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Traços inacabados das telas de Daniel Lannes lembram sonhos interrompidos

CLARA BALBI
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O artista Daniel Lannes chega afobado à galeria Kogan Amaro, em São Paulo, onde exibe uma mostra, "Pernoite". A repórter questiona se, antes de começar a entrevista, ele gostaria de falar sobre as pinturas reunidas ali. Lannes responde que sempre prefere responder às questões dos outros. É desse jeito, um pouco rebelde, avesso a explicações, que Lannes encara a sua obra. "A pior coisa que tem na pintura é ilustrar um conceito, ser um chargista de Deleuze. A pergunta de 'por que você quis fazer isso?' é a maior cilada em que um artista pode cair", diz o artista de 39 anos. Os 11 quadros que ele exibe agora foram pintados durante a pandemia. Lannes, que até fevereiro morava no Rio de Janeiro, conta que tinha acabado de se mudar para um ateliê no centro de São Paulo quando o coronavírus fechou a cidade. "Não deu nem para ficar procurando apartamento. Então fiquei lá." Lannes aproveitou o confinamento para testar um processo criativo diferente. Em vez de basear suas pinturas em fotografias, como fazia até então, passou a rabiscar livremente com carvão. Um conjunto de desenhos com a técnica, alguns transformados em pintura, pode ser visto na exposição agora. Viver no mesmo lugar em que trabalhava não tornou o artista mais produtivo, no entanto. "Morar no ateliê para mim é um convite à procrastinação. Tenho essa tendência de ficar ensaiando mentalmente as coisas. Mas quando começo, começo." Ele aponta para duas telas próximas. Uma, diz, tinha levado uma noite para ficar pronta. Outra, duas. Essa rapidez está impressa em boa parte das pinturas penduradas nas paredes. Nas suas formas – braços, pernas, rostos se desmancham em borrões, pincéis largos arranham a tela. Mas também nas cenas que retratam, que não raro lembram sonhos interrompidos. "Se quero contar uma história pintando, tem que ser um tapa na cara. Se eu ficar ali punhetando aquele cenário, já enjoei", diz Lannes. São cenas que muitas vezes beiram o tedioso, não fossem seus protagonistas. Afinal, é ninguém menos que a Cinderela da Disney que aparece ao lado de uma porta decorada de arabescos, segurando a saia com as luvas brancas. Ou um rei que, coroa na cabeça, tira um cochilo esparramado na cadeira. Ou ainda uma espécie de herói clássico, musculoso, que repousa na relva, os espíritos sobrevoando o seu corpo. Lannes afirma que são exemplos de figuras imediatamente reconhecíveis que sempre povoam seus quadros. "Comecei minha carreira pintando o Bozo. Não deixa de ser um mito. Ele é uma franquia, mas é um arquétipo, o do palhaço. E aí me perguntam por que pintei o Bozo. Porque ele é pictórico." É uma "resposta cretina", ele mesmo emenda em seguida. Mas que talvez faça sentido para um artista que parece obcecado por imagens. "Sou publicitário de formação. E no final é tudo quase a mesma coisa", diz, argumentando que, até o século 19, toda arte tinha função de propaganda, difundindo as mensagens do clero ou da monarquia. É só a partir da invenção da fotografia que os artistas se libertam disso, ele acrescenta. "Na arte moderna, é você quem cria sua campanha. Não tem mais ninguém dando 'briefing'." A depender de Lannes, a sua campanha continuará a ser feita nas telas, com tinta. Ele diz não se interessar em produzir obras em suportes que não a pintura. "Acho que ela é a mídia que mais explicita a mediocridade de um artista, porque representa o limite do físico." O artista define a relação entre autor e obra como uma luta de boxe. "Você dá um, ela devolve. Não tridimensionalmente, mas moralmente." * PERNOITE Data: Até domingo (29) Local: Galeria Kogan Amaro, al. Franca, 1054 Preço: Seg. à sex., 11h às 19h; sáb., 11h às 15h (agendamento p/ info@galeriakoganamaro.com)