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Tochas em ato dos '300' ao STF é referência bíblica, diz Sara Winter à PF

Grupo reunido com tochas e máscaras na marcha em direção ao STF, em Brasília. (Foto: Reprodução/Instagram)

A militante bolsonarista Sara Fernanda Giromini, que se autodenomina Sara Winter, afirmou em depoimento à PF (Polícia Federal) nesta segunda-feira (15) que as tochas utilizadas pelo grupo “300 do Brasil” em passeata à sede do STF (Supremo Tribunal Federal) foram uma referência retirada da Bíblia.

O depoimento ocorre após a prisão de Sara Giromini, nesta manhã em Brasília, em ação autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo. Ela é investigada no inquérito das fake news, sob suspeita de ameaça aos ministros do Supremo Tribunal Federal, e foi alvo de busca e apreensão. 

A militantes defensora do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou que o ato foi “pacífico”, “político e religioso” e que o uso das tochas foi inspirado em um trecho bíblico.

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“Que o grupo dos 300 realizou um ato com tochas há duas semanas, mas o ato foi pacífico, sem depredação do patrimônio público, com Corpo de Bombeiros e extintores; Que inclusive pediram permissão à Polícia Militar para acender as tochas; Que o ato foi baseado na passagem da Bíblia, do trecho Juízes, capítulo 7, versículo 16, e foi um ato político e religioso”, declarou ela, em depoimento obtido pela CNN Brasil.

Sara Giromini é uma das lideranças dos “300 do Brasil”, que se define como “o maior acampamento pelo fim da corrupção e esquerda no Brasil” ou “parte do exército que vai exterminar a esquerda e a corrupção”.

Acampados até este sábado nos arredores da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, de onde foram retirados pela polícia do DF, o bando já foi classificado pelo MP-DF (Ministério Público do Distrito Federal) como uma “milícia armada” e a própria Sara já reconheceu que integrantes do acampamento andavam armados.

A respeito da atuação do grupo bolsonarista, ela negou que os “300” estavam envolvidos no ataque com fogos de artifício ao prédio do STF, no sábado, e que não possui nenhuma conexão com os poderes Legislativo, Executivo ou Judiciário e não recebe nenhum apoio financeiro “ou de outra espécie do governo Bolsonaro”.

“300 TEM CARACTERÍSTICAS NEOFASCISTAS”

Na avaliação do historiador Odilon Caldeira Neto, professor de História Contemporânea da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) e membro do Observatório da Extrema Direita, os “300 do Brasil” reúne características neofascistas em seus rituais e símbolos. Um dos exemplos citados por Caldeira Neto para demonstrar tais características foi justamente o uso das tochas e na formação militar feita pelo grupo durante uma marcha com destino ao Supremo.

“Além dos diversos indícios da historicidade pregressa dela (Sara Winter) com grupos neofascistas, essa marcha reproduz uma estética muito comum da extrema direita. A imagem das tochas ficou muito impregnada no imaginário social na associação com a KKK (Ku-Klux-Klan, grupo racista que perseguia e assassinava negros nos EUA), mas também estava presente nas manifestações em Charlottesville”, diz ele, que também estuda neonazismo e fascismo.

O uso das tochas como um dos símbolos abarca diferentes significados, na visão do historiador. “Vemos que essa simbologia da chama, das tochas simboliza quem detém o conhecimento do fogo e que por isso seriam os mais evoluídos. Pode representar também uma purificação nacional ou serviria para afugentar os inimigos. Essa simbologia complexa é um dos componente dessa extrema-direita global”, elenca Caldeira Neto.

PERGUNTAS SEM RESPOSTAS

Por dois únicos momentos, Sara Giromini preferiu manter-se em silêncio a responder às perguntas feitas pelos policiais federais. O primeiro foi a respeito do “objetivo” do grupo “300 do Brasil”, enquanto o segundo trata do vídeo em que ameaçou e xingou o ministro Alexandre de Moraes, após ser alvo de busca e apreensão da PF no dia 27 de maio.