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De terrorista a traficante de drogas, estado do Rio tem mais de mil detentos de alto risco; confira

Paolla Serra
·4 minuto de leitura

Em maio de 2018, o Ministério Público Federal denunciou Jhonatan Sentinelli Ramos, de 23 anos, por formação de organização criminosa e por promoção do Estado Islâmico. Preso preventivamente, o suposto integrante do grupo extremista é um dos 63 detentos da Cadeia Pública Joaquim Ferreira de Souza, no Complexo de Gericinó, considerados de alta ou altíssima periculosidade. Em oito unidades prisionais do Rio, são 1.050 custodiados assim classificados.

Um levantamento feito pelo EXTRA com base em relatórios produzidos pela coordenação desses presídios, ligados à Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), mostra que são 939 homens de alta e 111 de altíssima periculosidade em sete unidades de Bangu, na Zona Oeste, e no Presídio Ary Franco, em Água Santa, na Zona Norte da cidade. Os documentos foram produzidos entre novembro do ano passado e esse mês.

No caso da Joaquim Ferreira de Souza, a lista apresenta grande parte dos nomes ligada às forças de segurança do estado. São policiais e ex-policiais, civis e militares, além de bombeiros, acusados de participação em grupos de extermínio, milícia e até no tráfico de drogas. Conhecido como Monstro, Bruno Nascimento de Oliveira ocupa uma das celas. Na “Relação de internos de alta periculosidade-dezembro/2020”, ele tem a inscrição “Ex-PM morte da vereadora Marielle Franco”.

Detido por policiais da 82ª DP (Maricá), em Guapimirim, na Baixada Fluminense, em dezembro de 2018, Bruno estava com armas e chegou a ser tido como suspeito de participação no homicídio da parlamentar e de seu motorista, Anderson Gomes, em março daquele ano, no Estácio, Região Central do Rio.

Uma resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) regulamenta o uso das videoconferências para audiências, no sentido de garantir maior segurança e redução de custos para os Tribunais de Justiça do país, além de evitar riscos de fuga na condução do réu desde a unidade onde cumpre pena.

No Instituto Penal Vicente Piragibe, onde a capacidade gira em pouco mais de 1.400 presos, há pelo menos 75 considerados de “altíssima periculosidade e poder aquisitivo”. Quase todos os nomes estão ligados à maior facção do tráfico de drogas do Rio. Entre eles está José Benemário de Araújo, chefe da favela do Mandela.

Preso no pavilhão E4, ele foi detido por policiais da Delegacia de Combate às Drogas (DCOD), em Ciudad del Leste, no Paraguai, perto da fronteira do Brasil, em abril de 2014. Ele levava uma vida tranquila no país vizinho e era apontado como o mandante de um ataque à base da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Arará, em Manguinhos.

No mesmo pavilhão de Bruno “Monstro”, há pelo menos oito presos estrangeiros acusados de crimes como homicídios, roubos e estupros. Um deles é o chileno com cidadania argentina Gabriel Andres Cuevas Reinao. Investigado pela morte de uma ex-namorada, em 2012, ele vivia havia quatro anos vendendo pacotes turísticos no Rio quando foi preso em Copacabana pela Polícia Federal. Gabriel estava na difusão vermelha da Interpol, com um mandado de captura internacional.

O sistema carcerário do estado abriga 51.225 pessoas em 52 unidades. De acordo com a Polícia Civil, a avaliação enviada à Seap compete aos delegados, tendo como base o crime pelo qual o preso responde, as investigações em andamento ou inquéritos relatados, e a existência de anotações criminais anteriores.

Subcoordenador do Núcleo do Sistema Penitenciário, o defensor público João Gustavo Fernandes Dias explica que esse ranqueamento não impacta no juízo de valor dos presidiários feito durante a instrução processual, que pode culminar em absolvição ou condenação, tampouco na valoração de suas penas em caso de sentença condenatória. Via de regra, a dita periculosidade influencia somente para participação do detento em audiência por videoconferência.

No pavilhão vizinho está Isaías da Costa Rodrigues, o Isaías do Borel, descrito no relatório da Seap como a “liderança” da comunidade. Um dos mais antigos e influentes nomes dentro do grupo criminoso, chegando a ser chamado de “presidente”, ele foi capturado em 2015, depois de já ter passado mais de 20 anos preso.

Na Penitenciária Laércio da Costa Pelegrino, dos sete presos considerados de alta periculosidade, pelo menos cinco são acusados de ligação com a milícia que atua na Zona Oeste do Rio. Os outros são detentos ameaçados de morte, que estão no chamado "seguro".