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Torça por mim: 'Nunca quis ser musa. Quero ser a mais veloz', escreve Rosângela Santos

·5 minuto de leitura

O atletismo foi um acaso na minha vida. Eu não escolhi. Quando comecei a praticar esportes, era o basquete. Eu tinha 9 anos, e meu professor de educação física da escola sugeriu que me colocassem em algum esporte porque eu arrumava muita confusão. Fomos ao Centro Esportivo Miécimo da Silva, em Campo Grande. Tinha várias modalidades lá, todas de graça. Primeiro, eu queria aprender a nadar, mas não havia vaga. Escolhi, então, o basquete. Um dia, depois da aula, esperei meu primo que fazia atletismo para irmos embora, e a técnica dele me perguntou se eu queria fazer um teste. Eu não queria, para mim correr era coisa de doido. Mas minha tia Graça acabou me convencendo. Ah, um teste só não vai me matar. Fiz o teste e acabei ficando.

Fiquei por causa dos resultados. Sempre fui muito competitiva. Fui disputar o Estadual mirim, eu achava que ia ganhar de todo mundo, todos diziam que eu era rápida, mas acabou que fiquei em sexto. Eu me lembro que chorei muito com o resultado. Chorei e disse para a minha tia: “Eu vou treinar e vou ser a melhor, você vai ver só”. Sempre fui assim, braba.

O atletismo, para mim, é o dentro da pista, ele é minha profissão. Não gosto da parte da fama que a gente ganha de quatro em quatro anos, não sou muito chegada. Sou mais reservada. Incomodava um pouco quando se referiam a mim e falavam sobre beleza. Isso colocava uma pressãozinha, sabe? Nunca me achei bonita. As pessoas têm a mania de confundir resultado com beleza. Eu não queria isso, de verdade. Nunca quis ser musa do atletismo. Quero ser a mais veloz do mundo, quero minha medalha, meus títulos. Até uma revista me chamou para fazer nu artístico, antes de 2016. Respondi: “negativo, nem pensar”. Um monte de gente disse para que eu fizesse, que seria legal. Meu namorado deu apoio na época. Mas não. Sem a menor condição.

Eu não tinha noção mesmo de como lidar com isso. Hoje posso dizer que me dou bem com a imprensa, com todos. Não corro para ser famosa, eu corro porque gosto de correr. Não conseguia entender por que era importante a gente se divulgar, para conseguir patrocínio, para ter um suporte melhor, para as pessoas conhecerem o que você está fazendo. Sempre tive aversão a isso, fico sem graça. Em Padre Miguel, bairro onde fui criada no Rio, todo mundo me reconhece. Quando vou ser apresentada, falam “é a Rosângela, do atletismo”. Não, não fala isso, não. Sou a Rosângela, e só. Me chama de Rosi que é melhor.

Eu corro mais por minha família do que por mim, até hoje. Eles todos sempre me incentivaram muito. Todas as minhas medalhas ficam na casa da minha tia Graça. Os nomes de identificação que a gente carrega no peito, os números, tem absolutamente tudo lá. Uma parede da sala dela é toda tomada pelas minhas coisas, que seguem em Padre Miguel. Isso me traz segurança, ter esse porto seguro. Sempre ligo para minha tia para contar como acabou a semana de treino. Ela me acompanhou até os meus 18 anos, 19 anos. Foi mãezona de todo mundo, levava pão, fruta, ia e voltava comigo de trem de Padre Miguel até os treinos no estádio Célio de Barros, no Maracanã.

Minha medalha olímpica está lá na casa dela. Até o início dos Jogos de Tóquio, eu era a medalhista olímpica mais nova do Brasil. Se alguém me perguntar como foi que me senti quando corri a prova (100m rasos no Mundial em Londres, em 2017) em 10s92, vou te dizer. E, quando eu terminei em quarto em Pequim, foi um sentimento horrível. O quarto lugar é a pior colocação em que você pode ficar. A sensação é de derrota. Quando acabou a prova, eu estava chorando pelo quarto lugar, e ainda estava machucada. Mas não queria parar de correr e ver as meninas perderem a medalha. Senti um estalo na minha perna, mas fui até o fim.

Fiquei oito anos com o quarto lugar na minha cabeça, não dá para mudar. Em 2016, estava na Vila Olímpica quando recebi a notícia (a Rússia havia sido eliminada por doping e o Brasil ficou com o bronze). Gente, sou medalhista olímpica, do nada. As pessoas me ligavam e eu dizia que nem sabia o que estava acontecendo.

pressão no rio

Disputar os Jogos em casa mexeu comigo, eu vi isso quando tive o problema com um repórter antes das Olimpíadas. Em Londres, eu não estava nem aí. Já o peso de estar no Rio foi bem grande, carregando toda uma nação que te acompanhava, até mesmo aqueles que só ligam a televisão naquele dia e acham que têm direito sobre você. Eu estava sob uma pressão grande. Tinha errado a prova inteira (durante a preparação), e ficava pensando: “e se eu fizer o mesmo nas Olimpíadas?” Acabei descontando na pessoa errada, e a imprensa também não é fácil. Mas você tem de saber lidar com a situação. Foi um aprendizado muito grande. Quando saio insatisfeita de uma prova, procuro respirar, me acalmar, e peço para dar entrevista depois.

Com aquele episódio, pude ver o lado ruim da internet. Sofri muitas ofensas racistas. Fui vítima de ódio gratuito. Aprendi a ignorar, hoje não bato boca. Já estou até prevendo, se eu não ganhar medalha em Tóquio, a quantidade de comentários que vou receber. Mas já estou preparada. Meu Instagram é todo filtrado. Estou me privando muito disso. Não quero que nada me afete. Estou num mantra de paz e ninguém vai tirar essa tranquilidade de mim.

As meninas do revezamento brincam, dizem que sou velha, mas tem atletas mais velhas que eu. É muito pela minha experiência. Procuro conversar, orientar, quando o atleta me dá essa liberdade, eu me aproximo, pergunto se está tudo bem. Para mim, a final do revezamento é certa. Temos essa ideia. Para conseguirmos uma medalha, precisamos acertar nossa corrida. Antes, nosso problema era pisar na linha, agora é a passagem do bastão. Temos de acertar isso. Eu fico o tempo inteiro falando com as meninas, “olha a passagem do bastão, olha a passagem do bastão”.

Não quero pensar muito numa medalha. Às vezes, fico pensando, às vezes, não. Deixa acontecer. O que tiver de ser, será. Quando eu penso em relaxar, lembro da medalha que eu tenho e que não experimentei a sensação de ganhá-la no pódio. É isso o que me motiva. Quero viver isso.

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