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Transformação digital: a era da resiliência

Percival Jatobá
·4 minuto de leitura

Se perguntarmos para dez pessoas qual a definição de transformação digital, provavelmente teremos dez conceitos ou opiniões distintas. Todos corretos, a partir de perspectivas próprias, vistos de ângulos e interpretações particulares ou corporativas.

Eu escolho falar sobre resiliência. Vem do latim Resilire, e essa palavra está associada à sobrevivência, capacidade de lidar com os problemas, superar momentos difíceis e não ceder à pressão independentemente das circunstâncias. Tem uma definição mais apropriada para a época em que vivemos e para os desafios associados à transformação digital?

Eu desconheço. Inclusive, mais do que nunca, precisamos lembrar que a habilidade de se adaptar e de criar novas realidades está entre as melhores estratégias do ser humano para sobreviver. Se a humanidade chegou até aqui, é também porque conseguiu se ajustar às intempéries do caminho ou desenhar novos caminhos para si. Toda inovação começou com uma invenção, muitas delas fruto da necessidade de sobreviver.

A era da resiliência chega para acompanhar a transformação digital que já vivenciávamos, reforçando a nossa capacidade de adaptação e de inovação. Foi assim que aprendemos com as últimas três revoluções industriais, sendo a terceira responsável pela introdução dos primeiros conceitos digitais na década de 50.

Agora, com a chamada Revolução 4.0, exponencializamos tecnologias para automação e troca de dados baseados em princípios, conceitos e decisões descentralizadas, como Internet das Coisas, Big Data Analytic/Algoritmos, Inteligência Artificial, Computação em Nuvem entre outras. Estas novas tecnologias ou conceitos podem gerar aos negócios, governos e sociedade inúmeras oportunidades, aumentando a produtividade de processos e criando novos empregos, mas sem a execução adequada podem desperdiçar grandes investimentos e se tornarem distrações, com poucos resultados práticos.

Eu costumo dizer que a época dos produtos ficou para trás. Vivemos hoje a época das soluções que demandam novos ciclos de pensamentos, atitudes e execução — não adianta olhar para a “prateleira” e oferecer ao cliente o que ele não está mais interessado em consumir. Será praticamente impossível conseguirmos nos transformar em digitais se não estivermos abertos a experimentar novos padrões e novas escalas de conhecimento, prototipagem e testagem. Isso leva tempo e, acima de tudo, resiliência — veja que voltando às revoluções industriais, o tema digital foi introduzido de forma mais massiva no final da década de 50. E ainda achamos muitas vezes que o ciclo de adoção tecnológica é demorado? Na verdade, o que o deveria preocupar não é tanto o ciclo tecnológico, mas o ciclo humano de adoção frente a tecnologia que está desenvolvendo.

A maior demonstração de resiliência não é necessariamente socializar por meio de campanhas, o que pensamos ser o estado da arte da tecnologia, mas, na verdade, simplesmente apresentar de forma clara os benefícios de se utilizá-la. Lembro-me muito bem durante a migração da tarja para chip EMV — projeto que ao todo deve ter levado entre 5-7 anos —, muitos executivos e formadores de opinião da época, em diversas ocasiões, levantaram a bandeira da dúvida, se deveríamos continuar investindo no projeto, trazendo a célebre frase: “o chip é uma solução em busca de um problema”. Haja resiliência, pois se tivéssemos tomado outra decisão naquela época, provavelmente estaríamos atrasados no roadmap digital ou o custo de execução seria muito maior.

Países que trabalham em prol da inclusão digital tendem a se destacar em várias áreas do conhecimento humano, gerando o que conhecemos como sociedade digital. O perigo ao não oferecermos essa alternativa de forma democrática e segura é a exclusão digital, que fará com que as pessoas fiquem fora dos principais fluxos de informação e segurança, sendo alvos fáceis de manipulação. Acredito que a indústria de pagamentos no Brasil vem contribuindo ao longo dos anos de forma decisiva para criar uma sociedade financeira digital segura, inclusiva e democrática.

Cito aqui alguns exemplos que confirmam isso:

  • Cada vez mais o segmento de pagamentos busca novidades por meio de tecnologias, como blockchain e a Internet das Coisas. 

  • O novo digital mostra que a linha que separa o físico e o digital foi cruzada. Consumidores e comerciantes estão usando e exigindo novas alternativas de pagamento. Números mostram o crescimento exponencial de pagamentos NFC, assim como com o QR Code.

  • Novas plataformas de movimentação de fundos, tanto locais quanto transfronteiriças, foram lançadas recentemente para melhorar a experiência de pessoas e empresas. 

  • A proposta de open innovation traz um processo de geração de novas ideias e metodologias ágeis fundamentais para nortear a revolução do processo criativo.

Aconteceram problemas que tentaram nos distrair do propósito e da execução? Diversos. Fomos pressionados para atender oportunidades incipientes de negócio? Sim. Perdemos tempo e dinheiro buscando produtos “infáliveis”? Algumas vezes. Tivemos medo de errar? Várias vezes. Mas desistimos ou retrocedemos? Jamais.

Enfim, se você ainda não consegue ver a tal da resiliência em nossa indústria, encerro, novamente, com a seguinte reflexão: no universo dos pagamentos, estamos fazendo as coisas de forma melhor ou de forma diferente?

Fonte: Canaltech

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