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Tensão comercial EUA-China e política na AL derrubam Ibovespa

Juliana Machado

Bolsa virou para o negativo a tarde e caiu 0,27%, aos 106.269 pontos A pressão global contra ativos emergentes, com a guerra comercial ainda viva entre China e EUA, e sobre os mercados latino-americanos, envoltos em incertezas políticas, levou o pregão da bolsa de valores a ser novamente marcado pela busca por segurança. Enquanto conduziu o dólar a uma nova máxima de fechamento, na marca de R$ 4,20, o exterior também levou o Ibovespa a apagar os ganhos da manhã, quando chegou a subir quase 1%.

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O principal índice da B3 terminou em baixa de 0,27%, aos 106.269 pontos, perto da mínima intradiária, de 106.246 pontos. Na máxima do dia, no começo do pregão, o Ibovespa chegou a subir até 107.519 pontos.

O giro financeiro das ações do índice foi de R$ 13,5 bilhões, acima da média diária dos pregões do ano, de R$ 12,5 bilhões. Vale notar que o volume foi intenso em uma semana onde há mais um feriado local — na quarta-feira, não haverá negócios na B3 devido ao Dia da Consciência Negra. Isso dá demonstrações do quão cautelosos permanecem os estrangeiros com a alocação de recursos aqui, com a predominância do nervosismo na cena externa.

Foram penalizadas hoje na bolsa várias ações de elevada liquidez, como as instituições financeiras, caso de B3 (-1,53%), Banco do Brasil (-1,10%), Bradesco (-0,76% a ON e -0,66% a PN) e Itaú Unibanco (-0,45%). A Vale subiu 1,30% e a Petrobras fechou com queda de 0,03% a ON e de 0,75% a PN. Dos 68 ativos integrantes do Ibovespa, a maioria (43 ações) encerrou no vermelho.

Ralph Orlowski/Bloomberg

Na virada de outubro para novembro, a trégua comercial entre EUA e China, com a notícia sobre um acordo em primeira fase entre as duas potências, havia garantido uma melhora na migração de recursos estrangeiros para as ações já listadas (mercado secundário) da B3. Com a volta dos temores em relação ao assunto nas últimas semanas, porém, o movimento dessa classe de investidor voltou a pesar: no ano até o dia 13 de novembro, os estrangeiros já sacaram R$ 34,5 bilhões do segmento secundário; no mês, as retiradas estão em R$ 4,1 bilhões.

Segundo analistas, não houve um catalisador específico para a piora do sinal dos mercados, mas sim aquilo que já se sabe: as tensões políticas em países vizinhos ao Brasil, como Bolívia e Chile, e a árida negociação em prol de um pacto comercial entre chineses e americanos.

Segundo Rodrigo Marcatti, sócio-fundador do escritório de gestão Veedha Investimentos, os investidores se ressentiram com as novas informações de que os chineses não estão tão confiantes com o sucesso da primeira fase do acordo comercial com os americanos. A dúvida reside, conforme relatos da imprensa internacional, na retirada de tarifas impostas a produtos chineses, que Washington está com dificuldade de aceitar.

“As tensões sociais em países no entorno só nos atrapalham. A bolsa até demorou alguns dias para sentir os efeitos, mas já reage ao investidor reduzido exposição, enquanto o real continua sendo atingido de frente”, afirma Vicente Matheus Zuffo, gestor da SRM Asset.

Segundo Eduardo Prado, sócio da RJ Investimentos, a valorização do dólar contra o real é um claro movimento de busca por proteção cambial diante das incertezas na cena externa. Isso não muda, porém, o cenário positivo para o Brasil, com o juro cada vez mais baixo e com as reformas já feitas até aqui, na agenda endereçada pelo governo.

“Mas existem muitas incertezas quanto à guerra comercial e as crises na América Latina. Tudo isso leva o investidor a se refugiar no dólar, que não tem um limite para subir”, afirma ele. “Para as ações, eu ainda acredito que essas baixas representam oportunidade de compra. Não muda a visão que se consolidou até aqui sobre os fundamentos das empresas e do país.”