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Cidades inteligentes: Como a tecnologia evitaria os estragos de enchentes

Colaboradores Yahoo Finanças
·4 minuto de leitura
Homem usa caiaque para se deslocar em rua de São Paulo (Foto: AP Photo/Andre Penner)
Homem usa caiaque para se deslocar em rua de São Paulo (Foto: AP Photo/Andre Penner)

Por Matheus Mans

Na última segunda-feira (10), a cidade de São Paulo parou devido a fortes chuvas durante a madrugada. Alagamentos em vários bairros, circulação de trens suspensa e interdição das marginais Pinheiros e Tietê são apenas uma parte do estrago causado pelas águas. Para especialistas, muito poderia ter sido evitado se a tecnologia tivesse sido usada como aliada.

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Sensores, aplicativos de transporte, gerenciamento integrado e comunicação digital com a população são algumas das soluções que já existem no mercado e que poderiam reduzir danos numa cidade como São Paulo ou Belo Horizonte, capital mineira afetada por fortes chuvas em janeiro. O conceito de cidade inteligente, assim, se faz cada necessário no país.

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“O problema que vimos em São Paulo é algo que vemos desde os anos 1980, quando a cidade começou a crescer”, afirma José Maciel, pesquisador em cidades inteligentes pela Universidade de São Paulo (USP). “Uma chuva forte causa enchentes, prejudica famílias mais pobres, impede o transporte, causa prejuízos. A cidade, em resumo, vive o caos”.

Segundo Maciel, o ideal seria que tudo estivesse integrado e gerando dados, por meio de sensores, sistemas de inteligência artificial e mapeamento digital. “Um bueiro começou a entupir? Um sensor pode emitir um alerta, deslocar linhas de ônibus, avisar famílias na região, chamar equipes da Prefeitura”, afirma José. “O problema é que é cada um por si”.

Já existe cidade inteligente no Brasil?

O conceito de cidade inteligente no país ainda está evoluindo. A primeira a adotar o termo e os padrões de tecnologia foi no Ceará, em Smart City Laguna — uma espécie de loteamento em São Gonçalo do Amarante programada para funcionar de maneira integrada e digital. O governo federal, entretanto, está caminhando em passos lentos para lançar outras iniciativas.

Apesar da ideia embrionária de uma conectada, há tecnologia à disposição no mercado. “Temos a síndrome do vira-lata, de achar que nada no Brasil é bom o bastante. Mas temos muita tecnologia à disposição e que teria ajudado a cidade na segunda-feira”, afirma Pedro Teixeira, confundador da aceleradora e consultoria Troposlab.

Foto: Getty Images
Foto: Getty Images

A própria aceleradora de Teixeira tem casos em sua história. A empresa acelerou a startup Instarain, que monitora chuvas e alagamentos, enviando alertas. O usuário recebe um aviso sobre precipitações e áreas de risco para evitar, além de acessar informações com históricos e que apontam dados estatísticos com períodos com mais índices de chuva.

Outras startup focam na destinação de resíduos, evitando o entupimento de bueiros por descarte irregular. A Destine Já oferece planos inteligentes para gestão de resíduos, enquanto a Aterra Ambiental desenvolve estratégias para a gestão e destinação do lixo com mapeamento de possíveis novas economias e mercados.

Por fim, existem várias startups focadas em auxiliar o cidadão no planejamento de transportes. Empresas como Moovit e CittaMobi dão indicações dos melhores caminhos para chegar no destino, levando em conta ônibus, metrô, trem, bicicleta e até carro privado. Em um momento de chuva, esses aplicativos podem se comunicar com a população.

“Mais do que ser um aplicativo de informação, queremos ser um canal de relacionamento com o cliente”, afirma Paulo Fraga, CEO da CittaMobi. “Enviamos mensagens para o nosso cliente sobre estações fechadas, interrupções em linhas de trem, áreas de circulação sem frequência de ônibus. É um tipo de comunicação ativa, que não acontece no dia a dia”.

Falta de integração entre as plataformas é problema

Se existe tanta tecnologia à disposição, por que ainda temos dias caóticos como a fatídica segunda-feira em São Paulo? “Há um foco excessivo em obras e engenharia e, no final do dia, só estão empurrando com a barriga”, explica o pesquisador José Maciel.

Além disso, a burocracia do poder público impede que essas soluções sejam utilizadas para a criação de cidades mais digitais. “Temos tecnologia para tudo hoje em dia. Temos sistemas para transporte, trânsito, chuva, entupimento de bueiros, coleta de resíduos. Se tudo isso fosse usado em conjunto, teríamos uma montanha de dados para ajudar a cidade e as pessoas”, afirma Maciel.

Pedro Teixeira, da Troposlab, ressalta que essas soluções vão para além da temporada de chuvas. “Esse tipo de solução e pensamento vale para muitas coisas. Hoje é a chuva. Daqui seis meses, a baixa dos reservatórios. Depois, picos de calor e de frio. Depois, o trânsito. Todos esses problemas fazem sentido numa cidade mais digital e mais conectada”, afirma.