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Terapia para Covid promovida por Trump ainda levanta dúvidas

Anna Edney
·3 minuto de leitura

(Bloomberg) -- Um dia antes do início da Convenção Nacional do Partido Republicano, o presidente dos EUA, Donald Trump, e Stephen Hahn, no comando da agência reguladora de fármacos, realizaram uma conferência de imprensa na Casa Branca para anunciar a autorização emergencial de um tratamento promissor contra a Covid-19.

O plasma convalescente, um líquido com fatores imunológicos derivados do sangue de pacientes recuperados da Covid-19, havia mostrado “uma incrível taxa de sucesso” e “salvaria inúmeras vidas”, disse Trump em 23 de agosto. Mais de quatro meses depois e com mais de 330 mil mortes por coronavírus nos EUA registradas desde o início da pandemia, ainda não se sabe o quanto o tratamento beneficia os pacientes, se é que beneficia.

Não foi a primeira nem a última vez que Trump promoveu uma terapia para a Covid-19 com base em dados escassos. Sua defesa da já desacreditada hidroxicloroquina é bem conhecida, e o presidente elogiou o coquetel de anticorpos da Regeneron Pharmaceuticals, dizendo que o medicamento era milagroso após ter sido usado em seu tratamento quando estava infectado com Covid em outubro. Agora, com a distribuição de vacinas desenvolvidas para controlar a pandemia, a saga do plasma convalescente destaca a falta de tratamentos eficazes contra o coronavírus.

Diante das milhares de mortes causadas pela pandemia no mundo todo, a FDA, que regula fármacos e alimentos nos EUA, autorizou o uso de medicamentos promissores apenas com dados preliminares. Do antiviral remdesivir, desenvolvido pela Gilead Sciences, a tratamentos com anticorpos como o da Regeneron, medicamentos para a Covid-19 que foram liberados com grande alarde não conseguiram obter a aprovação dos principais cientistas e grupos de doenças infecciosas.

O plasma convalescente é apoiado por um dos conjuntos de dados mais difusos e, poucos dias após a volta da vitória de Trump em agosto, Hahn, comissário da FDA, minimizou comentários que exageraram sua eficácia. Conselheiros dos Institutos Nacionais de Saúde que compilam as diretrizes de tratamento da Covid-19 disseram em setembro que não havia evidência suficiente de que o plasma convalescente funcionava para recomendar seu uso contra o vírus.

Os dados continuam apoiando a autorização de emergência da FDA, disse a porta-voz Stephanie Caccomo por e-mail. Em setembro, a agência publicou evidências que, segundo a FDA, apoiam o uso de plasma convalescente.

Embora um ensaio citado pela agência tenha indicado ajuda significativa aos pacientes, outros “tendem a indicar um benefício modesto”. A FDA reconheceu que os estudos foram menos rigorosos cientificamente do que normalmente exigidos para provar a eficácia.

A Casa Branca não respondeu a um pedido de comentário.

Mais de 100 mil pessoas nos Estados Unidos já foram tratadas com plasma convalescente. Isso inclui um programa nacional da Mayo Clinic com mais de 90 mil pessoas que receberam o plasma antes da autorização emergencial da FDA.

Lázaro

“Ficou evidente na maioria das pessoas, mesmo quando funciona, que não é uma coisa de Lázaro”, disse Christopher Austin, diretor do National Center on Advancing Translational Sciences. “O efeito seria menor.”

O centro lidera ou está envolvido em ensaios clínicos importantes que finalmente oferecerão uma visão sobre a eficácia do plasma convalescente, mais de 100 anos após começar a ser implantado durante pandemias. A lógica por trás do tratamento é que os anticorpos desenvolvidos depois de uma doença ajudarão pacientes recém-diagnosticados a se recuperar.

“Não sabemos se funciona” contra a Covid-19, disse Austin. “Todos queremos saber a resposta. Eu quero saber a resposta mais do que ninguém. Temos uma obrigação com os futuros pacientes.”

Os ensaios podem produzir dados fundamentais em janeiro ou fevereiro, disse Austin, pelo menos para um subconjunto potencial de pessoas que respondem à terapia.

Pacientes que recebem plasma convalescente com um alto nível de anticorpos no início do curso da doença parecem se sair melhor. Mas ainda não se sabe se determinados grupos de idade, raça ou gênero têm maior probabilidade de responder.

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