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Tensão na AL e frustração com leilão explicam dólar a R$ 4,20

Marcelo Osakabe

A notícia de que o dólar fechou pela primeira vez na história acima de R$ 4,20 voltou a chamar atenção para o câmbio A piora da percepção do investidor estrangeiro sobre a América Latina, influenciada pelas crises políticas da região, e a frustração com a participação do estrangeiro no leilão dos excedentes da cessão onerosa explicam a pressão sobre o câmbio das últimas semanas, avaliam analistas consultados pelo Valor.

No final de outubro, a moeda americana encerrou cotada a R$ 4,0098, beneficiada pela soma de diversos fatores positivos: a aprovação final da reforma da Previdência, a perspectiva de acordo comercial entre China e Estados Unidos e a expectativa com forte entrada de recursos atraídos pelos leilões da cessão onerosa.

Esse cenário mudou rapidamente e, em pouco mais de duas semanas, o dólar superou a máxima histórica anterior e encerrou em R$ 4,2060. Nesse período, apenas o peso chileno teve performance pior: enquanto o dólar acumula alta de 4,75% contra a moeda brasileira, esta chega a 6,43% frente à divisa do país vizinho.

"Estamos em um momento ruim para a América Latina. Junta isso com a decepção com a cessão onerosa e temos essa rápida volta do dólar a R$ 4,20", diz Luiz Eduardo Portella, sócio e gestor da Novus Capital. "Acredito que essa combinação muda o patamar em que o dólar negociava, parece que estamos em um novo equilíbrio agora."

Mais cedo, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, já havia afirmado que a frustração com o leilão afetou a cotação da moeda americana. “Alguns agentes esperavam entrada de recursos maior, então houve um ajuste de posições”, comentou.

A notícia de que o dólar fechou pela primeira vez na história acima de R$ 4,20 voltou a chamar atenção para o câmbio, mas os fatores que o influenciam não são exatamente "novos", lembra Roberto Campos, sócio e gestor da Absolute Investimentos. "Não aconteceu nada em um dia, é um movimento que acontece há algum tempo", diz. Enquanto o leilão cessão onerosa ocorreu na primeira semana do mês, as tensões sociais no Chile se intensificaram há duas semanas. Na semana passada, a renúncia de Evo Morales, na Bolívia, também fez crescer a sombra das incertezas políticas para a região.

USP Imagens

Na cena local, a política em Brasília parou de produzir notícias positivas para a economia após a aprovação final da reforma da Previdência. A reforma administrativa deve ficar mesmo para o ano que vem, já admitem membros do governo. Já o caminho da reforma tributária deve ser ainda mais longo. Ontem, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), criticou fortemente a proposta apresentada pelo governo e disse que fatiar o tema é “condená-la ao fracasso”.

A soma de fatores também foi citada pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Em sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado nesta terça-feira, o dirigente lembrou ainda que a manutenção de uma parcela maior de receitas no exterior por parte de exportadores e a queda dos juros na ponta mais longa, que favoreceu um movimento de troca de dívida externa por interna por parte de empresas instaladas aqui, ajudaram a manter o fluxo cambial negativo no ano.

"Mais recentemente, alguns agentes se posicionaram para capturar essa entrada de recursos maior da cessão onerosa. Como a entrada foi menor, houve uma volta", acrescentou Campos Neto.

O dirigente ressaltou, por outro lado, que a depreciação do câmbio não resultou na piora da percepção de risco do Brasil nem da deterioração das expectativas de inflação. Mas que a autoridade monetária está atenta a isso. "Se por alguma razão, uma desvalorização contínua começar a afetar o canal de expectativa de inflação, aí é outra história. Nós vamos ter que fazer uma atuação diferente."

Uma forma de olhar o risco-país, o spread dos contratos de Credit Default Swap (CDS) de cinco anos do Brasil passou de 115 pontos para 125 desde a última segunda-feira, 4. uma alta de 9%. A variação está em linha com a de outros países da região, como México (10%) e Colômbia (12%), e abaixo da do Chile (20%).

Em um indicativo de que a cautela é regional, o spread do CDS de outros emergentes comparáveis andou menos. No caso da África do Sul, a alta foi de apenas 1%. Já o CDS da Turquia caiu de 329 para 303 pontos, queda de 8% no período.