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'Tive verdadeiramente que me reinventar para dar aula', diz professora Cida, que leciona há 40 anos

Imagem que viralizou no Twitter de Cida improvisando para preparar mais uma aula. (Foto: Reprodução/Twitter/Talita Bigon)

A imagem viralizou nas redes sociais. Uma mulher, negra, professora há mais 40 anos, usa um saco de feijão apoiado em uma caixa de leite para segurar o pau-de-selfie onde está o celular com a lanterna ligada, iluminando e gravando uma das aulas que irá transmitir aos seus mais de 380 alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental do estado do Rio de Janeiro.

Maria Aparecida da Silva Bigon, de 59 anos, é a professora Cida para aqueles que lhe conhecem tanto dentro e quanto fora da sala. Ensinando desde os 13 anos, Cida afirma que a recente pandemia do novo coronavírus e as consequências desse distanciamento social trouxeram desafios jamais imaginados por ela.

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“Isso mudou a minha vida de professora de cabeça para baixo. Tenho 40 anos de magistério. Eu costumo brincar com meus colegas e coordenadoras que eu sou professora do século passado, sabe. Essas situações de agora são todas novíssimas, complicadas, ninguém mesmo estava 100% preparado, a salvo das complicações. Tive, verdadeiramente, que me reinventar para dar aula”, detalha.

As turmas começaram cedo para Cida. Nos anos 70, conta, não havia ensino público gratuito às crianças com idades abaixo dos 9 anos e por isso começou, aos 13 anos, a alfabetizar os filhos dos vizinhos na varanda da própria casa, em Duque de Caxias (RJ). O que de início era quase uma brincadeira, virou profissão.

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Em 1980, Cida graduou-se em Licenciatura nas línguas Portuguesa e Espanhola, disciplinas que segue lecionando desde então.

“São 40 anos de formada, sem contar aquele tempo da ‘brincadeira’. Tive uma aluna há uns anos que falou na sala: ‘professora, você deu aula pra minha avó’. Perguntei quem tinha sido a avó dela, achando que poderia ser alguma aluna minha mais velha, da época que dei aula no noturno. Quando ela falou quem era, lembrei que era uma aluna minha que tinha 6 anos quando eu era professora aos 13 anos”, relembra Cida.

A saída da sala de aula, forçada pela necessidade de isolamento social frente à Covid-19, é para ela o maior obstáculo imposto por essa quarentena. “Eu sou aquela professora que olha no rosto, no olho do aluno, e vejo se ele está entendo ou se o pensamento está longe e só o olho está em mim. Com esse distanciamento, você tem uma preocupação com alguém que está do outro lado da tela e que você não está nem vendo”, explica.

Outro problema, segundo ela, são os empecilhos da própria ferramenta em si. “Do lado dos alunos, tem a internet que cai, o celular que é do pai e ele vai precisar em 10 minutos. Aí do nosso lado tem o celular que não comporta a quantidade de vídeos que gravamos, é o bebê que chora, o vizinho que fura, o cachorro que late enquanto a gente está gravando a aula. Estamos contando os dias para isso acabar”, enumera.

Aulas à distância por conta do distanciamento lhe impuseram desafios nunca enfrentados nos mais de 40 anos de sala de aula. (Foto: Reprodução/Twitter/Talita Bigon)

Agora durante a pandemia foi a única fez que Cida considerou a possibilidade de se aposentar, mais precisamente no início da transição das aulas presenciais para à distância, segundo contou a filha, Talita Bigon, autora da postagem com o improviso que viralizou.

“O trabalho dos professores hoje está sendo muito maior do que antes. A gente tem que ter quase cabeça de youtuber, sabe. Prepara aula, grava, vê se ficou bom, vê se você se fez entender, se a luz está boa, se não teve barulho. Tem dias que acordo com uma sensação de incapacidade imensa, outros que acordo com uma dor de estômago de tanta ansiedade para dar aula”, diz.

Mais do que o balanço do próprio conhecimento adquirido, Cida demonstra preocupação é com a continuidade do aprendizado de seus alunos quando retornarem à normalidade.

“Tenho certeza que quando tudo isso passar, vou olhar pra trás e dizer que aprendi. Que conseguir entrar e operar essa plataforma, e que adquiri conhecimento. Mais do que isso, acho que temos que estar prontos a dar continuidade. Precisamos deixar tudo bem amarrado certinho para continuar e não precisar retroceder nesse aprendizado que estamos tendo. Porque, se não, todo esse trabalho que fizemos terá sido em vão. Será um tempo verdadeiramente perdido para eles e para nós”, finaliza.