E as pessoas aguardam com impaciência os festivais. "Certamente devemos temer o corona. Mas o que posso fazer a respeito? Não posso perder o Durga Puja", explica Tiyas Bhattacharya Das, uma dona de casa de 25 anos.

"O Durga Puja acontece apenas uma vez por ano, não posso perder a alegria das compras", completa. Mas os especialistas alertam para o risco de focos do vírus, com os mercados lotados pelos descontos oferecidos. 

- Dilema -

As pessoas têm que escolher entre morrer de fome ou arriscar-se a contrair um vírus que pode ou não matar", declarou à AFP Sunil Kumar Sinha, economista principal da India Ratings and Research em Mumbai. Um dilema para muitos indianos. 

A taxa de mortalidade relativamente pequena na Índia surpreendeu os que temiam ver corpos empilhados nas ruas, devido às condições sanitárias ruins e ao sistema hospitalar deficiente. O governo não parece disposto a decretar outro confinamento. 

Mas o país não pode permitir que o descontrole da epidemia, alerta a professora Bhrahmar Mukherjee, epidemiologista da Universidade de Michigan (Estados Unidos). 

"Para poder reabrir, as medidas de saúde pública devem ser intensificadas. Em caso contrário, se retirarmos completamente o pé do freio, o vírus também vai acelerar". 

Ela considera que a Índia passou "diretamente do catastrofismo à negação". 

A Indian Medical Association – principal organização representativa dos médicos indianos - denunciou em setembro a "indiferença" do governo ante o sacrifício dos profissionais da saúde e afirmou que parece dizer que "podemos prescindir deles". 

Em Calcutá, o livreiro Prem Prakash, 67 anos, aborda a questão de maneira filosófica: "Algumas coisas deveriam ser deixadas ao destino. Ter muito medo da morte não é a solução".

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