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Twitter retira do ar video com tributo de Donald Trump a George Floyd

Rui Maciel

E, ao que parece, o Twitter não vai mesmo se deixar levar pela pressão exercida por Donald Trump. Após a rede social rotular alguns de seus tuítes como fake news e, na sequência, ser ameaçada com o endurecimento de uma lei federal, a fiscalização sobre as postagens do mandatário norte-americano não amoleceu. Agora, foi a vez de um vídeo do presidente dos EUA em tributo à George Floyd ser desativado em sua conta na plataforma.

O motivo para que a publicação fosse retirada foi uma queixa de que ela infringe direitos autorais. O clipe traz um agrupamento de fotos e vídeos de marchas de protesto e casos de violência após a morte de Floyd, com a voz de Trump falando ao fundo.

Em declaração à agência de notícias Reuters, um porta-voz do Twitter afirmou: "Nós respondemos a reclamações de propriedade intelectual válidas, enviadas a nós por um proprietário de direitos autorais ou por seus representantes autorizados".

Ken Farnaso, vice-secretário de imprensa da campanha de Trump, disse que era "surpreendentemente triste" que o Twitter se juntasse à grande mídia na censura da mensagem do presidente.

O vídeo, cuja duração é de três minutos e 45 segundos, foi tuitado pela equipe do atual presidente dos EUA no dia 3 de junho. Ele também foi publicado no canal de Trump no YouTube (veja abaixo) e na página de sua campanha no Facebook. O clipe tem mais de 1,4 milhão de visualizações na plataforma de streaming do Google e na rede social de Mark Zuckerberg, combinados.

O Facebook afirma que não recebeu nenhuma reclamação de direitos autorais relacionada ao clipe. Já o o Google, não respondeu a um pedido de comentário da Reuters até a publicação desta notícia.

No passado, o Twitter retirou pelo menos dois dos vídeos de Trump que tinham músicas da trilha sonora do filme do "Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge", além da canção "Photograph", da banda canadense Nickelback.

Trump vs. redes sociais

Os atritos entre Donald Trump e as redes sociais nos EUA não são novos, mas ganharam novos tons de tensão nas últimas semanas. No final de maio, o Twitter rotulou pela primeira vez duas publicações do presidente dos Estados Unidos, como “potencialmente enganosas”. Os tuítes ganham um indicador desse tipo quando a plataforma os reconhece como uma notícia checada que pode conter informações incorretas.

O fato, claro, enfureceu o mandatário norte-americano, que acusou plataformas digitais de "calarem as vozes conservadoras". Como contra-ataque, ele assinou uma ordem executiva que exige que a Comissão Federal de Comunicações (FCC) revise o significado da Seção 230, presente na chamada Lei de Decência das Comunicações, de forma que deixaria as redes sociais muito mais vulneráveis a processos judiciais - e, claro, proporcionaria um belíssimo aumento nos gastos dessas empresas. Isso porque essas companhias passariam a ser mais responsabilizadas pelo material publicado pelos seus usuários.

Em outras palavras, Donald Trump quer retirar a proteção da Seção 230 de todas as plataformas que ele considera anti-conservadoras, responsabilizando-as por aquilo que seus usuários publicam. Considerando que todas as decisões da FCC são submetidas à votação - cuja comissão é de maioria republicana - dificilmente uma plataforma alinhada à visão política do presidente sofreria os mesmos efeitos de Facebook, Twitter e cia.

A parte boa de todo esse absurdo é que a ordem executiva de Trump serve mais para pressionar as empresas de mídia social, do que ter um efeito legal prático. Isso porque a FCC não tem autoridade jurídica para fazer cumprir a Seção 230 e também pode se negar a elaborar as regras do mandatário norte-americano, por ser uma agência independente. Além disso, a Eletronic Frontier Foundation (EFF), uma entidade que defende os direitos na internet, afirmou em seu site que, além do decreto ser um ataque à liberdade de expressão online, "o pedido final de Trump não sobreviverá a um escrutínio judicial".

Ao contrário do Twitter, Zuckerberg quer evitar atritos entre Trump e o Facebook

O fato é uma interpretação da FCC sobre a Seção 230 também não teria um efeito legal, já que o Congresso dos EUA nunca concedeu à entidade nenhuma autoridade. Com isso a lista de práticas que a agência criar poderia ser solenemente ignorada pelas plataformas.

Ainda assim, a fiscalização do Twitter sobre Trump não vem encontrando ressonância no Facebook. Isso porque o CEO e co-fundador da plataforma, Mark Zuckerberg, afirmou na última terça-feira que não fará nada em relação aos posts inflamatórios do presidente em relação aos conflitos raciais que tomam conta dos EUA, depois da morte de George Floyd, assassinado por um policial na cidade de Minneapolis.

Isso acabou gerando um conflito entre o executivo e seus funcionários, que acusaram o Facebook de se dobrar ao presidente dos EUA. O fato gerou até mesmo pedidos de demissão de alguns colaboradores. A história completa do caso, você pode conferir neste link.

Antes mesmo deste episódio, o posicionamento do Facebook foi de distanciamento da polêmica ainda que, mais cedo ou mais tarde, a ira de Trump possa chegar também por lá. Escaldado pelo escândalo da Cambridge Analytica, que ainda faz uma perigosa sombra junto à empresa, a companhia comandada por Mark Zuckerberg preferiu não se indispor com Trump: “Acho que temos uma política diferente da do Twitter sobre isso”, disse Zuckerberg em entrevista ao canal Fox News, também no final de maio.

Ainda em outra declaração à imprensa, dessa vez à CNBC, o cofundador do Facebook afirmou: “Eu não acho que o Facebook ou as plataformas da internet, em geral, devam ser árbitros da verdade. Eu acho que é uma linha perigosa a seguir, em termos de decidir o que é verdade e o que não é”.

Fonte: Canaltech