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Tom cauteloso da ata freia aposta de novos cortes da Selic

Marcelo Osakabe e Lucas Hirata

Evento mais importante do dia, a divulgação da ata reforçou a mensagem de que um eventual novo corte da Selic será "residual" O ambiente positivo tanto no exterior quanto no cenário doméstico ajudou os juros futuros a fecharem em queda nesta terça-feira em praticamente todos os vértices da curva, em linha com a queda firme do dólar. A exceção ficou com a ponta curta, que encerrou o dia estável se ajustando à ata da reunião da semana passada do Comitê de Política Monetária (Copom). O documento, que reiterou que o espaço para um novo corte da Selic é apenas "residual", foi visto como mais duro por uma parcela do mercado, ajudando a, pelo menos num primeiro momento, frear apostas mais agressivas de novos cortes, que poderiam ocorrer já na próxima reunião.

No encerramento da sessão regular, o contrato do Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 operava estável a 2,035%, mesmo patamar do ajuste anterior; o DI contrato para janeiro de 2022 recuava de 3,03% para 3,00%; o DI janeiro/2023 cedia de 4,18% para 4,12%; o DI janeiro/2025 baixava de 5,91% para 5,83%; e o DI janeiro/2027 passava dee 6,90% para 6,81%.

No caso dos vértices mais longos, contribuiu ainda, mas de forma marginal, a regulamentação do programa de compras de ativos no mercado secundário pelo Banco Central, que foi divulgada mais cedo. "O mercado lá atrás devolveu bastante o prêmio que havia embutido, justamente por conta dessa possibilidade", comenta Luis Laudisio, trader da Renascença.

Evento mais importante do dia, a divulgação da ata reforçou a mensagem de que um eventual novo corte da Selic será "residual". O documento mostrou que a maioria dos membros considera que o Brasil está próximo do potencial limite efetivo mínimo para a taxa básica de juros. Esta seria significativamente maior em economias emergentes do que em países desenvolvidos devido à presença de um prêmio de risco.

“Foi ressaltado que esse prêmio é dinâmico e tende a ser maior no Brasil, dadas a sua relativa fragilidade fiscal e as incertezas quanto à sua trajetória fiscal prospectiva”, diz o documento. “Nesse contexto, já estaríamos próximos do nível a partir do qual reduções adicionais na taxa de juros poderiam ser acompanhadas de instabilidade nos preços de ativos e potencialmente comprometer o desempenho de alguns mercados e setores econômicos.”

Para analistas do Citi, a ata trouxe uma mensagem uma pouco mais 'hawk' (favorável à manutenção dos juros) do que o comunicado havia indicado. Isso pode ser inferido pela discussão sobre o limite mínimo inferior para os juros no Brasil, cuja proximidade é reforçada pela mensagem de que novos cortes poderiam causar "dano potencial a alguns mercados e setores". Além disso, continuam os economistas, o documento revelou que o comitê acredita que o mês de abril foi o pior momento da crise, e que os próximos meses devem ser de recuperação.

"Tudo somado, vemos a ata como ligeiramente mais 'hawk' que o comunicado, o que nos deixa confortáveis com a projeção de que a Selic permanecerá nos atuais patamares nas próximas reuniões. De qualquer forma, a primeira alta ainda está distante", dizem os analistas do Citi.

Guilherme Loureiro, economista-chefe da Trafalgar Investimentos, nota que o tom da ata indica que o estímulo monetário implementado até o momento está condizente com as condições atuais, o que significa que, daqui para frente, qualquer ação adicional está ligada a surpresas no cenário. "O Copom deixou a porta aberta para um eventual corte de 0,25 ponto se necessário. Como no nosso cenário, contamos com uma recuperação mais forte, acredito que em agosto o BC vai ter informação suficiente para dizer que o ciclo de cortes terminou”. A Trafalgar trabalha com uma expectativa da para o PIB esse ano entre -4,0% e -4,5%, contra -6,50% mediana da Focus.

Mariana Dreux, gestora do fundo Macro da Truxt, chama atenção para a discussão sobre as transferências durante a pandemia. "O BC desconfia que quando o lockdown terminar, a população poderá ter renda disponível até maior que antes da crise. Isso é algo que já estamos vendo em outros países que estão saindo do isolamento e que têm surpresa positiva dos indicadores justamente porque implantaram programas de renda semelhantes ao do Brasil", ressalta. "Se esse for realmente o caso, o BC não terá necessidade de aplicar novos novos estímulos. Então, nesse cenário, é difícil cravar ainda, pode haver flexibilização adicional, mas o mais provável seria uma interrupção dos cortes", complementa.

A estabilidade da ponta curta dos juros, no entanto, demonstra que o mercado continua dividido sobre o tema. Para o Goldman Sachs, a linguagem e o conteúdo da ata são ligeiramente favoráveis a cortes e deixam a porta aberta para um possível ajuste pequeno na Selic. o Banco vê espaço para redução de 0,25 ponto percentual ou até de 0,50 ponto da Selic em agosto.

O Copom alerta que pode ter aplicado estímulo suficiente, mas não descarta uma nova rodada de flexibilização residual, diz o economista para Brasil do Goldman, Alberto Ramos. Para ele, a expectativa “muito confortável” de inflação para 2021 e a referência de que as principais medidas de inflação estão abaixo do nível compatível com o cumprimento da meta no horizonte relevante para a política monetária “sugerem que, nessa fase, que um corte adicional na reunião de 5 de agosto é mais provável, exceto no caso de aumentos adicionais nos prêmios de risco fiscal e/ou desempenho inferior do real”.

Embora reconheça um tom mais cauteloso por parte do Copom em sua última reunião, o que indica manutenção da Selic nas próximas reuniões, a Vinland não descarta quedas adicionais da Selic. O fundamento para essa avaliação é o cenário para a inflação: para 2020 e 2021, a projeção da casa para o IPCA está em 1,5% e 2,5%, respectivamente, bem abaixo das metas perseguidas pelo Banco Central para esse ano e o próximo, de 4,00% e 3,75%.

Para Aurelio Bicalho, economista-chefe da casa, esse fator pode fazer o BC pender para novos cortes no futuro. “Se o cenário de atividade for pior do que o esperado, se as expectativas de inflação para 2021 continuarem caindo, aí sim poderemos ter novas quedas da Selic”, explica o profissional. “Se essa surpresa ocorrer no curto prazo, uma redução adicional pode ser efetuada na próxima reunião”, afirma.

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