Mercado abrirá em 9 h 35 min

Tradicional manifestação da cultura negra sofre discriminação em igrejas de Minas Gerais

Alma Preta
·3 minuto de leitura
Foto: André Frade Andrade/Divulgação
Congada Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia desde 2019 não pode mais entrar nas igrejas do centro histórico de Tiradentes; motivo é o nome em homenagem a ex-escravizada, figura de devoção para católicos. Foto: André Frade Andrade/Divulgação

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

Em Tiradentes, uma das cidades históricas de Minas Gerais, a Associação de Congada Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia, idealizada pelo mestre Prego, em 2012, fazia ao menos uma apresentação mensal na Igreja Nossa Senhora do Rosário Desde 2019, quando houve a troca de padre, a congada não pode mais entrar em nenhuma das seis igrejas do centro histórico da cidade.

Mestre Prego é bisneto de pessoas escravizadas e chegou em Tiradentes no ano de 2008 para ensinar capoeira. Anos depois teve a ideia de começar a congada para resgatar a ancestralidade negra e o sincretismo religioso com a crença católica.

A proibição da congada dentro das igrejas, como acontecia entre 2012 e 2019, segundo fontes que pediram anonimato na reportagem, é por conta do nome e da imagem de Anastácia.

“É uma implicância com o nome. Se fosse o nome de dois santos, segundo algumas pessoas que são mais chegadas ao padre, a congada não seria proibida. Mas eu não vou mudar o nome”, diz Mestre Prego.

A congada mescla cultos africanos e católicos em uma dança que representa a coroação do Rei do Congo e o lamento dos povos escravizados na diáspora africana. O cortejo é acompanhado por estandartes e o ritmo dos cantos é marcado pela zabumba e bumbos.

As solicitações já feitas por escrito para que os cortejo volte e entrar nas igrejas do centro histórico não foram respondidas. “Até hoje não teve resposta. As nossas autoridades do outro lado disseram pra deixar para lá e continuar fazendo a congada como ela é”, relata o Mestre.

As maiores festas da Congada de Tiradentes acontecem no mês de outubro em homenagem à Nossa Senhora do Rosário. “A gente faz o nosso cortejo de 15 em 15 dias, tocando na rua. Tem muitos irmãos nossos desencarnados que se encontram presos nesse lugar”, explica.

Congada Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia desde 2019 não pode mais entrar nas igrejas do centro histórico de Tiradentes; motivo é o nome em homenagem a ex-escravizada, figura de devoção para católicos. Foto: André Frade Andrade/Divulgação
Foto: André Frade Andrade/Divulgação

De acordo com o Mestre Prego, a cidade de Tiradentes tem um grande cemitério de pessoas que foram escravizadas e morreram com sofrimento. A congada é uma forma de conforto para essas almas. Além disso, foram os negros que construíram a igreja da Nossa Senhora do Rosário e garimparam o ouro e as pedras preciosas que trouxeram fama e riquezas para a região das cidades históricas.

A agência Alma Preta entrou em contato com a diocese de São João Del Rei, responsável pelas igrejas da região, e com a arquidiocese de Belo Horizonte para perguntar o motivo de a manifestação cultural da congada ter sido proibida de entrar nas igrejas de Tiradentes. Até a publicação deste texto, os representantes da igreja em Minas Gerais não responderam.

A história de devoção popular católica à figura da Anastácia começa no século 17, na cidade do Rio de Janeiro, então sede da monarquia. Há relatos que os restos mortais dela foram enterrados na Igreja Nossa Senhora do Rosário, no centro da cidade, uma das mais antigas do país. No local, ficava o Museu do Negro e centenas de pessoas iam fazer orações e pedir milagres para a imagem de Anastácia.