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UE e Rússia criticam sanções dos Estados Unidos contra gasoduto

Por par Isabelle LE PAGE et Thibaut MARCHAND à Moscou
Navio de oleoduto da empresa suíça Allseas, em 15 de novembro de 2019 na costa da ilha de Ruegen, no mar Báltico

A União Europeia (UE), com a Alemanha à frente, e a Rússia criticaram neste sábado as sanções americanas contra o gasoduto Nord Stream 2, projeto de Moscou e do bloco europeu que está no centro de uma batalha econômica e geopolítica entre Washington e Bruxelas.

As sanções, assinadas na sexta-feira pelo presidente americano Donald Trump, "afetam as empresas alemãs e europeias e constituem uma interferência em nossos assuntos internos", reagiu Ulrike Demmer, porta-voz da chanceler alemã Angela Merkel.

"O governo rejeita as sanções extraterritoriais", insistiu Demmer em um comunicado. A Alemanha é a principal beneficiária do projeto.

Uma fonte da UE expressou a oposição de Bruxelas "por princípio" à imposição de sanções contra empresas europeias que executam atividades legais".

E a primeira consequência das medidas foi anunciada: a empresa suíça Allseas, que possui o maior navio do mundo para a instalação de dutos e foi contratada pelo grupo russo Gazprom para construir a unidade extraterritorial do gasoduto, anunciou em um comunicado a suspensão dos trabalhos.

A empresa afirma que aguarda "esclarecimentos regulatórios, técnicos e ambientais por parte das autoridades americanas competentes".

O anúncio coloca em dúvida o futuro do investimento gigantesco de quase 11 bilhões de dólares, praticamente concluído e que tinha a entrada em operação programada para o fim de 2019 ou, mais provavelmente, inícios de 2020.

A Nord Stream 2 confirmou a suspensão dos trabalhos da Allseas. "Com todas as empresas que apoiam o projeto, trabalharemos para terminar o gasoduto o mais rápido possível", afirmou o porta-voz da empresa em um comunicado.

As sanções incluem o congelamento de ativos e a revogação de vistos dos Estados Unidos para os empresários ligados ao gasoduto. O Departamento de Estado agora deve comunicar os nomes das empresas e das pessoas envolvidas no prazo de 60 dias.

Moscou também criticou as sanções e denunciou "a ideologia americana que não suporta a concorrência mundial".

"Um Estado com uma dívida pública de 22 trilhões de dólares proíbe países solventes de desenvolver sua economia real", declarou Maria Zakharova, porta-voz do governo russo.

"Em breve (Washington) pedirá que deixemos de respirar", completou.

Com mais de 80% construído, o gasoduto submarino tem por objetivo dobrar o fornecimento de gás natural russo para Europa, por meio da principal economia da Europa, a Alemanha.

Mas para o governo dos Estados Unidos e alguns países da Europa - Ucrânia, Polônia e os Estados bálticos - o gasoduto aumentará a dependência dos europeus do gás russo, o que Moscou poderia utilizar para exercer pressões políticas.

O primeiro-ministro ucraniano, Oleksii Goncharuk, elogiou no Twitter "a assinatura por parte de Donald Trump das sanções contra Nord Stream".

Washington também justifica as sanções por sua vontade de apoiar Kiev, em conflito com a Rússia desde a anexação da Crimeia em 2014 e da guerra no leste da Ucrânia.

Mas após o protocolo de acordo assinado na sexta-feira entre Moscou e Kiev para regulamentar o trânsito de gás russo na Ucrânia a partir de 2020, as sanções parecem "particularmente incompreensíveis", declarou Demmer.

O gasoduto representa um investimento de quase 11 bilhões de dólares. Metade do projeto é financiado pela Gazprom e os demais 50% por cinco empresas europeias (OMV, Wintershall Dea, Engie, Uniper e Shell).

Desde o início, vários obstáculos afetaram o projeto.

Nord Stream 2 só recebeu autorização da Dinamarca no fim de outubro para cruzar suas águas, o que provavelmente atrasará a entrada em serviço.

As novas regras da UE sobre o transporte de gás, que exigem particularmente a "dissociação" das atividades de produção e distribuição, também afetam o projeto.