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'Um gago pode ser o que quiser', diz humorista que usa comédia para combater o preconceito

Regiane Jesus
·6 minutos de leitura

RIO — Bora tijucar? O “verbo” em questão, com o perdão da língua portuguesa, significa chamar a Praça Saens Peña apenas de praça, marcar encontro na porta de uma famosa loja de roupas localizada na Rua Conde de Bonfim, terminar a noite na Varnhagen bebendo um chope ou reinando absoluto num motel da Rua Haddock Lobo, aquele conhecido por ter oferecido, com destaque para a palavra “imperdível”, um período de estadia por R$ 69. Tijucar é também levar as crianças para brincar na Praça dos Cavalinhos (Xavier de Brito), correr em volta do Maracanã e tomar banho de piscina no Tijuca Tênis Clube.

Caso você, leitor, tenha se identificado, é muito provável que já tenha assistido aos vídeos do humorista Gui Albuquerque, um tijucano da gema, nos quais ele faz uma divertida crônica sobre o que é ser um orgulhoso morador desse bairro da Zona Norte capaz de, segundo os fãs, causar inveja à Zona Sul carioca. Não à toa, o comediante, cujo apartamento fica na Rua Rêgo Lopes — vizinha ao famoso “Alzirão”, referência de aglomeração nos jogos do Brasil nas Copas do Mundo —, criou o bordão “Por que choras, Leblon?”.

Se Gui nunca imaginou abandonar a Tijuca, essa relação de amor virou mesmo “até que a morte os separe” desde que o bairro foi o responsável por uma guinada na sua carreira. Após postar o primeiro vídeo “Bora tijucar? Com o Guia dos Rolés”, no dia 29 de maio, a sua popularidade deu um salto nas redes sociais. Só para se ter uma noção, o ator, que tinha três mil seguidores no Instagram, em poucos dias contabilizava 90 mil visualizações das crônicas sobre o lugar. Alguém duvida que o artista, assim como o tijucano Tim Maia — imortalizado com uma estátua na Praça Afonso Pena —, também seja uma espécie de síndico cômico desse simpático bairro do Rio?

— O “Bora tijucar?” foi o primeiro gol de placa da minha carreira de humorista. Estava preso em casa devido ao distanciamento social e, de repente, tive a ideia de brincar de dar um rolé virtual pelo bairro, inserindo no vídeo imagens de arquivo e fazendo piada sobre o jeito tijucano de ser. Foi assim que nasceu o bordão “Por que choras, Leblon?”, o “Alô, Tijuca”, o “Já reinou absoluto no Palácio do Rei?” e por aí vai... O povo tijucano me abraçou de uma tal maneira que é a prova de que um gago pode ser o que quiser — diz o ator, que tem esse distúrbio na fala desde que se entende por gente.

Nos vídeos, Gui praticamente nem gagueja, graças a recursos de edição e ao texto estudado antes da gravação. Curiosamente, o humorista acreditava que o sucesso viria nas redes sociais fazendo graça em cima de sua dificuldade para se expressar rapidamente. O erro de previsão não poderia ter sido mais bem-vindo.

— Eu sou gago, mas isso não me define. Não viralizei com os vídeos em que faço piada com a minha gagueira. Foi a Tijuca que me deu maior visibilidade profissional. Como não amar esse bairro? A Tijuca não tem praia, mas tem o tijucano, ou seja, não precisa de mais nada — diz o artista, que está nas redes sociais com o perfil @oguialbuquerque.

Foi também no bairro onde vive, nasceu e foi criado que o humorista, de 31 anos, experimentou inúmeras vezes aquela sensação única de ser aplaudido calorosamente após cumprir a missão de, sozinho num pequeno palco, levar o público às gargalhadas. Gui se apresentava semanalmente no Donninha (que não reabriu após a flexibilização) até a chegada da pandemia de Covid-19.

— O teatro veio para ficar na minha vida depois que eu fiz um curso livre no Midrash Centro Cultural, que, ironicamente, fica no Leblon. Por que choras? (risos). Logo depois, estudei as técnicas de stand-up e comecei a fazer shows solo e também a abrir o espetáculo “Os homens querem casar e as mulheres querem sexo 2”. Nesse meio tempo, o Donninha me abriu as portas e eu fiquei em cartaz lá, semanalmente, por um ano, com o espetáculo “Eu gago e ando”. Devo grande parte do que sou à Tijuca — conta.

Mas nem toda a história do comediante está ligada ao bairro que mora no seu coração. De certa forma, foi no Engenho Novo, mais precisamente no Colégio Pedro II, que teve sua primeira plateia.

— Eu, mesmo sendo gago, fui presidente de grêmio estudantil. Dava o meu recado de sala em sala. Quando eu abria a porta, o povo já ria. Por incrível que pareça, essa zoação se transformava na minha força. Não era legal ser gago, mas eu sempre quis ser ouvido. Ser ouvido é tão importante para mim que eu escolhi isso como carreira — afirma.

Humor era usado como defesa contra o preconceito

Uma característica marcante da maioria dos gagos é a timidez. Mas Gui Albuquerque foge à regra.

— Gagos, normalmente, são retraídos, tímidos. Eu não! Sempre me comuniquei bem. Na escola, era o palhaço da turma, o animado, o doido, o que dançava... Antes de sonhar em ser artista, usava a comédia como defesa. O bullying era pesado no colégio, embora na minha época ainda nem se usasse esse nome. Confesso que eu também zoava todo mundo, mas era uma forma de me antecipar ao que certamente viria. Riam de mim, e eu sofria, claro. O meu raciocínio rápido, afiado, era a minha arma para brincar antes que brincassem comigo. Foi assim que o humor nasceu na minha vida — recorda.

O dom natural para a comédia não o levou ainda criança ou adolescente a desejar seguir a carreira artística. Para falar a verdade, nem passava pela cabeça de Gui se profissionalizar nessa área.

— Fui criado só pela minha mãe (a costureira Fátima Albuquerque) porque um dia o meu pai foi comprar cigarro e nunca mais voltou. Esse é um clássico para muitas famílias. Então, não tive como sonhar com uma carreira. Eu sempre soube que tinha que trabalhar. Aos 16 anos, já fazia recreação infantil em festa para poder ajudar em casa. Eu me formei em Relações Internacionais, fui funcionário do Metrô Rio, mas um dia falou mais alto a vontade de ser feliz profissionalmente — afirma.

A guinada se deu após perceber que um trabalho burocrático não combinava em nada com sua personalidade descolada. Mas decidir pela arte não só o tiraria da zona de conforto como testaria seus limites de superação; afinal, quase não se vê ator gago no mercado:

— Existem técnicas que me auxiliam para fazer personagens que não são gagos. Eu posso ter a proteção do treino da fala, da edição. Mas também posso fazer um médico gago. Por que não? Está faltando representatividade e eu quero ser um porta-voz para todos que, como eu, têm esse distúrbio. Na dramaturgia, de um modo geral, os personagens gagos são caricatos. Isso precisa mudar! — diz.

Para Gui, tudo bem também que a gagueira seja usada, com todo respeito, para fazer rir. Aliás, esse foi o seu passaporte para estrear num longa-metragem. O ator foi convidado para participar do filme “Os espetaculares”, disponível no Amazon Prime, depois de gaguejar ininterruptamente durante o teste:

— Soube que precisavam de atores com experiência em stand-up. Mandei o meu material, mas a produção não assistiu e, portanto, não sabia que eu era gago. Na hora, fiquei nervoso e engasguei direto. Rolou um constrangimento. Fui embora arrasado, zero expectativa. Quando me chamaram para fazer uma participação, do jeitinho que fiz o teste, eu fiquei muito alegre. Não tenho problema em ser gago ou em fazer o gago, mas o gago pode tudo. O céu é o limite!

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