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Turbulência coloca em risco 25 ofertas de ações no Brasil

Cristiane Lucchesi, Felipe Marques e Rachel Gamarski

(Bloomberg) -- Cerca de 25 ofertas de ações de empresas brasileiras previstas para o primeiro semestre do ano correm o risco de serem adiadas, já que a crise do coronavírus aumenta a volatilidade dos mercados e impõe restrições às viagens.

Dois dos maiores negócios na lista - a venda de participação da Petrobras na BR Distribuidora e o IPO da Caixa Seguridade - provavelmente serão adiados, disseram pessoas familiarizadas com as transações, pedindo para não serem identificadas porque as discussões não são públicas. A venda de fatia da JBS pelo BNDES também poderá ser postergada, disse uma das pessoas.

Essas ofertas fazem parte de um esforço do governo para vender ativos e reduzir o tamanho do Estado. Petrobras, BNDES e Caixa não responderam a pedidos de comentário.

As empresas brasileiras se preparavam para o que poderia ser o melhor ano da história em ofertas de ações, já que os juros baixos estimulam a migração de investidores para o mercado de ações. Nas últimas semanas, cerca de 21 empresas entraram com pedidos de IPOs, o maior número em pelo menos uma década, segundo dados compilados pela Bloomberg. Agora, são exatamente esses negócios que correm maior risco de serem postergados: as empresas menos conhecidas precisam encontrar mais investidores, o que está se tornando cada vez mais difícil em um mundo atormentado por restrições de viagens devido ao vírus.

“Os mercados de capitais devem permanecer quietos até que os preços se estabilizem”, disse Malcolm Dorson, que ajuda a administrar cerca de US$ 700 milhões em fundos de mercados emergentes na Mirae Asset Global Investments, em Nova York. “Não apenas o surto de coronavírus levou a algumas restrições de viagem, mas muitas empresas começaram a obrigar seus funcionários a trabalhar remotamente. Isso cria desafios para uma equipe gestora que tenta se conectar com os investidores”.

Os mercados foram impactados por preocupações com o impacto econômico da epidemia de coronavírus e a queda quase sem precedentes nos mercados de petróleo. Mas, mesmo em meio ao clima já amargo no exterior, a queda dos ativos brasileiros se destaca. O Ibovespa apagou 14 meses de ganhos desde o final de janeiro, movimento ampliado por uma queda de 12% na segunda-feira no pior dia desde 1998. A moeda é uma das que apresenta pior desempenho no mundo este ano, já que os investidores apostam que o Banco Central cortará os juros para impulsionar a recuperação ainda lenta, diminuindo o apelo de carry trade.

A relação de IPOs inclui construtoras, varejistas de moda e empresas do mercado de animais de estimação, um banco médio e até um processador de carne bovina de propriedade de uma parte diferente da família que controla a JBS. As empresas têm cerca de duas semanas para apresentar documentos adicionais se estiverem dispostas a realizar as transações até o meio do ano, disse uma das pessoas. A maioria tenta realizar as ofertas antes das eleições nos EUA na segunda metade do ano.

Até agora, apenas uma empresa definiu data para enfrentar os mercados: a Vamos, de aluguel de caminhões, pretende arrecadar até R$ 1,53 bilhão em oferta pública inicial prevista para o dia 25 de março. O Banco BTG Pactual lidera a transação, que já havia sido cancelada em 2019 devido às condições do mercado.

O total de ofertas de ações de empresas do país atingiu R$ 34,4 bilhões no ano até agora, 471% a mais do que no mesmo período do ano passado, graças a enorme venda das ações do BNDES na Petrobras em negócio de R$ 22 bilhões em fevereiro, segundo dados compilados pela Bloomberg. Os bancos Santander Brasil e Bank of America previam recorde de ofertas de ações no Brasil em 2020, com o presidente do Credit Suisse no Brasil, José Olympio Pereira, dizendo que as ofertas poderiam chegar a R$ 200 bilhões.

--Com a colaboração de Vinícius Andrade, Martha Beck, André Romani e Igor Sodre.

Para entrar em contato com os repórteres: Cristiane Lucchesi em São Paulo, clucchesi5@bloomberg.net;Felipe Marques em São Paulo, fmarques10@bloomberg.net;Rachel Gamarski em São Paulo, rgamarski@bloomberg.net

Para entrar em contato com os editores responsáveis: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net, Patricia Xavier

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