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Tendência na última década, trabalho remoto pode ser 'novo normal' no futuro

Foto: Getty

A ideia de sair de casa, dirigir ou usar o transporte público para chegar ao local de trabalho, pelo menos cinco dias por semana, pode já estar com os dias contados. Na década que se encerra em 2020, o trabalho remoto, que já era tendência lá fora, pegou de vez no Brasil.

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Quando o governo federal promulgou a sua Reforma Trabalhista, em 2017, o "teletrabalho", nome formal do regime de home office, entrou de vez na legislação brasileira e trouxe segurança jurídica para que cada vez mais empresas adotassem a prática.

O que esperar do futuro

Segundo um estudo da consultoria de recursos humanos Robert Half feito com 1.161 recrutadores brasileiros entre 2 de julho e 2 de agosto de 2019, 60% deles dizem que a empresa permite que os funcionários trabalhem remotamente de alguma forma.

Ainda de acordo com a consultoria, o modelo cresceu 47% no Brasil só nos últimos três anos, mas desde 2012 o Brasil é o terceiro país que mais adota o home office como política ou opção para trabalhadores dos mais diversos setores.

E a expectativa é de crescimento. Um pesquisa recente do LinkedIn mostrou que a flexibilidade no trabalho é uma das principais tendências para o futuro segundo 72% dos recrutadores ouvidos pela plataforma.

"O trabalho remoto começou muito tempo atrás, na década de 1970 e 1980, mas o desenvolvimento veio mesmo com a tecnologia, principalmente com a internet", diz André Brik, consultor do Instituto Trabalho Portátil (ITP). "É um caminho [de crescimento] sem volta."

Com o avanço da internet, o home office (escritório em casa) já começa a ser ultrapassado pelo anywhere office (escritório em qualquer lugar). Com uma boa conexão à internet, o profissional não precisa sequer ficar em casa, mas pode trabalhar com o celular ou o notebook de onde quiser.

“O futuro do trabalho tem a ver com o que você faz, e não com onde você está. O escritório hoje não está em casa, está na palma da sua mão”, diz Laércio Albuquerque, presidente da empresa de tecnologia Cisco no Brasil, em recente episódio de Líderes, produção original do Yahoo! Finanças.

Vantagens

Via de regra, os profissionais que entram no regime de home office não têm muito do que reclamar. Uma pesquisa feita pelo International Workplace Group (IWG) com mais de 15 mil entrevistados mostra que 83% deles prefere trabalhar remotamente do que num escritório fixo.

Há estudos que também apontam aumento de produtividade em equipes com regimes mais flexíveis, como um feito pela Universidade de Harvard em 2015 que notou aumento de 13% na produtividade de uma equipe de atendimento ao cliente de uma agência de turismo chinesa.

Aumento de produtividade, para as empresas, significa faturar mais com os mesmos funcionários. Essencialmente, grande parte do apelo desse novo modelo de trabalho está, justamente, na economia: menos funcionários presentes significa corte de custos em diversos setores.

Este foi um dos diversos motivos que levaram a fintech de investimentos Magnetis a apostar num modelo quase totalmente remoto. Um terço da equipe trabalha à distância, principalmente no time de desenvolvimento. Há profissionais trabalhando de seis estados diferentes, embora a sede da startup esteja em São Paulo.

"Nós somos em 100 pessoas, mais ou menos 65 vão até o escritório, só que elas não estão lá todos os dias. Então tem uma economia aí em todos os gastos para manter o escritório", conta Pamela Ortiz, gerente de recursos humanos da fintech.

Como toda startup criada nesta década, a Magnetis já nasceu com a filosofia de trabalho flexível no DNA. Os fundadores, Luciano Tavares e Fabiano Beselga, deram início à empresa trabalhando remotamente. Mas não são só as empresas jovens que estão apostando nesta tendência.

A gigante farmacêutica Bayer, fundada em 1863, também tem um programa piloto de trabalho flexível. Uma parte da equipe tem direito a trabalhar de casa alguns dias na semana, e outra parte trabalha todo o tempo de casa.

"[Home office] é algo que vem evoluindo muito nos últimos anos e é um caminho sem volta", diz Priscila Mendes, gerente de recursos humanos na Bayer. "As empresas precisam se adaptar a isso, principalmente em grandes centros, como São Paulo, como a dificuldade de mobilidade que a gente tem no trânsito."

Priscila admite que o impacto financeiro de uma equipe trabalhando remotamente existe, mas este não é o único motivo pelo qual o programa é mantido há cerca de cinco anos. O trabalho flexível é considerado lá como uma isca para atrair talentos.

"Todo mundo hoje busca otimizar o seu tempo, e ter essa flexibilidade de não ficar refém do trânsito tem um impacto absurdo em qualidade de vida", diz Priscila. "Pensando nas novas gerações, nos millennials, isso é algo extremamente valorizados por eles."

É o mesmo que pensa Sergio Povoa, chefe de recursos humanos (Chief Human Resources Officer) da OLX, plataforma online de compra e venda por classificados. A empresa possui um programa chamado FlexTime que, ele acredita, fortalece a imagem da empresa como uma empregadora interessante para profissionais que buscam trabalhar com flexibilidade.

"Sem dúvida, o principal ganho [com a adoção do home office] é o equilíbrio da vida profissional e pessoal dos nossos colaboradores, trazendo um aumento na qualidade de vida e, consequente, engajamento de talentos", diz Povoa.

Novo normal

Para Lucas Nogueira, diretor de recrutamento da Robert Half, o crescimento do home office faz parte de uma tendência maior para o futuro. Para ele, as linhas que separam o trabalho da vida pessoal estão desaparecendo com o avanço da tecnologia. Quando é hora de parar de trabalhar?

"Hoje você tem o WhatsApp e está online 24 horas. Você tem o e-mail no celular e está disponível 24 horas. A discussão não é mais sobre estar disponível para o trabalho, mas sobre balancear qualidade de vida tendo acesso 24 horas por dia à ferramenta de trabalho."

Ao passo que o avanço da tecnologia torna o trabalho remoto cada vez mais popular, outro problema surge: como manter equipes entrosadas e alinhadas à mesma filosofia quando boa parte do time sequer trabalha no mesmo ambiente?

Esta é uma preocupação da Magnetis. O remédio, por enquanto, tem sido colocar um freio nessa flexibilização. Pelo menos uma vez por ano, a startup banca a passagem de avião e a hospedagem de seus funcionários de fora de SP para reuni-los em um encontro presencial na capital paulista.

"O contato pessoal não pode deixar de existir. Ali você vê a pessoa, tem contato com quem está atrás do computador", diz Pamela. No futuro, porém, momentos de integração como esses podem se tornar raridade e o contato 100% online pode ser o "novo normal", segundo Nogueira.

"Antigamente, para se acender as lâmpadas da iluminação pública da cidade de São Paulo, ia um cara em uma charrete acendendo com querosene lâmpada por lâmpada. Hoje a gente acha isso um absurdo. Proporcionalmente, meus filhos e meus netos também vão achar um absurdo ter que ir todo dia a um lugar para trabalhar."