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Tiroteios cresceram 40% este ano em Niterói, segundo dados da plataforma Fogo Cruzado

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NITERÓI — Maria (nome fictício) mora num dos acessos à comunidade do Santo Cristo, no Fonseca. Aposentada, ela passou a acompanhar jogos de futebol recentemente, mas não por interesse no esporte:

— É para saber se tem tiroteio, porque aqui são muitos e não ouço bem. Ligo a TV para ver se tem jogo e não estou confundindo tiros com fogos.

Na maioria das vezes, ela não está enganada. O bairro onde vive concentra o maior número de conflitos armados na cidade. Dados da plataforma Fogo Cruzado mostram que em toda Niterói o número de tiroteios cresceu 40% este ano. A Polícia Militar diz que os crimes caíram no período.

Ocorreram 201 tiroteios na cidade até setembro, contra 143 no mesmo período do ano passado. Apesar dos números inferiores aos registrados de janeiro a setembro de 2019 (353 tiroteios), a quantidade de conflitos armados este ano já ultrapassou todas as ocorrências de 2020 (187), mesmo ainda faltando mais de dois meses para o fim do ano. Os números indicam que os tiroteios voltaram a crescer em paralelo à flexibilização das atividades após a redução dos casos de Covid-19, algo que Maria percebeu da sua janela.

— Durante o meses de agosto e setembro deste ano, os tiroteios ficaram mais frequentes, sempre à noite e nos fins de semana. Em outubro, parece que deu uma acalmada, mas nunca se sabe, podem voltar. Tenho muito medo de sair na rua à noite aqui — diz.

Fontes da segurança pública contam que há investidas de uma quadrilha que domina comunidades de Parada de Lucas e do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, para retomar o comando da venda de drogas em regiões de Niterói perdida para uma facção rival. Atualmente, apenas uma facção atua nas maiores comunidades da cidade, mas há instabilidade, com as constantes reações dos rivais que tentam voltar. As investidas da quadrilha que perdeu espaço em Niterói estão ocorrendo no Santo Cristo e na Palmeira, no Fonseca, e no Morro do Estado, entre o Centro e o Ingá.

Pelas estatísticas do Fogo Cruzado, dos tiroteios ocorridos este ano, 104 tiveram a presença de agentes do estado, e foram registradas 54 mortes, sendo duas de agentes. Nos 143 tiroteios do mesmo período de 2020, 65 tiveram a presença de agentes e 35 mortes foram computadas, com uma de agente. Para o antropólogo Paulo Storani, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), a presença de agentes, na maioria dos casos, não é a causa dos confrontos.

— Esse aumento é a consequência de uma causa que não tem a polícia como responsável. A polícia atua na consequência dessa causa, que é a falta de política pública, com intervenções sociais voltadas para os jovens em vulnerabilidade. E também um ambiente de justiça criminal que faz com que o criminoso permaneça no delito — avalia.

A Polícia Militar diz que pauta ações com base em informações oficiais disponibilizadas pelo Instituto de Segurança Pública (ISP). Em nota, acrescenta que os indicadores criminais estratégicos de setembro na área de atuação do 12º BPM caíram em comparação com o mesmo mês do ano passado. “O índice de letalidade violenta (três ocorrências) não registrou alteração. Em relação aos crimes contra o patrimônio, todos os indicadores tiveram queda: o roubo de veículos declinou em torno 5%; e o roubo de rua, em torno de 20%. O número de roubos de carga caiu de quatro para três ocorrências”. A PM diz ainda que os resultados de outubro serão promissores, já que até o dia 20 todos os indicadores ficaram abaixo da meta.

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