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Uirapuru: conheça o radiotelescópio que é "irmão" do observatório BINGO

Enquanto o radiotelescópio Baryon Acoustic Oscillations from Integrated Neutral Gas Observations (ou apenas BINGO) segue em desenvolvimento para operar em Aguiar, no sertão da Paraíba, seu "irmão mais novo” já foi instalado em Campina Grande, no mesmo estado. Chamado Uirapuru, este é um radiotelescópio com apenas uma antena-corneta, que já está contribuindo para a formação de estudantes.

A instalação do Uirapuru faz parte de um período de testes, conduzido antes de o BINGO iniciar suas operações. “Ele é um radiotelescópio menor, mas já em funcionamento, e tem como objetivo, assim como o BINGO, observar as FRB, ainda pouco conhecidas e que estão entre os fenômenos mais energéticos do Universo”, explicou Amílcar Rabelo de Queiroz, professor do departamento de física da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e um dos coordenadores dos dois projetos.

Detalhe do radiotelescópio Uirapuru (Imagem: Divulgação)
Detalhe do radiotelescópio Uirapuru (Imagem: Divulgação)

Em questão de milissegundos, as rajadas rápidas de rádio (“FRBs”, na sigla em inglês) emitem toda a energia que o Sol leva três dias para liberar. Entretanto, ele observa que o Uirapuru dificilmente conseguirá observar alguma FRB sozinho. “Mas trabalhando em conjunto com o BINGO e outros auxiliares formando uma rede de interferometria é possível observar FRBs e, sobretudo, conseguir localizá-los” disse, em entrevista ao Canaltech.

A identificação da localização das FRBs é de grande interesse para os astrônomos, porque pode revelar a origem destes fenômenos misteriosos — mas, apesar da importância, os estudos delas ainda estão em uma etapa bem inicial. “A ideia da construção dessa rede tendo o BINGO como principal é uma dessas iniciativas e muito bem recebida pela comunidade internacional”, acrescentou o professor. Quando estiver em operação, o BINGO poderá estudar também estruturas desconhecidas das galáxias, pulsares distantes e mais.

O radiotelescópio Uirapuru

Queiroz explica que a equipe queria dar um nome bem brasileiro ao “irmão mais novo” do BINGO. “Daí veio a ideia de dar nomes tupi-guarani de pássaros típicos do Brasil”, disse. Após pesquisas em catálogos de pássaros e dicionários, veio a ideia. “Em um desses momentos, vimos que uma das alcunhas do Uirapuru em parte da região amazônica é pássaro-corneta, já que ele tem esse canto belíssimo e bem famoso”, relembrou.

O radiotelescópio Uirapuru leva nome inspirado em uma ave brasileira (Imagem: Divulgação)
O radiotelescópio Uirapuru leva nome inspirado em uma ave brasileira (Imagem: Divulgação)

Além da plumagem pardo-avermelhada, uma das características que mais chama a atenção nos pássaros uirapuru é seu canto único; eis que surgia, ali, o nome perfeito. Além de inspirar o nome do novo “irmão” do BINGO, o uso dos nomes de pássaros em tupi-guarani servirá também como uma "regra" para outros radiotelescópios, que futuramente vão servir como auxiliares do BINGO.

Por enquanto, o Uirapuru vem atuando em testes de componentes em desenvolvimento que serão integrados ao BINGO, como receptores, códigos de computadores, sensores de monitoramento, algoritmos e mais. “O mais importante, no entanto, é que o Uirapuru tem sido usado para a formação e educação dos estudantes”, destacou Queiroz, ao Canaltech.

Representação do radiotelescópio BINGO (Imagem: Divulgação)
Representação do radiotelescópio BINGO (Imagem: Divulgação)

Com o Uirapuru, os graduandos de Campina Grande vêm aprendendo a manusear radiotelescópios e estudam sobre outras áreas, como o processamento de sinais e análise de dados. “Cientificamente, um desafio é conseguir detectar e monitorar algum pulsar que seja mais intenso”, afirmou ele. “Há algumas semelhanças no processo de detecção de pulsares e de FRBs, então, será um aprendizado para os estudantes que vai ter muita serventia na detecção de FRBs”.

O novo radiotelescópio Uirapuru poderá contribuir também para a formação de novos especialistas no estado. “[Os radiotelescópios], em sua própria construção e nesses testes, já têm contribuído para a formação de novos profissionais, uma mão de obra altamente qualificada que beneficiará tanto a ciência nacional quanto o mercado de tecnologias”, finalizou. No futuro, a equipe do projeto planeja construir ainda mais radiotelescópios no país, ampliando e levando o conhecimento proporcionado por eles a outras regiões.

Fonte: Canaltech

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