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Trump usa coronavírus para defender suas teorias médicas favoritas

Por Sebastian Smith
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O governo americano defende o uso de máscaras para prevenir a infecção pelo novo coronavírus, mas o presidente Donald Trump se nega a usá-las

O presidente americano, Donald Trump, não é médico, mas está convencido das suas habilidades científicas. A pandemia do novo coronavírus lhe proporcionou a oportunidade perfeita para divulgar suas teorias.

O líder republicano anunciou na segunda-feira, para surpresa geral, estar tomando hidroxicloroquina há uma semana e meia como medida preventiva para a COVID-19.

Embora Trump afirme ter "ouvido muitas boas histórias" sobre esse remédio contra a malária, seu uso no tratamento da infecção pelo novo coronavírus não foi validado oficialmente e os órgãos reguladores dos EUA alertam que pode ser muito perigoso.

De fato, o anúncio do presidente não foi tão surpreendente. O bilionário geralmente faz suas próprias escolhas em questões científicas, mesmo diante de uma pandemia.

Em abril, durante uma coletiva de imprensa com autoridades de saúde, Trump perguntou se os pacientes com coronavírus não poderiam receber injeções com desinfetantes industrializados.

Diante do tumulto causado por suas declarações, Trump disse no dia seguinte que havia sido sarcástico, mesmo que não houvesse esse tom em sua voz.

A idiossincrasia do presidente em relação à pandemia ficou ainda mais clara com outra questão: o uso de máscaras.

Muito tempo após os consultores médicos do governo terem recomendado o uso de máscaras como forma de impedir a propagação do vírus, uma medida já aplicada na maioria dos países, Trump e sua equipe apareceram sem máscaras.

Este mês, depois que funcionários da Casa Branca que convivem com Trump contraíram o coronavírus, todos receberam ordens para usar máscaras, exceto o presidente.

Trump até mesmo se recusou a usar uma máscara durante visita a uma fábrica de máscaras no Arizona.

- Um gênio -

As opiniões de Trump sobre assuntos científicos abrangem um amplo espectro.

Ele despreza as energias renováveis e diz que as turbinas eólicas causam câncer.

Durante um eclipse solar em 2017, ele ignorou o conselho dos médicos e olhou diretamente para o sol, sem óculos de proteção.

Ele também não acredita que o aquecimento global seja o resultado de atividades humanas, apesar da posição quase unânime dos cientistas sobre o assunto, e retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o clima.

O inquilino da Casa Branca também despreza a atividade física e garante que seus amigos mais velhos que praticam esportes tiveram que operar os joelhos e os quadris.

As opiniões do presidente fazem com que ele seja ridicularizado por parte da sociedade, mas seus seguidores geralmente concordam com suas teorias.

Trump atribui sua sabedoria científica a "bons genes", especificamente aqueles que ele herdou de um tio que ele define como "supergênio": John Trump, que lecionou no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

"Eu amo essas coisas. Realmente as entendo", disse o presidente em março, durante uma visita aos laboratórios dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

"Todos esses médicos disseram: 'Como você sabe tanto sobre isso?'", gabou-se. "Talvez eu tenha uma habilidade natural. Talvez eu devesse me dedicar a isso em vez de concorrer à Presidência".

- Um dia com médicos -

Há um aspecto em que ninguém duvida da capacidade de Trump: seu êxito para obter os relatórios de que precisa depois de passar por exames médicos.

Essa capacidade remonta a 1968. Trump, então um jovem de aparência atlética, foi diagnosticado com esporões calcâneos, o que o livrou de ser convocado para a Guerra do Vietnã.

O presidente garantiu que não se lembrava de qual médico o examinou nessa ocasião. Em uma matéria publicada pelo New York Times em 2018, a família de um podólogo que alugou propriedades do pai do futuro presidente afirmou que o diagnóstico foi feito como "um favor".

Com exceção do golfe, Trump, de 73 anos, não pratica esportes e gosta de 'fast food'. Tem problemas cardíacos e, de acordo com os parâmetros do CDC, é obeso.

Mas os relatórios oficiais sobre seu estado de saúde desde a campanha presidencial de 2016 são muito positivos.

"Caso seja eleito, Trump, posso dizer sem dúvida, será a pessoa mais saudável já eleita como presidente", escreveu seu então médico pessoal, Harold Bornstein, em 2015.

O médico posteriormente se retratou, e, em 2018, disse que o presidente "ditou toda essa carta".

Na época, Trump já estava na Casa Branca, e excelentes relatórios médicos continuavam chegando.

"Isso se chama genética. Não sei. Algumas pessoas têm bons genes", disse em 2018 Ronny Jackson, que era médico na Casa Branca na época.

"Eu disse ao presidente que se ele tivesse uma dieta mais saudável nos últimos 20 anos, ele poderia viver 200 anos", acrescentou.