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Entendeu ou quer que desenhe? Tirinhas mostram problemas sociais e viralizam

Tirinhas mostram problemas sociais. Foto: Reprodução/Instagram

Duas realidades. Dois mundos completamente diferentes. Todo brasileiro conhece uma família de brancos que emprega pessoas negras em suas casas para que elas realizem os trabalhos domésticos. Porém, nem todos entendem como essa situação é complexa e escancara problemas estruturais no Brasil.

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Em Os Santos - uma tira de ódio, o roteirista Leandro Assis e a assistente de redes sociais Triscila Oliveira trazem, de forma didática, debates como racismo, classismo e sexismo para quem está descendo o feed de notícias do Instagram e ainda não entendeu completamente como as relações de poder se dão entre patrões e empregados brasileiros.

Atualmente, as tirinhas produzidas pela dupla viralizaram nas redes sociais e, por consequência, trouxeram discussões importantes sobre essa estrutura e histórico de servidão. Porém, todo o processo que resultou nos Santos começou por volta de 2018, quando Leandro resolveu focar em seu dom com os traços.

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“Eu sou roteirista de TV e cinema, mas eu sempre gostei de desenhar. Deve ter uns dois anos que eu resolvi me dedicar a isso e a começar a fazer roteiros para tiras. Tudo começou com a ideia de fazer quadrinhos de humor para o Instagram, mas eu estava brigando muito nas redes sociais, discutindo contra o [Jair] Bolsonaro… e eu vi que, com o humor, eu não estava conseguindo falar com quem votou nele”, diz.

Sendo assim, Leandro resolveu mudar o foco. “Eu resolvi fazer uma tirinha de ódio sobre um grupo, um tipo de eleitor dele, que são os Santos: brancos, privilegiados e que têm uma família de domésticas que trabalha para eles. Então, essa reação foi virando mais do que isso e passou a ter mais a ver com as injustiças sociais”, afirma o criador do projeto.

Em dezembro do ano passado, Leandro notou que as tirinhas tinham viralizado após um perfil militante compartilhar sua criação. Com o sucesso, a obra atingiu muitas pessoas, inclusive Triscila. De família de empregadas domésticas, ela se comoveu com a história que leu e contatou o roteirista para fazer um relato pessoal.

“Eu tenho 34 anos e sou filha de mãe solo e faxineira. Eu descendo de uma família de empregadas domésticas e, com 12 anos, eu primeiro emprego foi de faxineira. Eu trabalha e faxinava durante minha adolescência. Naquela idade em que a maioria dos jovens estavam escolhendo faculdade, chegar em casa com uma cesta básica era mais importante do que uma nota boa. Essa é a realidade de milhões”, explica Triscila à reportagem.

Após ler o depoimento, Leandro a contatou e viu que ela tinha uma página militante nas redes sociais, a Afemme1. Depois do primeiro contato, Triscila passou a fazer parte da produção dos roteiros para a série a convite do criador da obra.

“Minha participação faz diferença por local de fala. Todos nós temos um local de onde falamos. Ele queria contar a história de uma família privilegiada e de uma outra que ele não conseguiria abranger todas as nuances. Então, por mais que o Leandro seja consciente, ele tem uma limitação diante dos privilégios que ele tem. Ele não conseguiria abordar com propriedade o que é a realidade de uma mulher preta”, explica Triscila.

Leandro concorda com a colega e completa: “Minha intenção, primeiro, era focar na família branca. Mas eu fui vendo que as histórias dos personagens das domésticas eram mais interessantes de serem contadas. E aí eu fui contando até onde eu sabia de conversas com domésticas que tinham trabalhado para a minha família. Mas, a partir da tira 10, a Triscila começou a participar”.

Segundo o roteirista, a produção das tirinhas começa sempre com uma conversa entre os dois para que eles possam discutir sobre o que querem falar e como irão fazer isso. “Tem nove imagens para contar aquela história. Tem ideias que são dos dois, algumas ela escreve mais e me manda… quando a ideia é mais minha, eu vou para o desenho direto e mando para ela. Aí ela vê se tá tudo ok e se tem alguma sugestão”, relata.

Segundo Triscila, as tirinhas são uma maneira mais lúdica de falar sobre uma realidade. “A arte pode tocar mais. É uma maneira de dialogar com o público. Tem gente que faz música, cinema… acredito que a gente possa levantar debates por quadrinhos, principalmente nesses tempos sombrios”, constata.

Até o momento, parece que as tirinhas estão surtindo efeito. Segundo Leandro, algumas pessoas já o procuraram para dizer que os desenhos mudaram a forma como elas enxergam seus privilégios. “Eu mesmo, quando eu estava fazendo, eu via coisas que eu já tinha feito, que minha família fez… eu me surpreendi de lembrar de coisas que eu vivia e que não chamavam minha atenção”, diz.

Para o futuro, Leandro diz que as histórias podem se transformar em uma produção audiovisual. De acordo com o roteirista, muitos seguidores pedem uma série ou um filme com os personagens que já ganharam grande público on-line.