Mercado fechado

Com T-MEC, América do Norte começa nova era de livre-comércio

Por Alina DIESTE
Vista geral da passarela para pedestres que leva ao escritório de Alfândega e Proteção Fronteiriça dos Estados Unidos em San Ysidro, em San Diego, Califórnia, em 21 de março de 2020

A América do Norte inicia nesta quarta-feira uma nova era de livre-comércio com a entrada em vigor do T-MEC (ou USMCA, nas siglas em espanhol e em inglês, respectivamente), o acordo que substitui o Nafta. Essa estreia acontece, porém, ofuscada por uma pandemia, com as fronteiras entre os três sócios parcialmente fechadas e as economias em recessão.

O Acordo México, Estados Unidos e Canadá (T-MEC) também está longe de eliminar todos os atritos entre os três países, cujas economias, que somam 27% do PIB mundial e une quase 500 milhões de consumidores, em uma região onde o fluxo comercial foi de 1,2 trilhão de dólares em 2019.

O sucessor do Nafta chega com as as fronteiras entre os três parceiros parcialmente fechadas para evitar o contágio do coronavírus. E com as previsões do FMI de fortes contrações econômicas este ano (-8% nos Estados Unidos, -10,5% no México e -8,4% no Canadá).

Os três países apostam na implementação do novo pacto para superar as dificuldades.

Os Estados Unidos, que forçaram a revisão do Nafta sob ameaças do presidente Donald Trump a se retirar se não houvesse mudanças, celebraram esse "novo e melhor capítulo" no relacionamento trilateral.

"Diante da pandemia de COVID-19 e dos desafios que ela representa para nossas economias, o T-MEC ajudará nossa região a se recuperar mais rápido e mais forte", disse o secretário de Estado Mike Pompeo, chamando o novo pacto de "conquista histórica" para "aumentar a fabricação e o investimento" na região.

Do México, o presidente Andrés Manuel López Obrador disse que o T-MEC "será muito útil" para tirar o país da crise, embora o FMI tenha dito na semana passada que os benefícios do pacto não compensarão nos próximos dois anos a contração do investimento e o choque da COVID-19.

Para comemorar o T-MEC, López Obrador, que nunca viajou para o exterior em 18 meses no cargo, planeja fazer uma visita oficial nos dias 8 e 9 de julho a Washington, onde se encontrará com Trump.

O primeiro-ministro canadense Justin Trudeau não confirmou sua participação em uma eventual reunião. Em um dia de feriado no Canadá, sua vice-primeira-ministra, Chrystia Freeland, aplaudiu a entrada em vigor do T-MEC após três anos e meio de negociações "que pareciam uma década ou mais".

"Em um tempo de tremenda incerteza na economia global, esse acordo é mais importante do que nunca", disse em um vídeo no Twitter.

- "Calmaria antes da tempestade" -

Promessa eleitoral de Trump, o T-MEC foi negociado pelos três sócios desde 2017. Trump estava decidido a acabar com o "nefasto" Nafta, o qual acusava de ter destruído milhares de empregos nos Estados Unidos - em particular, na indústria automotiva, com a realocação da produção para o México, onde a mão de obra é mais barata.

Após maratônicas negociações, o T-MEC foi assinado em 30 de novembro de 2018. O texto original acabou sofrendo emendas no Congresso americano, onde a oposição democrata incluiu cláusulas para evitar a concorrência desleal mexicana.

Trump, que busca a reeleição, sancionou a versão final em janeiro, apresentando-a como uma "vitória colossal" para os trabalhadores americanos.

"Este entusiasmo não é injustificado", avalia Duncan Wood, especialista em México do Wilson Center. "Mas pode ser apenas a calmaria antes da tempestade".

Com o agressivo histórico do governo Trump em matéria comercial, não será surpresa se surgirem controvérsias a serem resolvidas.

Em 17 de junho, em comunicação ao Congresso americano, por exemplo,o representante comercial dos Estados Unidos (USTR), Robert Lighthizer, já advertiu que está avaliando apresentar uma queixa ao México pela falta de aprovação de produtos biotecnológicos dos EUA e que vigiará de "muito perto" o protegido setor de laticínios do Canadá.

Não apenas isso. Segundo a imprensa americana, Trump considera voltar a impor tarifas ao alumínio canadense, como já fez em 2018, em meio às discussões sobre o que seria o novo Nafta. Esta semana, o premiê Trudeau considerou o tema "preocupante".

O USMCA modifica as regras de origem da indústria automotiva: 75% da produção deve ter insumos norte-americanos; entre 40% e 45% devem ser fabricados por operários que ganhem pelo menos 16 dólares por hora; e 70% do aço e do alumínio de um veículo deve ser dos EUA.

Além disso, inclui cláusulas sobre comércio eletrônico, proteções à propriedade intelectual e mecanismos de solução de controvérsias para os investidores, melhorando o Nafta.