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Uruguai mira exemplo de Israel e quer se tornar polo de inovação global

MONTEVIDÉU, URUGUAI (FOLHAPRESS) - Diante de um auditório cheio de empresários e investidores internacionais, o presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, encerrou sua apresentação sobre os motivos de o país ser atrativo para receber negócios estrangeiros contando uma anedota sobre um brasileiro.

Segundo ele, um homem paulista foi ao Uruguai em busca de oportunidades para investir e, enquanto participava de reuniões, sua mulher e filhos aproveitavam o tempo livre para passear. Na hora de escolher se retornava ou não ao Brasil, o homem estava indeciso sobre os negócios, mas optou por ficar no país ao ouvir a boa experiência que sua família teve. "No fim, tudo acaba sendo uma questão de sentimentos humanos."

O próprio Lacalle Pou admitiu não saber se a história era verdadeira, mas a anedota fazia parte de um argumento maior: o Uruguai é seguro, agradável e politicamente estável —características que tornariam o país um lugar fértil para empreendimentos globais.

A declaração do presidente foi feita durante o Test & Invest, evento organizado pelo governo uruguaio em parceria com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), realizado na primeira semana de novembro, e cujo objetivo foi projetar o Uruguai como um polo de inovação não só na América Latina, mas no mundo todo.

Regionalmente, o país já tem certo protagonismo em áreas como tecnologia logística, agrícola e cibersegurança, além de liderar a lista dos maiores exportadores de software per capita da América Latina —seguido por Argentina, Chile e Brasil.

A indústria tecnológica, porém, ainda responde por uma fração da economia. De acordo com os últimos dados disponíveis, de 2019, o setor gerou mais de US$ 1,9 bilhão (R$ 9,6 bilhões) em negócios, o que representa 3% do PIB (Produto Interno Bruto). Agronegócio, serviços e turismo seguem como as atividades de maior peso.

Embora mudar essa dinâmica econômica seja complexo, o Uruguai já vem conseguindo enfatizar setores ligados à inovação. Em 2012, por exemplo, a indústria tecnológica respondia por apenas 1,6% do PIB —o que representa um salto de 85% em sete anos.

O país quer atrair negócios e investidores usando como vitrine sua estabilidade política, seus bons indicadores sociais e as vantagens tributárias oferecidas a empreendedores.

A estratégia de colocar esses atrativos na vitrine internacional já vem dando frutos. Recentemente, a Microsoft anunciou que vai instalar no país seu primeiro laboratório de inteligência artificial e internet das coisas da América Latina, enquanto a Universidade Harvard comunicou que vai mudar de Buenos Aires para Montevidéu o seu Centro de Pesquisa Latinoamericano.

A aposta do governo é que empresas usem o Uruguai como plataforma para a expansão de seus serviços para o resto do mundo, aproveitando não só as vantagens tributárias, mas a infraestrutura do país —que se orgulha de ter sido o primeiro a lançar a rede 5G na América Latina e contar com uma matriz energética limpa.

O Uruguai se orienta pelo exemplo de Israel, que se tornou um dos polos tecnológicos mais famosos do mundo por meio de incentivos ao empreendedorismo, investimentos em pesquisa e iniciativas estatais para apoiar novos negócios e diminuir o risco de investidores internacionais.

Para se aproximar desse modelo, o governo tem lançado novos programas, como o Uruguai Innovation Hub, anunciado durante o Test & Invest. O projeto visa fortalecer o posicionamento do país como centro de inovação, por meio de instrumentos para atrair startups internacionais.

Além de incentivar a criação de laboratórios abertos, o programa prevê inaugurar um campus de inovação e estimular o ecossistema tecnológico local através de fundos de investimento público-privado. A ideia é que empreendedores possam acessar tecnologia de forma rápida e sem demandar tempo e capital próprios.

"Queremos que o país se torne um lugar para testar novos produtos, investir e desenvolver projetos", diz o Ministro da Indústria, Omar Paganini.

O Mercado Livre é uma das empresas que têm apostado no Uruguai. Fundada na Argentina, a gigante de comércio eletrônico tem hoje mais de 1.500 funcionários trabalhando no país, sendo uma boa parte deles desenvolvedores e programadores.

Foi no Uruguai que a companhia criou sua primeira equipe de tecnologia fora da Argentina, que presta serviços ao Brasil e à América Latina.

Em 2019, o próprio CEO e cofundador, Marcos Galperín, decidiu se mudar para o país, deixando claro que a estabilidade e qualidade de vida foram motivadores decisivos.

Karen Bruck, vice-presidente de marketplace do Mercado Livre, explica que o Uruguai já é exemplo de como um país com mercado tão pequeno pode servir a toda uma região. "As instituições são estáveis, as regras do jogo são claras, e o talento é altamente qualificado, porque as universidades são públicas, há muitas pessoas graduadas", diz.

MÃO DE OBRA É DESAFIO PARA O URUGUAI

Embora o nível de qualificação seja alto, o Uruguai enfrenta um gargalo de mão de obra. Dos 3,5 milhões de habitantes, cerca de 2 milhões estão em idade ativa para trabalhar.

Para se tornar um polo tecnológico global, o Uruguai precisa atrair profissionais qualificados, algo que já está no radar do governo.

Durante o Test & Invest, Lacalle Pou disse estar trabalhando em um marco legal que permita trazer talentos do exterior, sejam eles uruguaios que moram fora ou trabalhadores estrangeiros.

Mariana Ferreira, gerente de inteligência competitiva da Uruguai XXI, agência estatal de promoção de investimentos do país, diz que o governo já tem recebido profissionais de outros países.

"Também estamos trabalhando com outras instituições para desenvolver programas específicos para capacitar pessoas em tecnologia da informação, como engenheiros e programadores", afirma.

Segundo ela, a perspectiva é de que o setor continue crescendo nos próximos anos, a ponto de, quem sabe, chegar perto do modelo israelense.

"No nível ministerial, Israel é tomado como exemplo, vendo sobretudo quais políticas foram realizadas ou como funcionaram os programas e incentivos, para que possam ser replicados no Uruguai", explica.

O repórter viajou a convite da agência Uruguai XXI