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Títulos verdes podem ajudar no financiamento das políticas públicas do Brasil, afirma Nordea Asset

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Logo após o resultado das eleições brasileiras, a gestora nórdica Nordea Asset Management, uma das principais referências em investimentos sustentáveis no mercado financeiro em escala global, retirou os títulos do governo brasileiro da lista de restrições na qual haviam sido incluídos desde meados de 2019.

Segundo Thede Rüst, gestor responsável pela área de títulos de dívidas de mercados emergentes da Nordea Asset Management, o histórico do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deu conforto à gestora para a decisão de suspender a restrição de investimento relacionada aos títulos do governo brasileiro.

Apesar da visão mais positiva da Nordea Asset relacionada à política ambiental do novo governo brasileiro, Rüst afirma que ainda aguarda uma definição a respeito da condução da política fiscal para ter mais conforto para fazer investimentos na região.

A expansão fiscal precisa ser controlada e é preciso entender como se dará seu financiamento, afirma o gestor, que mora em Copenhague, na Dinamarca, em entrevista por vídeo à Folha de S.Paulo.

Um caminho que pode ajudar o governo Lula a financiar os programas sociais, aponta Rüst, pode se dar por meio da emissão de títulos verdes.

Segundo o gestor, a partir de 2023, o mercado global estará muito mais receptivo a comprar títulos emitidos pelo governo brasileiro que venham acompanhados de metas de sustentabilidade, algo que ele entende que provavelmente seria muito difícil de acontecer sob o governo Bolsonaro, frente à falta de credibilidade da gestão ambiental no país.

"Esse é um mercado que agora está bastante aberto para o Brasil, em um contexto no qual os títulos verdes são um tipo de ativo bastante procurado pelos investidores globais", diz o gestor da Nordea Asset, que soma cerca de US$ 235 bilhões (R$ 1,25 trilhão) em ativos sob gestão.

PERGUNTA - Quais foram os principais motivos que levaram a Nordea Asset a tomar a decisão de retirar os títulos do governo brasileiro da lista de restrições de investimentos da gestora?

THEDE RÜST - Tomamos a decisão de não comprar títulos do governo brasileiro em 2019, durante o G7 Summit, na época em que Bolsonaro e [Emmanuel] Macron [presidente da França] tiveram discussões, e quando ocorreu uma série de queimadas não apenas no Brasil, mas em diversos outros países também.

Naquele momento percebemos que os riscos ambientais estavam aumentando e poderiam se tornar uma questão de longo prazo para o governo brasileiro. Sentimos que o Brasil não estava tomando iniciativas climáticas inteligentes em relação à preservação da região amazônica. Esse foi o motivo para termos tomado a decisão de restringir a compra de títulos do governo brasileiro.

E a razão para termos revertido essa decisão agora é porque o Lula, durante o seu primeiro mandato, teve um histórico bastante positivo em termos do nível que pode ser considerado razoável de desflorestamento, ele adotou uma política ambiental muito mais sustentável. Nos dá conforto esse histórico dele em relação à questão ambiental.

Além disso, levamos em consideração a habilidade de Lula na entrega de resultados, em induzir investimentos que ajudem no trabalho de preservação das florestas. As agências governamentais precisam fazer um esforço para impulsionar os investimentos relacionados aos cuidados com o meio ambiente, preocupando-se realmente com as metas estabelecidas, sem fechar os olhos para determinadas questões, e avaliamos que Lula tem um bom histórico quando olhamos para as administrações passadas. E pelos primeiros discursos que temos acompanhado, vemos que essas são questões que têm sido apontadas por ele como prioridades. Por isso, com a mudança na administração do país, ficamos mais confortáveis por entender que a questão ambiental seguirá por um caminho mais sustentável.

P.- A Nordea Asset pretende fazer investimentos no mercado brasileiro nos próximos meses?

TR- Sempre mantivemos investimentos em títulos de dívida de empresas no país. Tomamos a decisão de deixar de investir em títulos do governo brasileiro no passado, e voltamos nossa atenção para empresas que avaliamos que adotam boas práticas ambientais.

Entre elas, estão companhias como a Klabin, que atua no setor de papel e celulose, que avaliamos que é um exemplo de uma empresa que consegue fazer um bom balanço entre a utilização das fontes de recursos como a floresta, mas, ao mesmo tempo, com preocupações relacionadas à sustentabilidade da operação. Também investimos na Rumo, do setor de infraestrutura, que emitiu títulos verdes com o compromisso de reduzir as emissões de CO2.

Sempre investimos no Brasil, porque entendemos que é importante alocar recursos em países da América Latina, para contribuir para o crescimento econômico da região. Por isso que, embora tenhamos deixado de investir em títulos do governo brasileiro, avaliamos ser importante manter os investimentos em companhias que consideramos inovadoras na região.

P.- Qual a avaliação da Nordea Asset sobre o mercado brasileiro em 2023?

O que estamos fazendo é observar a situação. No momento o que temos feito é acompanhar as sinalizações sobre a política fiscal do governo Lula. Os mercados de um modo geral estão monitorando as declarações para tentar entender qual será a condução de Lula na economia.

TR- Os desafios são principalmente relativos a um forte aumento nos gastos públicos e na condução da política fiscal. Se olharmos para o caso mesmo de países desenvolvidos, como o Reino Unido, tivemos a proposta de corte de impostos sem medidas de financiamento para contrabalançar, o que teve um impacto muito negativo, inclusive com a queda da primeira-ministra [Liz Truss].

Portanto, estamos em uma situação em que a expansão fiscal é um grande desafio para a administração por parte da classe política em diversos países, o que também inclui o Brasil.

Também temos o desafio da inflação global, e a questão é saber se a política fiscal dos países está preparada para lidar com isso. Nesse sentido, é preciso ter um pouco mais de clareza sobre quais são os planos concretos do governo Lula. E é por isso que neste momento estamos observando, não estamos vendendo, não estamos comprando, estamos analisando a situação para entender qual será o direcionamento fiscal do país, assim como muitos de nossos pares, que estão fazendo o mesmo.

Ainda não temos certeza a respeito, mas parece existir uma concepção por parte do mercado de que Lula adotará uma política significativamente mais expansionista, e a questão é se os investidores darão suporte a uma política que caminhe nessa direção. Esse é um questionamento que precisa ser feito, principalmente considerado o contexto global no qual estamos atualmente.

P.- Qual a avaliação da Nordea Asset sobre as sinalizações dadas até aqui pelo governo Lula a respeito da condução da política fiscal?

TR- A expansão fiscal precisa ser controlada, e é preciso entender como se dará o financiamento dessa expansão fiscal.

Na gestão anterior do Brasil [sob o governo Bolsonaro], poderia ser difícil para o país concluir a emissão de títulos sustentáveis, porque o país, ao menos para boa parte dos participantes de mercado, não tinha credibilidade para fazer isso.

Se o país fizesse uma emissão do tipo [no governo Bolsonaro], provavelmente muitos investidores fariam questionamentos a respeito da política voltada para a preservação da floresta amazônica. E acho que houve agora uma mudança em relação a essa percepção do mercado. Acredito que o governo Lula poderia trabalhar na emissão de títulos que tenham como objetivo a adoção de políticas sustentáveis.

O Uruguai fez recentemente uma emissão de títulos sustentáveis [em outubro de 2022], nos quais a Nordea Asset investiu. Essa é uma alternativa de investimento que gostamos, até porque permite ao investidor acompanhar de maneira mais próxima a forma como os recursos captados são utilizados.

E acho que esse é um mercado que agora está bastante aberto para o Brasil, em um contexto no qual os títulos verdes são um tipo de ativo bastante procurado pelos investidores globais. [Os títulos emitidos pelo Uruguai tiveram uma demanda que alcançou US$ 3,96 bilhões (R$ 21,1 bilhões) mais que o dobro do valor captado de US$ 1,5 bilhão (R$ 8 bilhões)].

O governo Lula poderia seguir por esse caminho da emissão de títulos sustentáveis para obter recursos mais baratos em comparação à administração anterior se conseguir avançar em uma política ambiental sustentável. Esse é um ponto ao qual ainda não foi dada muita atenção até aqui, mas que eu e meus pares estaríamos abertos. O Lula declarou recentemente que o Brasil voltou, e o Brasil também pode voltar no que diz respeito à área de finanças sustentáveis.

Estou muito animado com as perspectivas para o tema, especialmente em relação a um país como o Brasil, que tem um papel tão importante a desempenhar tendo a região da Amazônia em seu território. Esse é um campo que o governo Lula pode e deveria explorar.

P.- Qual balanço o sr. faz em relação ao mercado brasileiro nos próximos anos, considerando, de um lado, uma política ambiental mais responsável do governo Lula, e, de outro, uma política fiscal mais expansionista?

TR- Acho que ainda não temos informações suficientes para fazer uma avaliação desse tipo. O mercado em um determinado momento ficou mais animado com as perspectivas sobre o governo Lula, depois esse entusiasmo diminuiu um pouco, mas ainda não temos todas as informações a respeito de qual será a política fiscal. Além disso, estamos em um cenário macroeconômico global com muita volatilidade.

De toda forma, o que posso dizer é que a maior parte dos investidores provavelmente daria um foco maior para a questão fiscal. Então, basicamente, mesmo se o governo Lula endereçar as questões climáticas, mas for irresponsável fiscalmente, essa não seria uma boa escolha na visão do mercado.

RAIO-X

Thede Rüst

Responsável da Nordea Asset Management pela área de títulos de dívidas de mercados emergentes da gestora nórdica, considerada pelos pares uma das principais referências na temática de investimentos sustentáveis. Entre 2018 e 2019, atuou como membro do comitê consultivo de renda fixa do PRI (Princípios para o Investimento Responsável), rede apoiada pela ONU (Organização das Nações Unidas) que trabalha no desenvolvimento de iniciativas que impulsionem as práticas de sustentabilidade pelos agentes do mercado financeiro.