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Tecnologias Sociais – inovação e protagonismo para transformação social

·7 min de leitura

Fui apresentado ao conceito de Tecnologias Sociais pela primeira vez em 2009 e desde então tenho atuado como uma espécie de “apóstolo” do tema. Nenhuma entidade ou organização espiritual me outorgou esta função, mas decidi imputar a mim mesmo a missão porque, apesar de ser um apateísta, eu acredito em milagres, acredito na capacidade que temos de construir soluções para enfrentar os problemas complexos que afetam nossa sociedade, inspirado por uma piada mencionada no livro “Como Resolver Problemas Complexos”, de Adam Kahane.

Esta piada afirma que só existem duas maneiras de resolvermos problemas complexos: a prática e a milagrosa. A prática, bastante comum no Brasil, é cada um se ajoelhar, isoladamente, e começar a rezar para um santo vir e resolver o problema. A milagrosa ocorre quando as pessoas afetadas pelo problema se juntam e trabalham coletivamente para construir uma solução, e isso está na essência de uma Tecnologia Social.

“Estamos sempre buscando copiar um modelo de desenvolvimento social e econômico de outros países, sem reconhecer que precisamos construir nosso próprio modelo, porque somos diferentes, temos um tecido e uma dinâmica social próprios.”

Além de apóstolo das Tecnologias Sociais, também atribuí a mim mesmo a missão de ser um embaixador do povo brasileiro, na perspectiva de que somos o povo estrategicamente mais bem posicionado do mundo para gerar soluções inovadoras que possam tornar nosso mundo melhor, mais justo e mais belo. Por um lado, temos recursos financeiros, imbatível capacidade de se virar (nosso “sivirismo”), criatividade, entre diversos outros valores, e por outro temos problemas que são similares aos países mais subdesenvolvidos. Fora isso, quando empresas e organizações de países mais ricos chegam nestes países para ajudar, são recebidos como imperialistas, ao passo que nós, brasileiros, somos recebidos como sambistas. Isso faz muita diferença, porque empatia é um tempero essencial para construirmos milagres.

Gosto de afirmar que o mundo todo adoraria ser brasileiro, ao passo que nós somos e não damos o devido valor. Aqui reside um dos nossos problemas de subdesenvolvimento, porque estamos sempre buscando copiar um modelo de desenvolvimento social e econômico de outros países, sem reconhecer que precisamos construir nosso próprio modelo, porque somos diferentes, temos um tecido e uma dinâmica social próprios. Enquanto não percebermos isso, continuaremos a ser uma caricatura de algo mal feito, porque a “eficiência” demonstrada pelos países mais ricos é a mesma que tem nos conduzido ao estado em que vivemos no mundo, especialmente em termos de aprofundamento das injustiças sociais.

Mas o que são Tecnologias Sociais e o que isso tem a ver com milagres?

A definição técnica, criada em 2005, diz que são “produtos, técnicas e/ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que represente efetivas soluções de transformação social”.

Pessoalmente gosto de enfatizar alguns elementos que configuram uma Tecnologia Social (TS):

  1. A solução tem que ser construída em parceria com a comunidade local, que vivencia o problema a ser resolvido. Ou seja, as pessoas não são beneficiárias, mas parte da equipe de pesquisa e desenvolvimento, porque existe um conhecimento local que é o elemento mais precioso da solução;

  2. A solução tem que ser eficaz, tem que resolver o problema, levando em conta o contexto local;

  3. A solução tem que ser escalável, no caso chamamos de reaplicação, porque pode existir a necessidade de adaptação ao contexto local, da próxima comunidade;

  4. A solução tem que ser sustentável, incluindo os aspectos ambientais, sociais, de governança e econômicos – em breve pretendo escrever um artigo sobre TS e ESG+E (Environmental, Social, Governance and Economic).

Para tornar mais tangível o conceito de TS, vou descreve-lo através de um caso real, em educação.

O Synapse é uma Tecnologia Social cujo objetivo é melhorar a qualidade da alfabetização nas escolas públicas brasileiras. A construção do Synapse teve início em 2010 e associa o conhecimento das neurociências sobre processamento cognitivo cerebral das crianças, no aprendizado de linguagem e matemática, e o conhecimento das professoras de Santa Luzia do Itanhy, um dos municípios mais subestimados do Brasil, onde fica a sede da organização social que ajudei a fundar. Estas professoras lidam com um contexto educacional completamente distante do ideal, com turmas multisseriadas (alunos de anos diferentes numa mesma classe), alunos vindos de realidades familiares de alto estresse (violência verbal, física), com fome, entre outros fatores negativos para o aprendizado.

O primeiro passo foi mediar estes dois conhecimentos, porque do lado acadêmico existe a arrogância não-intencional de acharem que sabem como resolver o problema, ao passo que do lado da sociedade existe a baixa autoestima, com as pessoas locais achando que o conhecimento delas não é relevante. No processo do Synapse foram necessários três ano e meio para construir uma relação de confiança, a partir da qual as professoras começaram a atuar, de fato, como coautoras da solução. Ao final de seis anos de pesquisa e desenvolvimento, conseguimos chegar à primeira versão eficaz do Synapse, que possibilitava irmos para a segunda etapa, escalabilidade.

Um ponto relevante sobre escalabilidade. A preocupação com escala precisa começar no início do projeto de construção de uma Tecnologia Social, porque precisamos que o processo leve em conta riscos e oportunidades para quando a solução for disseminada em outras comunidades. Mas pensar em escala na prática só pode ocorrer após a solução ter chegado num nível desejável de eficácia e termos pessoas da comunidade em condições de atuarem como multiplicadores, porque se pensamos em produzir transformação social a sociedade tem que ser a principal protagonista. Caso contrário estamos falando de intervenção social e tal abordagem dura apenas enquanto há transfusão de energia (financeira e/ou pessoal) para a comunidade.

“A preocupação com escala precisa começar no início do projeto de construção de uma Tecnologia Social, porque precisamos que o processo leve em conta riscos e oportunidades para quando a solução for disseminada em outras comunidades.”

É importante levarmos em conta que temos uma mentalidade profundamente assistencialista e de expectativa de resultados num curto prazo, tanto nas comunidades quanto por quem faz investimento social, o que geralmente acarreta na mutilação de preciosas oportunidades de construirmos soluções transformadoras para os complexos problemas sociais do Brasil, associada com a queima do principal combustível para transformação social, que é Esperança.

Entre 2016 e 2018 as professoras de Santa Luzia do Itanhy começaram a atuar como disseminadoras do Synapse para 13 municípios sergipanos e em 2019 para o município de Bacabeira, no Maranhão, primeira experiência interestadual do Synapse.

Sobre sustentabilidade, um dos principais problemas na educação no Brasil é a descontinuidade de políticas públicas, especialmente nas mudanças de comando dos gestores públicos, em qualquer das esferas de poder. Por isso, em meados de 2019, surgiu a ideia da Rede de Professores Synapse, como uma iniciativa empreendedora dos professores de escolas públicas brasileiras para assegurar continuidade e escalabilidade à metodologia. A RPS conseguiu manter o Synapse como metodologia de alfabetização nos 15 municípios onde atuava em 2020, após as trocas de comando, e atualmente o Synapse está sendo usado por professores e professoras de 27 municípios, de 4 estados brasileiros (CE, MA, MG e SE), envolvendo mais de mil profissionais e beneficiando mais de 20 mil alunos. Se quiserem saber mais sobre o Synapse e sobre a Rede de Professores Synapse acesse aqui.

Da mesma maneira, podemos e devemos empreender na construção de Tecnologias Sociais para enfrentar diversos outros problemas que afetam nossa sociedade, especialmente nas comunidades mais subestimadas, que são as únicas que podem nos ajudar a gerar soluções eficazes, escaláveis e sustentáveis. Para isso, precisamos mudar nosso modelo mental sobre como olhamos para caridade e para investimento social. É urgente pararmos de querer usar modelos mecânicos para promover transformação social porque a dinâmica da sociedade é biológica. A principal doença que assola a raça humana é a pobreza e não podemos perder mais tempo fazendo tentando gerar transformação social da maneira errada. As Tecnologias Sociais são um patrimônio brasileiro e mostram o caminho certo.

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